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quarta-feira, dezembro 24, 2003

Batalha de Alcântara

Feriu-se esta batalha a 25 de Agosto de 1580, entre as aguerridas tropas de Filipe II, sob o comando do duque de Alba, um dos mais talentosos generais da época e as milícias de Lisboa, improvisadas semanas antes pelos partidários de D. António Prior do Crato, neto de D. Manuel, como seu rival. Haviam aquelas atravessado a fronteira a 28 de Junho, com uma força de 23.000 homens.
Passando por Rio Torto, Chafariz de EI-Rei, Orada, Santa Luzia, S. João (entre Arraiolos e Évora), Amoreira (cerca de Montemor), Landeira, Feiteira e Agualva, atingiram Setúbal a 17 de Julho, após 12 dias de marcha efectiva.
Tomada Setúbal e a Torre do Outão, conseguiu o exército efectuar a sua junção com a frota do marques de Santa Cruz, que àquele porto se dirigira. Trazia esta aprovisionamentos para as tropas, que deles muito necessitavam; e assim o duque, tão preocupado até esse momento com a segurança de sua linha de comunicações com Badajoz, pôde transformar Setúbal em praça-depósito para a nova série de operações que projectava: desembarque a oeste de Cascais e tomada de S. Julião da Barra, para facilitar à esquadra a entrada do Tejo.
A 28 de Junho, embarcava o primeiro escalão de transporte, constituído por 6.000 infantes e a artilharia.
Na justa previsão do ataque, mandara D. António para Cascais um destacamento de 4.000 homens, mas a 28 de Julho, vencida a resistência pelo fogo da esquadra, efectua-se o desembarque perto da Guia. No dia imediato rende-se a cidadela.
Continua o duque na vila até 6 de Agosto, para dar tempo à chegada de mais escalões de transporte. A 8 é investida a Torre de S. Julião da Barra, que capitula a 11, por traição. A essa altura, D. António, acampado há seis dias em Belém ou Pedrouços, retira sensatamente sobre Alcântara, preferindo esta posição à da ribeira de Algés.
Chefe experimentado e metódico, avança o duque de Alba com cautela. Estabelecendo seu acampamento nos Jerónimos, bombardeia a torre de Belém, cuja rendição lhe importa mais, talvez, pela artilharia pesada que de lá poderá tirar para o ataque da posição portuguesa da ribeira de Alcântara, que pelo receio de ela impedir a passagem da esquadra.
Ganha enfim a Torre de Belém, pode pensar na batalha. Começa por reconhecer, no dia 24, a posição portuguesa. Vê que D. António principiou a construir uma bateria, frente ao mar, cerca ao edifício onde até há pouco era o antigo Quartel de Marinheiros.
Observa que os nossos têm ocupadas casas junto à ponte, mas que o grosso está acampado — formando na praça de armas, como ao tempo se dizia — onde hoje se encontra o palácio das Necessidades.
D. António, firmando-se pela esquerda, no Tejo, onde o apoia a esquadra, tem a sua ala e flanco direitos fortalecidos por duas linhas de espaldões (anteparos de fortificações), entre as ravinas da Fonte Santa e dos Sete Moinhos. Repara ainda, decerto, em que o escarpado da margem direita em frente dessas trincheiras não permite que daí possa desembarcar qualquer ataque.
Dispondo de tropas sólidas, numerosa cavalaria, artilharia e superioridade numérica dupla, não lhe é difícil a solução do problema. Ataque fixante (Próspero Colonna com a infantaria italiana) sobre a ponte; manobra com dois grupos de forças: um (Sancho de Ávila), com infantaria (3 esquadrões, formações compactas, de piqueiros, e 7 mangas soltas de arcabuzeiros) ; outro (D. Fernando de Toledo), com toda a cavalaria.
O primeiro destes grupos terá por missão o envolvimento simples do nosso flanco direito, nos Sete Moinhos; o segundo, seu torneamento, supomos que a montante de Vila Pouca, para os lados de Campolide. Atrás da zona neutra do escarpado, em frente dos entrincheiramentos portugueses, só artilharia.
Passa-se a noite de 24 a 25 em cuidado no campo português, alarmado por falsos prenúncios de ataque, ordenados pelo duque. Ao romper do dia 25 está este nos Moinhos da Estrangeira, seu local de comando, escolhido em frente do extremo flanco direito de D. António. Falha-lhe, porém, o ataque simultâneo, unitário que preparara. Próspero Colonna avança isolado e é repelido.
Pede reforços ao duque... Este, porém, não se perturba. E a manobra, implacável, prossegue sobre a nossa direita donde, parece, tropas haviam sido, pouco antes, retiradas para reforço da ponte, no extremo oposto. Enfraquecido o flanco defensivo português, organizado ao sul da ravina dos Sete Moinhos e desprovido também, cremos, de patrulhas avançadas que prevenissem da ameaça iminente, da infantaria de Sancho de Ávila — é ele julgamos, tomado facilmente, por quási de surpresa.
E logo essa infantaria, em breve reforçada pela cavalaria de D. Fernando de Toledo, marcha em combate frente ao sul, correndo ao longo da nossa linha de batalha. Formada face a oeste, como poderia esta, em dez ou vinte minutos, improvisar, por uma conversão de noventa graus ao norte, uma nova frente de combate? Não resistem à prova nossas milícias; não resistiria ainda um exército de profissionais, mesmo mais numeroso. Porém já iniciada a debandada, ainda no outro flanco tropas há que, pela coragem fria com que se mantêm, lembram Aljubarrota e anunciam Montes-Claros, vitórias gloriosíssimas que, quando outras não houvera, redimiriam todas as derrotas.
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Frei Gonçalo de Azevedo, que se encontra sepultado na Ermida de Nª Snrª da Conceição da Abóboda, foi um nobre cavaleiro da Ordem de Malta, Comendador e Alcaide-Mor do Castelo de Algoso (Miranda do Douro), na raia transmontana, entre 1588 e 1610. Filho de Diogo Fernandes de Almeida e de D.Maria da Fraga, neto de João Fernandes de Almeida, Vedor da Fazenda do rei D.Manuel, e, bisneto de D.Duarte de Almeida, companheiro de armas de D.Afonso V em África.
Frei Gonçalo de Azevedo, juntamente com seu pai e seus irmãos, foi apoiante de D.António, Prior do Crato, em 1580, na luta pela sucessão ao trono, como consequência da morte do rei D.Sebastião na Batalha de Alcácer-Quibir (1578). A Ordem Religioso-Militar de Malta, a que pertenciam Gonçalo de Azevedo e seus irmãos, era a herdeira da Ordem do Hospital, fundada na Terra Santa no tempo das Cruzadas (séc.XII), primeiro com a finalidade de cuidar dos peregrinos em hospícios ou hospitais e, mais tarde, de a defender militarmente dos Muçulmanos.
No séc.XVI a sua sede viria a transferir-se para a ilha de Malta, designação que passaram a adoptar a partir de então. Em Portugal, os cavaleiros do Hospital participaram na Reconquista, tendo recebido como recompensa muitas terras a sul do rio Tejo. A sua sede estava localizada na vila do Crato e o Grão-Mestre da Ordem era conhecido como o Prior do Crato. Daí, o apoio concedido em 1580 pelos cavaleiros Azevedo a D.António, em obediência à sua congregação.
Reza a tradição que D.António se teria refugiado na Ermida de Nª Snrª da Conceição da Abóboda, após ter sido derrotado na Batalha de Alcântara, fugindo ao exército castelhano. Numa magnífica sepultura mandada fazer por Frei Gonçalo de Azevedo nesta Ermida, jazem os seus progenitores, tendo sido nela encontrada recentemente uma bela espada de finais do séc.XV. A lenda da fundação desta Ermida, construída em agradecimento a Nª Snrª da Conceição por ter salvo da morte por acidente um cavaleiro durante uma caçada na região, poderá mesmo ser atribuída a Diogo Fernandes de Almeida, pai de Gonçalo de Azevedo.

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