sexta-feira, dezembro 26, 2003


Caríssimo Cicatrizante,

Eu sou a sua consciência, não é?
Gostaria de saber porque será que os "tugas" em geral nunca se pautam pela assiduidade...
É perfeitamente ignominioso que demore sempre tanto tempo a alimentar o seu próprio ego, por certo e sabido que este blog foi apenas criado para fomentá-lo. Não é mesmo?

Aproveito para fazer uma ressalva ao poema recente que apresentou na página.
Meu senhor, os sedutores maduros, com ou sem dinheiro, podem sempre. Conseguem sempre. Que a sua ansiedade não se espraia apenas pelos meandros do Poy Cholor...
Há muito mais para ver por aqui, procure.

Gostaria apenas de dizer que deve debruçar-se seriamente sobre as questões da literatura nacional. As gentes devem premunir-se de engenhos intelectuais e labutas configuradas em busca das soluções inerentes ao interesse nacional e, acima de tudo, propôr o mais refinado acautelamento das soluções.

Rebusque nos seus conhecimentos que está lá tudo!

Cumprimentos,



Caros malais, liurais e coisas tais...

A maré está baixa. É a única altura em que se consegue sentir algum cheiro de maresia. Centenas vergam-se, posterior virado ao sol de fim de tarde. Entre o coral morto e as pedras procuram “budu tasi”. Mistura-se com sal, cebola, tamarinhos e chilli. Sabe a mar, assim como que um mar azedo e acre.
Bebo um coco. Carros andam para trás e para diante, evitando tudo o que lhes passa à frente, com mais ou menos respeito pelo alcatrão. Díli está escondida atrás da curva. O Cristo-Rei, outrora símbolo da invasão e do invasor, ainda continua virado para Jacarta mas, como a fé é maior que os homens – uma justificação como qualquer outra - agora já se diz abençoar a cidade e os fieis desta meia-ilha.
E bem precisam de algumas velinhas. Pelo menos a ver pelos recentes ataques veiculados pela grande imprensa local e internacional desta praça. Quem tem tempo faz colheres, ou como se diz em Manatuto, faz queimadas. Aqui, em Díli, faz-se política.
E faz-se tão bem, aliás...
Nunca me sentiria capaz de avaliar, adequadamente, a vida política local. Afinal lá para a minha terra o que me preocupa é a Arábica e a mandioca, não estas coisas de propriedades do Estado, passaportes ou se os códigos que ninguém sabe aplicar devem ser importados de mais perto ou de mais longe.
Mas isso não me impede de ler jornais. Ou de ver televisão. Ou de ouvir os discursos, mais ou menos carregados de passado, nas rádios que lá vão explicando o que se passa.
Outrora, nos primeiros meses de vida deste país, o discurso na boca de todos era o da “solidariedade institucional”. Um termo que deveria agradar a todos, não só aos timorenses mas, especialmente aos internacionais. Consegue, afinal, misturar duas palavras do léxico do “desenvolvimento”, quiçá um termo que terá origem na frase “de cem volvim mil”. Mas como o PR e o PM até parecem mais amigos, o termo deixo de ser utilizado.
Hoje o discurso é outro. Já há quem lhe chame a “desconcertação da oposição”. Em Timor, parece a quem vê de longe, que a oposição não precisa de ser atacada pelo governo. Ela própria, trata disso. Lá se vão desmentindo, desvinculando dos comentários um dos outros. Enfim, entre rumores de golpe, declarações em nome de todos mas com que nem todos concordam, dúvidas existenciais e interpretações diferentes do papel de cada um, lá se vão entretendo...

Bebo mais um golo do coco...

Poderia, rapidamente, tornar-se este local, um ponto de convergência ou de divergência de mentes. Um mero quadro onde um dito Joaneto e um dito Xupado se gladiavam, granjeando mais ou menos amigos, segundo a piada do dia ou a boca do momento. Poderia, facilmente, tornar-se num espaço onde outros se sentiriam acanhados, nervosos e com temor de participar, mais activamente, num diálogo mais salutar onde possam mostrar, todos, o que valem.
Mas não quero alimentar simplesmente os dois egos...
Confesso que me apraz saber que alguém se manifesta tão verdadeiramente preocupado com as questões prementes da meia-ilha. Com temas como a justiça, a defesa ou o estado do ego desta mera escriba, que pode, ou não, estar a ser amaciado por algumas dezenas de consultas por dia.
Apraz-me ainda mais saber que o “caríssimo” quer ouvir as minhas meras deambulações. Infelizmente, porém, o novo mentor deste monte, de seu nome Xupado, poupa nas palavras e evita, atacando, criticando, comentando, tecer qualquer opinião mais concreta ou pessoal sobre os temas de que discorre. Talvez vá ganhando coragem e assim, respostas igualmente mais concretas.

O coco está Xupado... vou-me embora.

Cumprimentos,
Caríssimo Cicatrizante,

Não, não desisti de colaborar...
Antes de me desculpar (se é que tenho), queria apenas dizer que também eu fico triste por ter constatado que afinal a pobreza intelectual que paira pelos ares mauberes é realmente como pensava...
Paupérrima e desinteressada!
Enfim, nem sei se valerá a pena continuar com estas deambulações, meu caríssimo amigo...
Quanto às desculpas, posso ainda acrescentar que outros afazeres tomaram muito do meu tempo, que é escasso e precioso, diga-se. E, também por esta razão estive ausente destes trocadilhos subtis e não menos interessantes.
Neste ano que agora vai acabar salientou-se a minha total consternação e impotente indignação com o incidente: a morte do Sérgio...
Não que ele fosse meu grande amigo, mas conhecia-o, admirava-o e acima de tudo, acreditava nas suas mais nobres intenções.
Aqui deixo também a minha mais simples e singela homenagem a um grande lutador da causa humana.
Boa partida caríssimo Sérgio, que o teu legado fique para sempre na memória de todos aqueles que ainda acreditam que vale a pena lutar por uma condição humana melhor.
Finalizo, por agora, lembrando-lhe que aqui, neste apêndice do mundo, também nós deveremos continuar a lutar por melhorar a condição de vida humana dos que aqui co-habitam.
Veja-se, por exemplo, as infâmes violações, contínuas e sem tréguas entre os compatriotas, ocorridas a todos os níveis, mesmo onde a autoridade supostamente deveria reinar: na academia da polícia.
E as mulheres, por que é que nunca se revoltam? Estão à espera de quê?
Pois é, estes sistemas judiciais não vos garantem protecção, não é?
E então, que mais se pode fazer?

Cumprimentos,
Um pouco mais de Sul

Só um pouco mais de Sul
já era de mais.
Um pouco mais de Sul só se fosse muito. Se fosse em África.
Na foz dum rio azul de areia. No seu cais.
Junto ao campo da batalha perdida que já não se critica.

Dêem-me um pouco mais de Sul, ou muito mais.
Desse orgulho de ser de um povo de viajantes,
Ou então não quero nada, nem de meus pais,
Basta-me a fibra dos navegadores de antes.

quarta-feira, dezembro 24, 2003

Batalha de Alcântara

Feriu-se esta batalha a 25 de Agosto de 1580, entre as aguerridas tropas de Filipe II, sob o comando do duque de Alba, um dos mais talentosos generais da época e as milícias de Lisboa, improvisadas semanas antes pelos partidários de D. António Prior do Crato, neto de D. Manuel, como seu rival. Haviam aquelas atravessado a fronteira a 28 de Junho, com uma força de 23.000 homens.
Passando por Rio Torto, Chafariz de EI-Rei, Orada, Santa Luzia, S. João (entre Arraiolos e Évora), Amoreira (cerca de Montemor), Landeira, Feiteira e Agualva, atingiram Setúbal a 17 de Julho, após 12 dias de marcha efectiva.
Tomada Setúbal e a Torre do Outão, conseguiu o exército efectuar a sua junção com a frota do marques de Santa Cruz, que àquele porto se dirigira. Trazia esta aprovisionamentos para as tropas, que deles muito necessitavam; e assim o duque, tão preocupado até esse momento com a segurança de sua linha de comunicações com Badajoz, pôde transformar Setúbal em praça-depósito para a nova série de operações que projectava: desembarque a oeste de Cascais e tomada de S. Julião da Barra, para facilitar à esquadra a entrada do Tejo.
A 28 de Junho, embarcava o primeiro escalão de transporte, constituído por 6.000 infantes e a artilharia.
Na justa previsão do ataque, mandara D. António para Cascais um destacamento de 4.000 homens, mas a 28 de Julho, vencida a resistência pelo fogo da esquadra, efectua-se o desembarque perto da Guia. No dia imediato rende-se a cidadela.
Continua o duque na vila até 6 de Agosto, para dar tempo à chegada de mais escalões de transporte. A 8 é investida a Torre de S. Julião da Barra, que capitula a 11, por traição. A essa altura, D. António, acampado há seis dias em Belém ou Pedrouços, retira sensatamente sobre Alcântara, preferindo esta posição à da ribeira de Algés.
Chefe experimentado e metódico, avança o duque de Alba com cautela. Estabelecendo seu acampamento nos Jerónimos, bombardeia a torre de Belém, cuja rendição lhe importa mais, talvez, pela artilharia pesada que de lá poderá tirar para o ataque da posição portuguesa da ribeira de Alcântara, que pelo receio de ela impedir a passagem da esquadra.
Ganha enfim a Torre de Belém, pode pensar na batalha. Começa por reconhecer, no dia 24, a posição portuguesa. Vê que D. António principiou a construir uma bateria, frente ao mar, cerca ao edifício onde até há pouco era o antigo Quartel de Marinheiros.
Observa que os nossos têm ocupadas casas junto à ponte, mas que o grosso está acampado — formando na praça de armas, como ao tempo se dizia — onde hoje se encontra o palácio das Necessidades.
D. António, firmando-se pela esquerda, no Tejo, onde o apoia a esquadra, tem a sua ala e flanco direitos fortalecidos por duas linhas de espaldões (anteparos de fortificações), entre as ravinas da Fonte Santa e dos Sete Moinhos. Repara ainda, decerto, em que o escarpado da margem direita em frente dessas trincheiras não permite que daí possa desembarcar qualquer ataque.
Dispondo de tropas sólidas, numerosa cavalaria, artilharia e superioridade numérica dupla, não lhe é difícil a solução do problema. Ataque fixante (Próspero Colonna com a infantaria italiana) sobre a ponte; manobra com dois grupos de forças: um (Sancho de Ávila), com infantaria (3 esquadrões, formações compactas, de piqueiros, e 7 mangas soltas de arcabuzeiros) ; outro (D. Fernando de Toledo), com toda a cavalaria.
O primeiro destes grupos terá por missão o envolvimento simples do nosso flanco direito, nos Sete Moinhos; o segundo, seu torneamento, supomos que a montante de Vila Pouca, para os lados de Campolide. Atrás da zona neutra do escarpado, em frente dos entrincheiramentos portugueses, só artilharia.
Passa-se a noite de 24 a 25 em cuidado no campo português, alarmado por falsos prenúncios de ataque, ordenados pelo duque. Ao romper do dia 25 está este nos Moinhos da Estrangeira, seu local de comando, escolhido em frente do extremo flanco direito de D. António. Falha-lhe, porém, o ataque simultâneo, unitário que preparara. Próspero Colonna avança isolado e é repelido.
Pede reforços ao duque... Este, porém, não se perturba. E a manobra, implacável, prossegue sobre a nossa direita donde, parece, tropas haviam sido, pouco antes, retiradas para reforço da ponte, no extremo oposto. Enfraquecido o flanco defensivo português, organizado ao sul da ravina dos Sete Moinhos e desprovido também, cremos, de patrulhas avançadas que prevenissem da ameaça iminente, da infantaria de Sancho de Ávila — é ele julgamos, tomado facilmente, por quási de surpresa.
E logo essa infantaria, em breve reforçada pela cavalaria de D. Fernando de Toledo, marcha em combate frente ao sul, correndo ao longo da nossa linha de batalha. Formada face a oeste, como poderia esta, em dez ou vinte minutos, improvisar, por uma conversão de noventa graus ao norte, uma nova frente de combate? Não resistem à prova nossas milícias; não resistiria ainda um exército de profissionais, mesmo mais numeroso. Porém já iniciada a debandada, ainda no outro flanco tropas há que, pela coragem fria com que se mantêm, lembram Aljubarrota e anunciam Montes-Claros, vitórias gloriosíssimas que, quando outras não houvera, redimiriam todas as derrotas.
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Frei Gonçalo de Azevedo, que se encontra sepultado na Ermida de Nª Snrª da Conceição da Abóboda, foi um nobre cavaleiro da Ordem de Malta, Comendador e Alcaide-Mor do Castelo de Algoso (Miranda do Douro), na raia transmontana, entre 1588 e 1610. Filho de Diogo Fernandes de Almeida e de D.Maria da Fraga, neto de João Fernandes de Almeida, Vedor da Fazenda do rei D.Manuel, e, bisneto de D.Duarte de Almeida, companheiro de armas de D.Afonso V em África.
Frei Gonçalo de Azevedo, juntamente com seu pai e seus irmãos, foi apoiante de D.António, Prior do Crato, em 1580, na luta pela sucessão ao trono, como consequência da morte do rei D.Sebastião na Batalha de Alcácer-Quibir (1578). A Ordem Religioso-Militar de Malta, a que pertenciam Gonçalo de Azevedo e seus irmãos, era a herdeira da Ordem do Hospital, fundada na Terra Santa no tempo das Cruzadas (séc.XII), primeiro com a finalidade de cuidar dos peregrinos em hospícios ou hospitais e, mais tarde, de a defender militarmente dos Muçulmanos.
No séc.XVI a sua sede viria a transferir-se para a ilha de Malta, designação que passaram a adoptar a partir de então. Em Portugal, os cavaleiros do Hospital participaram na Reconquista, tendo recebido como recompensa muitas terras a sul do rio Tejo. A sua sede estava localizada na vila do Crato e o Grão-Mestre da Ordem era conhecido como o Prior do Crato. Daí, o apoio concedido em 1580 pelos cavaleiros Azevedo a D.António, em obediência à sua congregação.
Reza a tradição que D.António se teria refugiado na Ermida de Nª Snrª da Conceição da Abóboda, após ter sido derrotado na Batalha de Alcântara, fugindo ao exército castelhano. Numa magnífica sepultura mandada fazer por Frei Gonçalo de Azevedo nesta Ermida, jazem os seus progenitores, tendo sido nela encontrada recentemente uma bela espada de finais do séc.XV. A lenda da fundação desta Ermida, construída em agradecimento a Nª Snrª da Conceição por ter salvo da morte por acidente um cavaleiro durante uma caçada na região, poderá mesmo ser atribuída a Diogo Fernandes de Almeida, pai de Gonçalo de Azevedo.

quinta-feira, dezembro 18, 2003


Queridos malais, liurais e coisas tais... Estive todo o fim-de-semana fora. O monte tem destas coisas e por vezes cansa-me. Preferi oscilar entre a praia e o campo, onde ainda estou por mais uns dias. Só consegui enviar este texto hoje porque só agora arranjei 10 minutos no novo cyber-café que a TT (Telefones??? Talvez!!!) instalou numa pequena aldeia à saída de Soibada. As filas eram longas. Quase seis pessoas que queriam enviar emails uns aos outros e que passaram toda a tarde a tentar combinações diferentes de josé_ximenes38903....@... para poderem ter endereços electrónicos. E para depois trocarem de emails e se poderem “comunicar”. Como só podem enviar emails deste único cybercafé, tentei explicar-lhes que seria mais fácil se combinassem todos a mesma hora para virem ao cybercafé e podiam conversar “em pessoa”. Um deles aceitou, mas a maioria preferiu permanecer ligado. Tomás, agricultor de profissão, construtor civil nos tempos livres, baixou ligeiramente a cabeça e disse-me um palavrão. Corei, apesar de não perceber o verdadeiro sentido da expressão que era numa língua local e aquém dos meus conhecimentos da região. Disse-me que só com o email poderia enviar fotos do casamento aos outros amigos da aldeia. Lembro-me agora de o ter visto. Do lado da família do noivo, no domingo passado. A noiva, resplandecente, sentava-se alegre e contente ao lado do jovem noivo, engenheiro e recente ingresso na função pública. Foi comprada, numa longa negociação de dote, por dois búfalos, três caixas de cerveja “Tiger” e um cordão de ouro comprado em Colmera. O bolo de noiva tinha três andares. Devem ser uma família rica. Vou ver se arranjo o email deles.

Cara A...

Confesso que a tua última mensagem me deixa verdadeiramente assustado. Não quero, nem de longe nem de perto, perder a tua contribuição. Tanto por ser a mais assídua como por ter sido a única que motivou comentários neste espaço de todos nós.
É aliás, verdadeiramente nice to speka to U. Penso que trazes a voz firme da juventude a este canto, que sei estar a motivar alguns comentários de café, mas poucas participações concretas...
É especialmente significativa a contribuição que tens dado para este site. Permitirá justificar, certamente, a contínua aposta nesta língua de comunicação global.
Nem sei por onde começar. Talvez por dizer-te que aprecio o facto de teres deixado as raves e as discotecas da Austrália para vires para aí curtir uma de experimentar forças de paz e contingentes médicos. Confesso que não é qualquer uma...
Recomendo-te duas coisas:
1 – Usa sempre protecção. Sabes que estás mais próxima do equador e que, por isso, o sol é mais forte. Como vives fora há muito tempo podes não estar habituada.
2 – Continua a escrever. Já encontraste aqui alguém interessado em escrever contigo... por isso, deves continuar. Quem sabe serás tu, um dia, a ser comprada por alguns búfalos. Ou vires a tratar dos montes carecas de Timor...
A propósito: não deves ficar preocupada com a tua amiga que se casou. Afinal ela deve engravidar este fim-de-semana e daqui a 12 filhos já nem se lembra de mais nada.

Cumprimentos
Olá Cicatrizante

Hoje estou de mau humor...
Ando com a impressão de que afinal não és assim tão interessante e, assim sendo, muito provavelmente deixarei de te escrever...
Nunca me respondeste e nem sequer tiveste a delicadeza de dizer qualquer coisa de interessante nos últimos tempos...
Logo agora que eu estava a começar a ser tão selectiva nas minhas escolhas.
Bem, quanto aos teus amigos, sinceramente parecem ter mais bom humor do que tu!
Hoje vou falar-te dos dotes matrimoniais(barlaque) em Timor Leste.
A Zicarinha, minha "prima" adoptiva, foi pedida em casamento este fim-de-semana.
Imagina que vai casar-se com um timorense! Hughhhh! Unbelievable!
A pobrezita, que é de Los Palos, e portanto considerada no "mercado das noivas" como uma das mais caras, esteve o fim-de-semana inteiro enfiada dentro de um quarto da casa dos tios em Dili, enquanto os machos da família negociavam, sentados numa esteira a beber tuaca e a mascar areca e betel, o seu custo com os parentes do futuro marido. E aqui vale tudo: búfalos, ouro, dinheiro, porcos, galinhas, cabras, Tais e outras insignificâncias. Absurd!
No domingo à noitinha, lá conseguiram fechar negócio: 10 búfalos, USD$3,000 em ouro, USD$1,500, 5 porcos e 10 galinhas, 7 cabras, 3 Tais, electrodomésticos, mobília da casa, carro e o noivo paga a boda.
O pobre do noivo, depois desta despesa, obviamente que fará da rapariga o que quiser! Appalling!!!!!
A miúda estava assustadissima a pensar que como mercadoria que é, deverá fazer tudo o que o futuro marido quiser e ela nada poderá fazer, nem a família... a não ser que devolvam tudo, o que me parece pouco provável!
A estúpida ainda por cima é virgem! Dumb!
O que é que ela leva desta vida?
Eu bem lhe disse para se divertir antes de dar o nó mas a parva tem medo até da sua sombra! Bitch!
Portanto, mais uma escrava da babárie dos homens!
Eu pudesse, e eu mostrava-lhes como é que eu faria negócio com os homens! Oh, yes! If I could I would make an astonishing deal!
Eu estive algum tempo na cerimónia, para agradar à minha mãe, mas comecei a ficar tão enervada com esta história que decidi ir beber um copo ao Central e depois ao Sagres, e felizmente que, pensei, nunca terei de passar por isto! Very Cool man!
Mas, e isto custa-me, como é que é possível serem permitidas estas coisas nos dias que correm?
E tu, a olhares montes secos e carecas...
Não sei se até à próxima...

Queridos malais, liurais e coisas tais...

Entre as vernáculas indonésias conta-se a importante expressão “jam kareta”, qualquer coisa como “tempo de borracha”. E de facto, por estas regiões do globo, o tempo é sempre contado de maneira diferente. Parece esticar, qual seminário das Nações Unidas ou salário de consultor. Por isso não é de admirar que os dias que tirei para ir visitar um "familiar" que faleceu, lá para os lados de Zumalai, tenham parecido mais longos. Foi uma festa linda, cheia de ex-quadros da resistência, dirigentes de partidos políticos e responsáveis de organizações internacionais.
Ainda assim, depois de quase um mês de ausência, poderia pensar-se que aqui, do meu alegre monte, ainda com o plástico do ACNUR e a parabólica da Missão Portuguesa, não sairia mais prosa. Mas como nem tudo o que parece é - olhe-se só para os sinais de que as obras iam finalmente arrancar na Embaixada de Portugal em Díli – cá estou, de regresso.
Ainda tentei manter-me a par do que se passava nesta santa capital. Mas como só tinha acesso à rádio e televisão, como o meu telefone não tinha SMS e como a rádio comunitária de Zumalai só falava do impacto da construção de um novo canal de irrigação nos 13 campos de cultivo da zona, fiquei ligeiramente sem informação.
Bem tentei alguns contactos com quem sabe tudo em Díli. De pouco serviu. Parece que terá havido alguns problemas nos tribunais – como se isso ainda fosse novidade; tristemente o parlamento ficou só com 87 deputados – como se em alguma sessão, desde a inaugural, lá tivessem estado os 88; e a Pousada de Baucau reabriu – de uma forma quase tão estranha como fechou. Parece que vagou uma casa na zona nobre da cidade – dizem que com uma renda baixa; e foram apanhadas mais algumas prostitutas – lá vai o FMI ter que rever o nível de inflação para 2004.
Dizem-me que há um novo passeio à frente do Palácio do Governo – já só faltam os outros todos da cidade; que o dono de um grande supermercado acabou de ganhar a lotaria – devia ter incluído isto no capítulo dos tribunais; e que um deputado português partiu a perna em Bali – lá estão os ex-inimigos a fazer das deles.
Uma das coisas que mais me surpreendeu, na minha visita a Díli, foi ver, plantado no jardim à frente do célebre monumento da independência a Timor-Leste, uma placa de uma certa instituição, a confirmar a sua ligação ao projecto. Para quem não sabe, o dito cujo monumento foi oferecido por Portugal, e confusamente, foi inaugurado a 20 de Maio do ano passado.... muito mais de um ano antes de estar pronto.
Considerado por um importante chefe desta praça, um monumento do paleolítico, o dito cujo ainda não está pronto. Faltam assim como que uns paus de madeira. Acho é de bom tom que alguém queira admitir, tão frontalmente, que está ligado a um projecto tão atrasado...
Como certamente terão acontecido outras coisas, neste interregno, solicito actualizações. Digam de vossa justiça. A garantia do anonimato é tão certa como eu chamar-me....

Pois...
Não queriam mais nada!!!!

Must

to love...and to die,
it is a must

NOITES FUSCAS DE DÍLI

No Poy Cholor vi à noite as tailandesas,
que passavam pernilongas e lascivas,
sem verem bem as minhas tentativas
e sem saberem que tinha dólares p'rás despesas!

Quero ter outra vez os meus vinte anos,
sabendo o que sei hoje, e atravessar-me
de coração pulando em puro alarme
no caminho das ditas. Mas tais planos

podem sair furados. É melhor
fazer valer os trunfos que ainda tenho
e franzir divertido o sobrecenho,
dando-lhes a entender que as sei de cor.

E sem saber se a tanto me aventuro,
vou-me dando ares de sedutor maduro.

Comprometidamente o Vosso,

(ASR armada em) Cicatrizante