JCT Music

quinta-feira, novembro 23, 2017

No Photo (final)

No sábado seguinte voltei lá. "A princípio é simples, anda-se sózinho". Levei-lhes o motor eléctrico arranjado, não foi mérito meu porque "embora parecido não era o mesmo motor", mas a candonga alimenta-se destas fatalidades congénitas dos motores eléctricos. Deixei-lhes um desktop e um lcd que tinha no sotão. Levei ração para os pintainhos, pão quente e alguma comida, laranjas e frutos secos, para os adultos. Os serviços municipais tinham aparecido durante a semana para limpar caminhos, abater as árvores mais próximas, retirar os entulhos e organizar a reconstrução. Aos poucos os serviços habituais neste tipo de sítios tinham começado a ser reactivados. Resolvemos todos, perante a minha insistência, ir comemorar. Percorremos o caminho não para Abilene, mas para a sede do concelho onde após uns minutos em Oração na Igreja Matriz, fomos almoçar no único restaurante por ali aberto. Seguiu-se um passeio de carro, um pouco longo, até a um miradouro conhecido, oásis a partir do qual se viam sobretudo serras e povoações no seu estado normal: as casas brancas com telhados vermelhos e as serras frondosas com árvores verdes e alguns ribeiros serpenteando os vales. Não deu para fazer ali um picnic, mas lá regressámos à morada daqueles meus tios adoptivos, ao som das minhas músicas mais adequadas ao optimismo crescente que se sentia. Muito me custou desta vez a despedida. À Dona Maria Adelaide, à Dona Maria de Jesus e ao Senhor Manuel, o meu reconhecido agradecimento de me terem aceite no seio da sua família e sobretudo terem conseguido que eu aceitasse voltar a perceber o que de bom tem a etérea condição humana e de como ela nos pode pacificar com a sua benção. Em relação à promessa que fiz a mim próprio e também a eles, foi cumprida: 
- Não tirei uma única foto. 
Guardo todos os factos, sensações, sentimentos, emoções, felicidade, alegrias, naquele que é o maior dos cartões SD: o Coração! 

terça-feira, novembro 21, 2017

No Photo

"A principio é simples, anda-se sózinho" e voltei lá. Da lista quase toda riscada faziam parte serrotes, alicates diversos, cola de madeira e cola-tudo, aguarrás, lixivia, detergentes diversos, petróleo, vários martelos, quilos de pregos e parafusos, rede plástica, caixilhos de madeira e dois garafões de água, um telemóvel dual-sim que já não uso,... Desta vez levei o Renault Clio. Também levei fruta fresca, alguns frutos vermelhos, comida, sopas feitas, saladas e um pequeno bolo e uma garrafa de vinho. Ah...e talheres e copos também. Senti-me como se voltasse ao convívio da minha familia com quem ia partilhar quase dois dias de trabalho, refeições e conversas. Há muito que não me sentia tão útil a ninguém. Fizemos uma capoeira e no dia seguinte fomos à vila mais próxima comprar uma dúzia de pintainhos e ração. A água continuava a ser retirada do poço através da força dos braços septuagenários. O motor pelo que eu tinha visto estava irremediávelmente perdido, mas eu dizia-lhes que estava quase aranjado. Faltava só mudar uma bobine. Vim-me embora no Domingo ao final da tarde, ainda com saudade nos olhos, daqueles meus novos tios adoptivos. Deixei-lhes o pouco dinheiro que tinha comigo e a promessa de voltar novamente. Havia também a promessa que fizera a mim próprio logo no primeiro dia.

segunda-feira, novembro 20, 2017

No Photo

Desta vez resolvi intervir. "A principio é simples, anda-se sózinho"... chego lá e afasto-me dos centros angariadores, das organizações disto-e-daquilo, das comissões e dos bombeiros. Prossigo por entre os vales por estradas cada vez mais estreitas, chegando cada vez mais longe, até ao sitio mais ermo, até não poder continuar. Como o carro intimida, percorro a pé o pequeno percurso até chegar a um sitio com três construções que já foram casas. Três habitantes. A Dona Adelaide, a Dona Maria de Jesus e o senhor Manuel marido da primeira das duas irmãs. Numa azáfama de 3ª idade empilhavam o entulho que retiraram das casas que já não o eram. Apresentei-me, ofereci-me para ajudar durante algumas horas, pouca receptividade e grande desconfiança inicial, depois de alguma conversa e insistência nos valores humanos, lá aceitaram e ali passei parte do dia. No final, deixei-lhes dois sacos com camisas, calças, casacos para a chuva e sapatos que tinha levado comigo. Todos em bom estado, mas que apenas já não vestia, ou porque engordei, ou porque já não gostava de me ver com eles. Deixei-lhes também duas garrafas de água pequenas e todo o dinheiro, 15 ou 20 euros, que trazia comigo na carteira, mais os trocos que tinha no bolso pequeno das calças. Trouxe comigo o motor eléctrico da bomba de água (ou não fosse eu um engenheiro com o optimismo de que conseguiria repará-lo) e deixei-lhes a promessa de voltar na semana seguinte. 

terça-feira, novembro 14, 2017

O bêbado caía de bêbado


O bêbado caía de bêbado
        E eu, que passava,
Não o ajudei, pois caía de bêbado,
        E eu só passava.
O bêbado caiu de bêbado
        No meio da rua.
E eu não me voltei, mas ouvi. Eu bêbado
        E a sua queda na rua.
O bêbado caiu de bêbado
        Na rua da vida.
Meu Deus! Eu também caí de bêbado
        Deus.

Álvaro de Campos

domingo, novembro 12, 2017

Will You Love Me in December As You Do In May ?



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Kerouac copiou a frase da canção de James Walker que a tinha copiado de J. A. Joyce...

Como é que esta gente terá feito o liceu ?

o que é que se passou?

“Chegou uma esquadra”, disse Austin, “e aqueles a quem chamavam os camones invadiram a cidade, tingindo-a com a brancura das suas fardas. Meia dúzia deles enfiou pela rua acima, passou pelos Vai ou Racha, estes cuspiram para o chão em sinal de desprezo, o Zuca foi atrás deles de braço estendido, esfregando o dedo polegar no indicador, eh, camone, money, money, um camone atirou um monte de moedas ao ar e a miudagem lutou bravamente para apanhar o dinheiro”. “essas excursões a bairros desconhecidos desvendam mundos novos”, interrompeu Mister DeLuxe. “fiz duas ou três desse género e tirei excelentes fotografias”.Austin sorriu. “bem”, disse ele, “os camones continuaram a subir a rua, pararam junto ao Ângelo, que estava sentado no seu banco de madeira a experimentar a harmónica, um deles aproximou-se e disse girls, e fez com o braço o movimento respectivo, we want girls, o Ângelo disse girl é a tua mãezinha, estás a perceber ou precisas de explicador?, sim, a tua mãezinha, o camone riu-se para os outros, um deles avançou e fez uma espécie de passe à Fred Astaire, conta quem sabe, e de repente o Ângelo já tinha guardado os óculos e a harmónica no bolso, começou a despachar os camones, enfiou um pela loja de móveis do Ventura, outro foi cair numa das cadeiras da Barbearia Hollywood, exactamente em cima do Pimentel, que estava a ser escanhoado pelo Joaquim Navalhinhas, um terceiro mergulhou no tanque de roupa da Miquelina Fortes, outro ainda foi também remetido para a loja do Ventura, encontrou o primeiro no caminho, vinha de regresso, e estatelaram-se os dois numa cama de casal, o Ângelo com os pés, com as mãos, com a cabeça, vai disto, os camones enfiavam por tudo quanto era porta, positivamente distribuídos ao domicílio, o Zuca diria mais tarde que Ricardito entre Chamas e Bandidos, a sua fita número um, ao pé daquilo não era nada. A certa altura, com os camones, estoicos a irem e a virem, os Vai ou Racha começaram a subir a rua, meteram-se no vespeiro, foi o Pé de Cabra que disse chegou a hora, o Padeirinha ouviu a frase histórica e havia de transmiti-la mais tarde, nunca se chegou a saber a que hora se referia ele, também não se chegou a saber se tencionavam ajudar o Ângelo que de resto, segundo Molero, conta quem sabe, se havia alguma coisa de que ele precisasse não era com certeza de ajuda, ou ajudar os camones, ou apartá-los, simplesmente o Ângelo começou também a despachar os Vai ou Racha, o Gil Penteadinho deu duas voltas no ar e foi aterrar na carroça das couves do Hipólito, o Tonecas Arenas ficou sentado no primeiro andar do andaime de um prédio que estava a ser pintado, entornando uma lata de tinta cor de rosa sobre o príncipe-de-gales novo do Joca Farpelas , isto depois de passar pela banca de peixe do Zeca Trampa, espadanando carapaus e lulas por todos os lados, o sombrero, esse, voou e entrou pela janela do segundo andar da Dona Ermelinda, o Bexigas Doidas, que quase tinha sido atado pelo Ângelo a um camone, conta quem sabe que fez nó com o braço direito de um e a perna esquerda do outro, entrou com ele sem pedir licença pelo Ás de Espadas, Lda., levaram ambos consigo o Rufino, o Aranhiço, o Roque Sacristão e o Vovô Resmungas, que estavam a jogar à sueca, saíram todos um pouco à balda pela porta do fundo, acrescentados do Douglas Fazbancos e do Chico Dominó, que estavam ali a discutir o Sporting-Benfica do domingo anterior, o Pé de Cabra foi de cabeça contra a parede e até fez eco, abriram-me a cabeça, dizia ele, abriram-me a cabeça, o que, segundo Molero, devia ser por demais evidente, o Peito Rente foi chutado com efeito para a tipografia do Celestino , deu duas voltas lá dentro fazendo parar máquinas que estavam a trabalhar e pondo a funcionar máquinas que estavam paradas, alguém tinha espetado uma faca na barriga do Lucas Pireza, talvez um camone, de certeza que foi um camone, diria mais tarde o Zuca, os camones são uns naifistas do caneco, garantia ele, o Lucas Pireza segurava os intestinos com as mãos, falava baixinho para eles, parecia rezar, os camones iam e vinham, espartanos, segundo Molero, até à medula, a certa altura, numa ressaca, levaram com eles, pelo ar, o Metro e Meio, o Ângelo tinha-os juntado a todos num molhinho, enfeitou-os com o metro e meio, e vai disto, tudo pelo ar, rumo ao Marocas Papa-Milhas, que tinha uma motocicleta cheia de cromados, e a mania das curvas rápidas, já tinha atropelado três gatos e duas pessoas, ia a fazer uma bela curva naquele momento, foi contemplado com a colecção de camones coroada com o Metro e Meio, despistou-se, disse foda-se, foda-se, subiu o passeio, virou de pantanas o mostruário do Raúl Pechisbeque, choveram colares de vidro, pulseiras, broches e anéis, o Marocas continuou em prova descontrolado e tudo, devolveu para dentro de casa o berço que a Gertrudes tinha colocado à porta com o bébé, atravessou a rua aos ziguezagues, embateu na caixa da criação da Mafalda Capoeira e terminou a prova contra o balcão da carvoaria do Galego, lançando o pânico nos elementos do Grupo Excursionista Moscatel, que estavam a beber o meio litro da praxe, enquanto as pessoas assomavam alvoroçadamente às janelas, as mulheres gritavam, o bebé da Gertrudes, que era o melhor pulmão lá do bairro, berrava como nunca, o papagaio do Pimentel, que tinha caído do poleiro e dançava suspenso na correia de metal, esganiçava a sua expressão preferida, ó da guarda, ó da guarda, muitíssimo apropriada, segundo Molero, às circunstâncias, o Fox Terrier do Silva Farmacêutico filava um camone pelo fundilho das calças e fazia questão de não o largar, as galinhas da Mafalda Capoeira corriam espavoridas num cacarejar infernal e num dilúvio de penas, o burro do Hipólito zurrava, os gatos da dona Maria Bicharoco miavam e pulavam, o Alsácia do Tó Peneiras ladrava com aquela fúria só dele, camones entravam por aqui, ex- Malhoas saíam por acolá, às vezes dava certo, parecia que o Ângelo tinha controle sobre a confusão, à distância, o Zuca diria mais tarde que, tirando algumas partes cómicas que pareciam à Charlot, aquilo tinha sido uma coisa iglantónica, o Ângelo era igualzinho a um tal Lone Ranger, só lhe faltava a mascarilha”. Houve uma pausa. ”o rapaz assistiu a tudo isto dentro da mercearia do João Azeiteiro, atrás de um saco de feijão, atónito perante aquilo que Molero denomina o maior fogo de artifício de que há memória em matéria de pancadaria, a balbúrdia plena, o filme de trinta e uma partes em carne viva, o real que se sobrepõe ao mítico, sonhar é pouco, é entra rapaziada, é entrar, eis a maior zaragata de todos os tempos, resolvida numa só sessão e sem ser preciso comprar bilhete, sem cenários de cartão, sem trucagens, sem intervalo segue imediatamente, cabeças, pernas e braços indiscutivelmente partidos, a cara do Pé de Cabra tapada pelo sangue que lhe escorria da cabeça, o Lucas Pireza transportado para o hospital na carripana do Bigodes Piaçaba, os intestinos enfiados outra vez na barriga um pouco à pressa, os camones espalhados pela rua, as mulheres a trazerem bacias de água e toalhas para limpar os feridos, as acusações mútuas, ó camone porque é que não vais jogar à porrada para as tuas streets ? ...não foram os camones, foi o Ângelo, o Ângelo é que começou logo a enfardar, isto foi coisa dos Vai ou Racha, os Vai ou Racha e os camones juntos são a lepra e a diarreia, as lágrimas e os gemidos, Vovô Resmungas de bengala no ar a despontar à esquina ao colo do Roque Sacristão,a Mafalda capoeira a correr atrás das galinhas, o Zeca Trampa a procurar lulas e carapaus nas couves do Hipólito, o Metro e Meio a vomitar coisas de cores esquisitas, esverdeadas e lilases, o Celestino a dizer ao Peito Rente mas tu não podias foder o material a outro?, o Tonecas Arenas a pedir para o ajudarem a sair do andaime, o Joca Farpelas de casaco na mão a chamar de filho da puta para cima a toda a gente, o Gil Penteadinho à procura do dente de oiro, se virem um dente de oiro é meu, o Pimentel à porta da barbearia com meia barba por fazer e o guardanapo ao pescoço, a Gertrudes com o bebé ao colo, alternando, num tom de voz claramente diferenciado, o ó papão vai-te embora, deixa dormir o menino, com o cambada de malandros, cambada de malandros, o Raul Pechisbeque a recolher, de nariz no chão e no boné de um dos camones, pedrinhas coloridas, colares, broches e anéis, o Silva Farmacêutico a tentar tirar da boca do fox-terrier os fundilhos das calças do camone, os Moscatéis a perguntarem ao Marocas se a carvoaria era uma pista de corridas, o Marocas a coxear e a dizer foda-se, foda-se, não mexam na mota, não mexam na mota, o Tó Peneiras rua abaixo em grande velocidade agarrado à trela do Alsácia que perseguia um dos gatos da Dona Maria Bicharoco, o Ventura dos móveis a explicar a um camone que a bed estava partida, o camone a contar com os dedos os galos que tinha na cabeça, o Zeferino Torrão de Alicante a dizer que desta vez ainda tinha sido melhor do que com os ciganos, o Chinês a dizer que sim com a cabeça, o carro da policia achegar, o Joaquim Navalhinhas a perguntar mas o que é que a policia vem fazer agora?, vem contar os mortos?, o Ângelo a por os óculos e a desaparecer, o Zuca havia de dizer mais tarde, que ele desaparecera no ar como o Mandrake, a Dona Ermelinda a devolver o sombrero do Tonecas Arenas pela janela por onde tinha entrado, o sombrero a descrever uma curva larga, planando e caindo suavemente aos pés do Dick Tracy, que era o policia à paisana lá da área, e o Dick Tracy, segundo Molero, conta quem sabe, de sombrero na mão, a perguntar a toda a gente e a ninguém: o que é que se passou?, o que é que se passou?, o que é que se passou?..."


Dinis Machado, in O Que Diz Molero

sábado, novembro 11, 2017

Massive Attack - Paradise Circus (Official Video)





It's unfortunate that when we feel a stone
We can roll ourselves over 'cause we're uncomfortable
Oh well, the devil makes us sin
But we like it when we're spinning in his grip
Love is like a sin, my love
For the ones that feel it the most
Look at her with her eyes like a flame
She will love you like a fly will never love you again
It's unfortunate that when we feel a stone
We can roll ourselves over when we're uncomfortable
Oh well, the devil makes us sin
But we like it when we're spinning in his grip
Love is like a sin, my love
For the one that feels it the most
Look at her with a smile like a flame
She will love you like a fly will never love you again

quarta-feira, novembro 08, 2017

Pulp Fiction

A primeira vez que vi este cartaz foi em França. Nem liguei. 1994. Paris. FNAC .Cenit. La Défense. Campos Elísios. Arco do Triunfo. Moulin Rouge. Pigalle. Bastilha. Torre Eiffel. Notre Dame. Sena. Louvre. Printemps. Centro Pompidou. Caminhadas longas. Euro Disney e Versailles. Musicos no Metro e nos restaurantes. Mousse à discrição. Enfim, dias felizes.

sexta-feira, novembro 03, 2017

Caso dos mails...alastra a Belém...

(...)
Diz-me M. descobriste alguma coisa comigo?
Ensinei-te ou aprendeste alguma vocação nova comigo?
Mostrei-te alguma estrela nova ou disse-te alguma palavra que não te tivessem revelado já?
O Céu, ou o Mar ou as terras eram mais lindas ou brilhavam mais quando estavamos juntos?
Acrescentei alguma letra ao teu vocabulário? 
Despertei algum sentimento ou emoção que não tivesses já tido?
Percebeste alguma coisa de mim e da minha narrativa? 
Alguma vez deste por o tempo ou os rios pararem ou por correrem mais depressa?
Sursum corda direi em breve, fica-nos um grande arrependimento.

JC

Líder Técnico
Pescadores Descalços Associados 
Belém - Nazaré

terça-feira, outubro 31, 2017

"photography can fix eternity in a moment …."


"photography can fix eternity in a moment …."


"photography can fix eternity in a moment …."


"photography can fix eternity in a moment …."



"photography can fix eternity in a moment …."


Quando for a Grande Partida

Quando for a Grande Partida,
Quando embarcarmos de vez
para fora dos seres e
dos sentimentos
E no paquete A Morte (que
rótulo levarão as nossas malas...
Que nome comprazentemente
estrangeiro, de lugar, é o do
porto de destino?)
Quando, emigrantes para
sempre, fizermos
a viagem irreparável,
E abandonarmos este oco e
pavoroso mundo tão (...) para os
nervos,
Estas sensações das coisas tão ligadas e misteriosas,
Estes sentimentos humanos tão naturais e inexplicáveis
Estas torturas, estes desejos para fora daqui (e de agora), estas saudades súbitas e sem
objecto,
Este subir do nosso feminino ao olhar que se vela e é materno para as coisas pequeninas,
Para os soldados de chumbo, e os comboios de corda e as fivelas dos sapatos da nossa
infância,
Quando, de vez, para sempre, irremediavelmente,
(...)

sábado, outubro 28, 2017

Three Boys at Lake Tanganyika ("fix eternity in a moment")

 “In 1932, I saw a photograph by Martin Munkácsi of three black children running into the sea and I must say that it is that very photograph which was for me the spark that set fire to fireworks. I suddenly understood that photography can fix eternity in a moment …. [it] made me suddenly realise that photography could reach eternity through the moment. I couldn’t believe such a thing could be caught with the camera. I said damn it, I took my camera and went out into the street.'”

Henri Cartier-Bresson

Coexistência ?


quarta-feira, setembro 06, 2017

Voltar à infância...

AUTOPSICOGRAFIA

O poeta é um fingidor
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.
E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.

Fernando Pessoa

segunda-feira, agosto 21, 2017

Telegrama dos dias sem nome

Dias férias vazadas. Sono exaustivo descansa. Incursões nos menus. Clássicos de nova leitura. Televisão novelo de vício escuro. Esvazio objectivas no tédio-sombra-voltar ausência. Desafios fios paralelos nesta teia palco. Tempo suspenso amarra em ciclos. Conheço início e termino. Temperatura agride todos estes dias sem nome. Bebamos. Mesmo que por uma concessão divina o soubessemos, de que serviria perceber onde falhámos, Lídia?

terça-feira, agosto 08, 2017

O Café Paraíso


"À porta há sempre quem nos fala,
lá dentro temos tudo que é preciso,
É como a nossa casa, aquela sala.
É assim o café paraíso.
As sombras que passamos no deserto,
mantêm toda a vida o mesmo encanto,
e quando a solidão bate por perto,
o aconchego da mesa do canto.

...."

O Namoro

...'por ti sofre o meu coração' ...


segunda-feira, julho 31, 2017

A propósito...

Devemos agradecer às pessoas que nos fazem felizes... São elas os jardineiros encantadores que fazem nossas almas florescerem.

Marcel Proust


Pleonasmo...nasmo...nasmo...

Um Plátano
   à sombra de um Plátano
      à sombra de um Plátano
         à sombra de um Plátano
            à sombra de um Plátano
               à sombra de um Plátano
                  ...
                                                                              à sombra de um Plátano
                                                                                 à sombra de um Plátano
                                                                                    à sombra de um Plátano
                                                                                       à sombra de um Plátano
                                                                                          ...

"O Pequeno Príncipe" ? Sim, mas... em doses pequenas, Adolf.


segunda-feira, julho 24, 2017

Vai descendo tu

Mudamos esta noite
E como tu
eu penso no fogão a lenha
e nos colchões
onde levar as plantas
e como disfarçar os móveis velhos
Mudamos esta noite
e não sabíamos que os mortos ainda aqui viviam
e que os filhos dormem sempre
nos quartos onde nascem
Vai descendo tu
Eu só quero ouvir os meus passos
nas salas vazias
António Reis - Poemas Quotidianos, 1967

sexta-feira, julho 14, 2017

O Meu Olhar Azul como o Céu

O meu olhar azul como o céu 
É calmo como a água ao sol. 
É assim, azul e calmo, 
Porque não interroga nem se espanta ... 
Se eu interrogasse e me espantasse 
Não nasciam flores novas nos prados 
Nem mudaria qualquer cousa no sol de modo a ele ficar mais belo... 
(Mesmo se nascessem flores novas no prado 
E se o sol mudasse para mais belo, 
Eu sentiria menos flores no prado 
E achava mais feio o sol ... 
Porque tudo é como é e assim é que é, 
E eu aceito, e nem agradeço, 
Para não parecer que penso nisso...) 

Alberto Caeiro, "O Guardador de Rebanhos - Poema XXIII" 

Blue Days

Há dias em que tudo nos parece azul...