JCT Music

domingo, novembro 25, 2007

Hounds Of Love


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Signal To Noise
(Live with Nusrat F
ateh Ali Khan)

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Singing In The Rain



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Carpet Crawlers

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Porque não te calas?

Vote num destinatário para esta frase:
- Carolina Salgado?
- Tony Carreira?
- Rui Santos?
- Manuel Pinho?
- Bento XVI?
- Santana Lopes?
- Jennifer Lopez?
- Gordon Brown?
- Joe Berardo?
- José Rodrigues dos Santos?
- Bibi?
Fado Ladino - RosaNegra

Sopra uma brisa quente que me leva
Ao Oriente que há em mim
Como um tapete que no ar se eleva
E que me tira os pés do chão
Memórias do meu coração

Será miragem este meu caminho?
Será que um dia vai ter fim?
Será que o vento esconde o meu destino?
Destás da sombra, solidão
Fado ladino, coração

Há uma Rosa Negra à minha espera
Entre as delícias do jardim
E num oásis de esperança eterna
Um sentimento de jasmim
Memórias do meu coração

quarta-feira, novembro 14, 2007


O Deserto Céu

Noite.
Na sua cama, olhando fixamente para o tecto,
J. revê mentalmente os acontecimentos da sua vida.

A sua primeira infância. Brincadeiras com a sua mãe em casa. Idas ao Jardim com os seus pais. A escola primária. A sua primeira professora. Os colegas de carteira. O recreio. As corridas. Os saltos de fogueira nas noites dos santos populares. O ciclo. O liceu. O primeiro amor. Os primeiros escritos. Os reconhecimentos. Os prémios e incentivos que recebera. As namoradas. Todas pelos nomes. O curso de Literatura. Os seus ensaios de estudante, periodicamente publicados. O dia em que os seus olhos pararam naquela que seria a mulher da sua vida. Os intensos rituais de sedução e acasalamento. Os problemas com a família dela. A sua ida para Estrasburgo e as constantes viagens dele para ir ao seu encontro. A evolução da carreira dela e a perda do seu talento e criatividade. As estações passadas no estrangeiro exercendo trabalhos precários para estar junto dela. A traição. A traição da vida que um dia o afastara da mulher que amava. A dor imensa. O período de estagnação. O regresso à escrita com a actividade de jornalista. As viagens e as reportagens da Guerra, um pouco por todo o mundo. O seu voluntarismo para as missões mais perigosas e arriscadas, sem nunca exigir mais por isso. As interrupções para missões humanitárias em África. O regresso sempre mais vazio que na partida. O lugar de professor de literatura na universidade. Os alunos e os colegas. Aquela aluna que lhe fizera lembrar uma outra mulher, já no baú das memórias. O assédio charmoso que ela lhe fazia e que ele cavalheirescamente ignorava. Por fim a grande e emocionada conversa que tiveram. O período de vida a dois que se seguiu e de novo o gosto pela escrita e o descobrir que afinal o talento e algum brilhantismo afinal tinham estado sempre nele. Apenas adormecidos. De novo a traição da vida. A separação. A publicação da sua obra (3 livros) no Brasil. A vida em S. Paulo durante um ano. O regresso a Portugal. A criação da sociedade do jornal e o lugar vitalício de jornalista desportivo, única condição que exigira para si.
Por fim o descobrir que o sucesso, mesmo que os seus livros perdurem para sempre, é efémero e por si só não traz a felicidade. No final mesmo, a última descoberta: a bebida. Libertadora: dos fantasmas, das insuficiências, dos fracassos e dos vazios. As mulheres de uma só noite.

E agora a sua conversa com Ele. O livro que não era seu, mas que tinha de ser publicado. Em seu nome. Ele veículo da entidade divina. Porquê? Que ideia faria de Deus qualquer comum mortal que lesse o livro? E a humanidade? Provavelmente as coisas seriam “arranjadas” de forma a dar a ideia que se tratava da obra de um louco. O Céu Deserto? Quem acreditaria?
“Olhos de Isa”

"Fernando nasceu numa quarta-feira à tarde - dia 13 de Junho de 1888 (dia de Santo António!) - no 4o. andar esquerdo do nº 4 do Largo de S. Carlos. A casa ainda existe e fica situada mesmo em frente do Teatro de S. Carlos.

A família era católica e ele foi baptizado no dia 21 de Julho de 1888 na Igreja Paroquial de Nossa Senhora dos Mártires.

Por isto, tantas vezes Pessoa referiu que o sino da sua aldeia era o da Igreja dos Mártires...
O padre que o baptizou foi o Monsenhor António Ribeiro dos Santos Veiga. O padrinho foi o general Cláudio Bernardo Pereira de Chaby, membro da Real Academia de Ciências de Lisboa e da Real Academia de História de Madrid; a madrinha foi uma irmã da sua mãe, Ana Luísa Pinheiro Nogueira, a tia Anica, que nessa altura vivia na rua Serpa Pinto. O pai de Fernando, Joaquim Seabra de Araújo Pessoa, era crítico musical e assíduo frequentador do S. Carlos, na época escrevia para o “Diário de Notícias”.

Pelo lado paterno, o avô era o general Joaquim António de Araújo Pessoa, nascido a 15 de Fevereiro de 1813, e a avó era Dionísia Seabra Pessoa, que endoideceu muito cedo. Tiveram um único filho, Joaquim Seabra de Araújo Pessoa, que nasceu a 28 de Maio de 1850 e que foi o pai de Fernando."

Pois bem, o Joaquim Pessoa de que vos quero falar, não é nenhum destes.

Lembram-se dos poemas das canções: Ruas de Lisboa, Alcácer Que Vier e Amélia dos Olhos Doces?

Lembram-se de:
Eu parto. Partes. Ele parte. / Partimos todos à uma. / Somando as nossas três partes / chega-se a parte nenhuma. // Mas se as partes todas três / não forem três forem todas / talvez as partes somadas / sejam três terços em vez // de cada um por seu lado / juntando parte por parte / ir aumentando a fracção // e fazer como o leão / que em jeito de quem reparte / guardou o melhor bocado.

Ou de:
Às onze e meia da noite / rastejam cobras na lama / onde afocinham as putas / Senhoras Donas da Cama. / Mas as putas que são putas. / Não as que têm a fama.

Lembram-se do poema “Os Olhos de Isa”?
Nos olhos de Isa a chuva grita e a noite
Acende fogueiras.
Os meus olhos param. Nos olhos de Isa.
Oh, nos olhos de Isa espreguiça-se a madrugada
E o vento acorda para ajudar os pássaros a voar
E as árvores a acenar-lhes uma bandeira de folhas, uma tristeza verde.
Nos olhos de Isa.
Nos olhos de Isa a manhã explode num inferno de estrelas,
Num clarão de silêncio, em estilhaços de rosas, pétalas de sombra.
Nos olhos de Isa os poetas vagueiam num bosque de mel
Onde as abelhas constroem a tarde
Desesperadamente.
Nos olhos de Isa ninguém repara na minha solidão.

que colocou Lisboa à procura da Isa, nos longínquos meados dos anos 80?

O que será feito do Joaquim Pessoa, o autor destes escritos?

Não sabem? Que será feito do “poeta” que misturava o erotismo e a militância ideológica nos seus versos? Que será feito do poeta, cujo único consenso a respeito dos seus poemas, era o de terem bons títulos? Que será feito da Isa? Alguma vez terá sido descoberta? Será que ela existiu mesmo como pessoa inteira? Ou foi apenas o baptismo de um par de olhos desconhecidos, que cruzaram o olhar com o poeta?

Estava eu – sem saber porquê — outro dia a meditar sobre este assunto, tão importante para o progresso e felicidade da humanidade, quando de repente (tipo relâmpago) algo ficou claro para mim.

Afinal eu também — se bem que de forma diferente — fora contemplado com a minha Isa.
Embora agora tenha o meu antigo lugar ocupado por outros mais novos, nos olhos de Isa, durante muito tempo, eu sei que fui a pessoa mais importante.
Os olhos de Isabel nos meus olhos sempre reflectiram o brilho do amor, da generosidade e da ponderação.
Nos olhos de Isabel Maria, a noite irreversível aproxima-se como uma sentença, mas é onde afinal eu quero sempre descansar. E tal como eu, também Isa, olha para cima, também ela sonhando com os olhos de Isa, sua mãe.

Voltando ao Joaquim Pessoa... alguma coisa lhe deve ter acontecido, deixou-se apenas dos bons títulos... veja-se o exemplo de poema com que foi comemorado o seu 54º aniversário (Poema Temperamental), cuja leitura será da V. inteira e exclusiva responsabilidade.

Caetano,
O Cicatrizante
Carta para Personagem Famoso

Viva,

pretendo com esta missiva repor a veracidade dos factos, custe o que custar.
A verdade é que nunca os seus estímulos condicionaram, nem de perto, os meus actos.
O que aconteceu de facto, a determinada altura do nosso relacionamento, foi ter descoberto que os meus comportamentos mais básicos e ridículos antecipavam em si expectativas nervosas e provocavam-lhe respostas de espanto, agradáveis de presenciar.
Para continuar a assistir ao alvoroço dessas suas emoções primárias, sobretudo por isso, protelei até agora este esclarecimento.
Com serenidade deixei que contasse os acontecimentos, primeiro aos seus colaboradores directos e por fim a todo o mundo, através de autênticos tratados sobre o tema.
E lá continuávamos nós a repetir indefinidamente as mesmas acções perante diferentes plateias. Você sempre pensando que despoletava o trigger, e eu reagia.
Quando era precisamente o contrário! Eu portava-me daquela forma estranha porque sabia que iria antecipadamente: activar em si aquele efeito prévio.
Nesta altura já se deve ter apercebido de que assunto tenho estado a falar.
Uma vez que não será o meu nome a ficar na História, ao menos aceite com humildade que era eu, de facto, quem puxava os cordelinhos.
Nunca fui propriamente uma marioneta manipulada por si, mas sim você um balão de hélio atado ao meu dedo.

O seu melhor amigo,
(assinatura ilegível)

PS:
Já era tarde para mudar a minha atitude, mas a partir de determinada altura deixei de achar piada quando o via chegar e tocar a campainha, Sr. Ivan Petrovich Pavlov.

sexta-feira, novembro 09, 2007

Mensagem a Garcia

East Aurora, 01 de dezembro de 1913
Helbert Habbard

Em todo este caso cubano um homem se destaca no horizonte de minha memória.

Quando irrompeu a guerra entre a Espanha e os Estados Unidos, o que importava a estes era comunicar-se com chefe dos insurretos, Garcia, que sabiam encontrar-se em alguma fortaleza no interior do sertão cubano, mas sem que se pudesse dizer exatamente onde. Era impossível um entendimento com ele pelo correio ou pelo telégrafo. No entanto, o Presidente precisava de sua colaboração o mais rapidamente possível.Que fazer?

Alguém lembrou: "Há um homem chamado Rowan; e se alguma pessoa é capaz de encontrar Garcia, há de ser Rowan".

Rowan foi trazido à presença do Presidente, que lhe confiou uma carta com a incumbência de entregá-la a Garcia. De como este homem, Rowan, tomou a carta, meteu-a invólucro
impermeável, amarrou-a ao peito, e após quatro dias, saltou de um barco sem sequer uma cobertura, alta noite, nas costas de Cuba, de como se embrenhou no sertão para depois de três semanas surgir do outro lado da ilha, tendo atravessado a pé um país hostil, e entregue a carta a Garcia, são coisas que não vem ao caso narrar aqui pormenorizadamente.

O ponto que deseja frisar é este: MacKinley, o presidente, deu a Rowan uma carta para ser entregue a Garcia; Rowan tomou a carta e nem sequer perguntou: "onde é que ele está?"
Salve! Viva! Eis aí um homem cujo busto merecia ser fundido em bronze e sua estátua colocada em cada escola. Não é somente de sabedoria livresca que a juventude precisa, nem somente de instrução sobre isto ou aquilo. Precisa sim de um endurecimento das vértebras, para poder mostrar-se altiva no exercício de um cargo; para atuar com diligência, para dar conta do recado; para, em suma, levar uma "MENSAGEM A GARCIA".

O general Garcia já não é deste mundo, mas há outros Garcias.
A nenhum homem que se tenha empenhado em levar avante uma grande empresa, em que a ajuda de muitos se torna necessária, têm sido poupados momentos de verdadeiro desespero ante a imbecilidade de um grande número de homens, ante a inabilidade ou falta de disposição de concentrar a mente numa determinada coisa e fazê-la.

A regra geral tem sido: assistência irregular, desatenção tola, indiferença irritante e trabalho mal feito.
Ninguém pode ser verdadeiramente bem sucedido, salvo se lançar mão de todos os meios ao seu alcance para fazer com que outros homens o auxiliem, a não ser que Deus Onipotente, na sua grande misericórdia faça um milagre, enviando-lhe como auxiliar um anjo de luz.
Leitor amigo, tu mesmo podes tirar a prova.

Estás sentado no teu escritório, rodeado de empregados. Pois bem, chama um deles e pede-lhe:
- Queira ter a bondade de consultar a enciclopédia e fazer uma descrição resumida de corrégio.
Dar-se-á o caso de o empregado dizer calmamente: "sim senhor", e executar o que lhe pediste?
Nada disso! Olhar-te á admirado para fazer uma ou algumas das seguintes perguntas:Quem é ele?
Que enciclopédia?
Onde é que está a enciclopédia?
Fui eu acaso contratado para fazer isso?
E se você o fizesse?
Já morreu?
Precisa disso com urgência?
Não quer que traga o livro para que o senhor mesmo procure?
Para que quer saber disso?

E aposto dez contra um que, depois de teres respondido tais perguntas, explicando a maneira de procura os dados pedidos e a razão por que deles precisas, teu empregado irá pedir a um companheiro que o ajude a encontrar Corrégio e depois voltará para te dizer que tal homem não existe.
Evidentemente pode ser que eu perca a aposta, mas segundo a regra e a conduta geral, aposto na alternativa certa.

Ora, se fores prudente, não te darás ao trabalho de explicar ao teu "ajudante" que Corrégio se escreve com C e não com K, mas limitar-se-á a dizer calmamente, esboçando o melhor sorriso:
- "Não faz mal; não te incomodes".
E, dito isso, levantar-te-ás e procurarás tu mesmo.
E esta dificuldade de atuar independente, esta incapacidade moral, esta fraqueza de vontade, esta falta de disposição de solicitamente se pôr em campo e agir, são as causas que impedem o advento do socialismo puro. Se os homens não tomam iniciativa de agir em seu próprio proveito, que farão se o resultado de seu esforço redundar em benefício de todos? Por enquanto parece que os homens ainda precisam ser dirigidos.

O que mantém muito empregado no seu posto e o faz trabalhar é o medo de, se não o fizer, ser despedido no fim do mês.
Anuncia precisar de um taquígrafo, e nove entre dez candidatos à vaga não saberão ortografar nem pontuar - e, o que é mais grave, pensam não ser necessário sabê-lo.Poderá uma pessoa destas entregar uma carta para Garcia?
- "Vê aquele guarda-livros", dizia-me o chefe de uma grande fábrica.
- "Sim, que tem?"
- "É um excelente guarda-livros. Contudo, se o mandasse dar um recado, talvez se desobrigasse da incumbência a contento, mas também podia ser que no caminho entrasse em duas ou três casas de bebidas e que, quando chegasse ao seu destino já não se recordasse sequer da tarefa que lhe fora dada".

Será possível confiar-se a tal homem uma carta para ser entregue a Garcia?Ultimamente temos ouvido expressões sentimentais, demonstrando simpatia para com os pobres entes que lutam de sol a sol, para com os infelizes desempregados à cata do trabalho honesto, e tudo isso, quase sempre, entremeado de muita palavra dura para com os homens que estão no poder.
Nada se diz do patrão que envelhece antes do tempo, num esforço inútil para induzir eternos desgostosos e descontentes a trabalhar conscienciosamente. Nada se diz de sua longa e paciente procura de pessoal, que, no entanto, muitas vezes nada mais faz do que "matar o tempo", logo que ele volta as costas.

Não há empresa que não esteja despedindo pessoal que se mostre incapaz de zelar pelos seus próprios interesses, a fim de substituí-lo por outro mais apto. Este processo de seleção por eliminação está se operando incessantemente com a única diferença que, quando os tempos são maus e o trabalho escasseia, a seleção se faz mais escrupulosamente, pondo-se fora, para sempre, os incompetentes e os inaproveitáveis. É a LEI DA SOBREVIVÊNCIA DO MAIS CAPACITADO. Cada padrão, no interesse comum, trata somente de guardar os melhores aqueles que podem levar a "MENSAGEM A GARCIA".

Conheço um homem de aptidões realmente brilhantes, mas sem a fibra necessária para dirigir um negócio próprio, e que ainda se torna completamente nulo para qualquer outra pessoa devido à suspeita que constantemente abriga, de que seu patrão o esteja oprimindo ou tencione oprimi-lo. Sem poder mandar, não tolera que alguém o mande. Se lhe fosse confiada uma mensagem a Garcia, retrucaria, provavelmente: "Leve-a você mesmo".

Hoje esse homem perambula errante pelas ruas em busca de trabalho, em estado quase de miséria. No entanto ninguém que o conhece se aventura a dar-lhe trabalho, porque é a personificação do descontentamento e do espírito de discórdia. Não aceitando qualquer conselho ou advertência a única coisa capaz de nele produzir efeito seria um bom pontapé dado com a ponta de uma bota de número 44, sola grossa e bico largo.

Sei, não resta dúvida, que o indivíduo moralmente aleijado como este, não é menos digno de compaixão, vertamos também uma lágrima pelos homens que se esforçam por levar avante uma grande empresa, cujas horas de trabalho não estão limitadas pelo som do apito e cujos cabelos ficam muito cedo envelhecidos na incessante luta em que estão empenhados contra a indiferença desdenhosa, contra a imbecilidade crassa e a ingratidão atroz, justamente daqueles que sem seu espírito empreendedor, poderiam andar famintos e sem lar.

Dar-se-á o caso de eu ter pintado a situação em cores demasiado carregadas?Pode ser que sim; mas quando todo mundo se prende a divagações, quero lançar uma palavra de simpatia ao homem que dá êxito a um empreendimento, ao homem que, a despeito de uma porção de empecilhos, sabe dirigir e coordenar os esforços de outros e que, após o triunfo, talvez verifique que nada ganhou. Nada, salvo a sua simples subsistência.

Também eu carreguei marmitas e trabalhei como jardineiro, como também já fui patrão. Sei, portanto, que alguma coisa se pode dizer de ambos os lados.Não há excelência na pobreza em si mesma; farrapos não servem de recomendação. Nem todos o patrões são gananciosos e tiranos da mesma forma que nem todos os pobres são virtuosos.

Todas as minhas simpatias pertencem ao homem que trabalha conscientemente, quer o patrão esteja, quer não, e ao homem que, ao lhe ser confiada uma carta para Garcia, tranquilamente toma a missiva, sem fazer perguntas idiotas, sem a intenção oculta de jogá-la na primeira sarjeta que encontrar, ou praticar qualquer outro gesto que não seja entregá-la ao destinatário.
Este homem nunca fica "encostado", nem tem que se declarar em greve para forçar um aumento de ordenado.

A civilização busca ansiosa, insistentemente, homens nestas condições. Tudo que tal homem pedir, conceder-se-á. Precisa-se dele em cada cidade, em cada vila, em cada lugarejo, em cada escritório, em cada oficina, em cada loja, fábrica ou venda. O grito do mundo inteiro, praticamente, se resume nisso:

"PRECISA-SE E PRECISA-SE COM URGÊNCIA, DE UM HOMEM CAPAZ DE LEVAR UMA MENSAGEM A GARCIA".
Os Inocentes da Ponte

4 de Maio de 2002.
Catorze meses depois do colapso da antiga, é inaugurada a nova Ponte Hintze Ribeiro, representativa da capacidade dos portugueses em edificar construções robustas de forma rápida.

O único aspecto negativo que persiste é o facto de continuarem por punir os verdadeiros culpados pelo trágico acontecimento da noite de 4 de Março de 2001, em que um autocarro de passageiros e algumas viaturas caíram ao rio, quando a ponte derrocou.

Na altura, o Ministro da Administração Interna apresentou a sua demissão, e deu-se início a um rigoroso e exemplar processo de inquérito.

Em primeiro lugar intimou-se a Junta Autónoma das Estradas. Seguiram-se o Instituto da Navegabilidade do Douro, o Ministério do Ambiente, Direcções Regionais Disto & Daquilo, Secretários de Estado, Directores e Funcionários Superiores.

As próprias empresas de extracção de areias foram vasculhadas de fio a pavio.

Todos foram inquiridos, não tendo sido provada qualquer culpa a estas entidades.

Sou de opinião que não houve negligência nenhuma.
A melhor abordagem para se compreender o que aconteceu é utilizar a análise fria, isenta e racional dos factos, para explicar este acidente.

É matéria básica, em qualquer Cadeira de Pontes, que o que faz ruir estas estruturas são as vibrações. Quando a frequência das vibrações atinge o valor da Frequência de Ressonância, as pontes caiem!

É também sabido, desde a 2ª Guerra Mundial, que uma ponte cairá - mesmo quando concebida para o suporte o peso de inúmeros camiões cheiros de equipamentos e soldados - se por ela passar um regimento a marchar!

A explicação é simples: o facto dos soldados ao marcharem, baterem com força com os pés no chão, produz vibrações estruturais que forçam a ponte a entrar em ressonância.

Atendendo a isto, o mistério de encontrar os culpados da tragédia de Entre-os-rios, facilmente é desvendado.

- Não foram os coitados do Ministro, dos Secretários de Estado, dos Directores, dos Inspectores..., os verdadeiros culpados; esta gente não estava presente no local da tragédia, nem sequer nas redondezas.

- O argumento de que o tempo de vida útil da ponte teria sido largamente ultrapassado, é falacioso; porque (salvo muito raras excepções) geralmente o tempo de vida de uma ponte é o triplo do valor calculado pelo engenheiro que a desenhou. É verdade científica!

- Ao contrário do que se poderia pensar, os próprios areeiros ao procederem a extracções de inertes no leito do rio, junto aos pilares, só contribuíam para fortalecer a estrutura da ponte. Basta lembrarmo-nos do que acontece quando estamos na praia à beira-mar, e a areia começa a acumular-se junto aos nossos pés. Soterramo-nos mais, e corremos o risco de cair por perda de equilíbrio, uma vez que o nosso centro de massa é alterado. O mesmo aconteceu com a ponte: extrair areia junto aos pilares, só fazia com que estes não se enterrassem mais no leito do rio, mantendo a estabilidade do centro de massa da ponte, bem como o seu equilíbrio dinâmico. A favor destes industriais salienta-se ainda o facto de (ao longo de sucessivos anos) nada terem cobrado, por este serviço prestado - de forma anónima e altruísta - à população portuguesa em geral, e aos habitantes da povoação de Raiva em particular.

- Os verdadeiros culpados, foram aqueles que - provavelmente em estado adiantado de alcoolémia - ao contrário de tudo o que seria aconselhável, com os seus constantes e repetidos saltos, pinotes, danças e cânticos, fizeram com que a ponte entrasse em Ressonância e caísse: os ocupantes do autocarro !

Mas pronto, em Portugal não há nem a Coragem nem a Tradição, para perseguir e punir exemplarmente os verdadeiros culpados.

Infelizmente, estes brandos costumes permitem que inocentes funcionários públicos sejam incomodados, desviados da sua azáfama produtiva, e difamados (mesmo que por pouco tempo) por duvidosos processos de Inquérito.

Isto para não referir os infundados climas de suspeição a que frequentemente são expostos quando deixam expirar a maior parte dos processos, muitos deles com pouco mais do que meia dúzia de anos.

Para evitar que casos semelhantes se repetissem, impedindo assim que o País atravesse de vez a sua Ponte – de forma segura - para a Europa, teria apenas bastado que o Magistério Público, a Judiciária, as Polícias, os Juízes e os Políticos vilipendiados, tivessem ido no encalço dos aqui desvendados culpados. Literalmente, até ao fundo !

Estão salgados

Lembranças.
Anos 60.
Lisboa ficou na outra margem.
Havia muita luminosidade.
A praia era de areia branca.
Os pinheiros iam até quase à água que era pouco profunda e quente.
Estes dias da minha infância, inteiros na praia eram grandes.
A família toda no banho. Apanhavam-se conchas gigantes,búzios e vieiras.
Eu lá brincava com uns amigos de ocasião arranjados ali mesmo.
E eu lá dava as primeiras braçadas sob a companhia, o olhar e os encorajamentos de minha mãe.

Uma outra praia.
Anos 70.
Já nadador, sob a companhia, o olhar e os encorajamentos de uma outra mulher — então a despontar — lá perco as cautelas dos que nadam sempre perto de terra, e rumo ao encontro dos barcos de pescadores fundeados lá longe.
Recebi o meu prémio: um outro eu; confiante; seguro; empreendedor.
Tardes passadas no mar. Na canoa. Fora da canoa, a tentar apanhá-la.
Nadar de uma praia até à outra praia. Nem seria nada de especial se as duas não ficassem em localidades diferentes, ou tivessem ligação por terra.

Depois era o almoço.
A longa espera pelo fim da digestão.
O voltar para o mar.
Lá para o final da tardinha o início do regresso.
O feliz cansaço de um dia na praia.
Já em casa o banho e o jantar.
Recordo o jantar preparado pela minha mãe, que não deu importância à fadiga.
Eu e o Carlos estávamos a comer.
(este meu primo apareceu lá em casa aos 12 anos, para passar uns tempos, e ficou até aos 26)
De repente ele solta, aquela que até hoje foi considerada a sua frase mais célebre, o comentário culinário:
— "Oh tia, os tomates estão salgados!"
Não teria tido importância nenhuma, nem sequer ficado na história, se não fosse o pequeno
pormenor de ele, e eu, ainda estarmos a comer… a canja!

Aquelas praias já não existem hoje.
Esforço-me por encontrar outras que mas façam recordar.

Os Nós e os Laços.

Um marinheiro pensava ter um nó, seguro, firme, permanente, absoluto, que lhe suportava e defendia a vida em caso de tempestade. E descobriu afinal que o nó não servia para nada. Não prestava, não aguentava qualquer prova. A própria corda esfarelava. A primeira vez que o nó foi posto à prova, desfez-se totalmente. Ao primeiro sinal de força mostrou a verdadeira natureza (inutil, inseguro, temporário, frágil).
Um nó em que depositara tantas esperanças.

No mar não lhe valerão mais os Laços simples e vistosos mas que quando são precisos se mostram resistentes, rijos, duradoiros, inquebráveis?
PEDRO E INÊS

Acerca de Pescadores

É facto aceite que os Pescadores mentem.
Por isso quando um Pescador conta uma das suas histórias, como se sabe que ela contém mentiras, basta ter este facto em conta na sua interpretação para que facilmente se alcance a versão verdadeira.
Agora imagine-se que há um Pescador subversivo que, ao contar as suas histórias, não mente.
Os destinatários, como não sabem que ele não diz mentiras, interpretam mal as suas histórias, e chegarão a versões não verdadeiras da realidade dos factos.
Este Pescador é um perigo.
Engana as pessoas ao dizer a verdade, facto inaceitável num pescador.
Será o escritor desta história um desses Pescadores subversivos?


O Convite

Pedro acorda com o toque do telemóvel.
Precipita-se à procura dele por forma a parar com o barulho estridente do besouro.
Enquanto isso, tenta aperceber-se das horas que são.
Estranhamente pensa que já é de manhã e que tem de se aprontar para ir para o emprego.
“Será alguma chamada de serviço?
Deixa-me ver no visor.”
Tenta apurar a visão ainda enevoada pelo sair do sono.
Ao mesmo tempo aproxima o telemóvel dos olhos.
No plasma aparece a palavra: “Inês”.
É a Inês!
Consegue ler as horas: 21:30!
“Afinal ainda estou no dia anterior.”
“Inês? Quem é a Inês?”
Faz mais um esforço para acordar de vez.
“A Inês! .... Onde é que tenho a cabeça? ... Será que é algum assunto urgente?
Deixa-me carregar na tecla de atender...”
Aproxima o telefone do ouvido.
Ouve: “Tá? ... Olá. Pedro... ?? “
“Sim ?...”
“Boa-noite!...”
“Boa-noite...”
“Pedro, podes falar?...”
“Sim. Diz, diz!...”
“Desculpa estar a ligar-te a esta hora ... mas preciso da tua ajuda”
“É urgente? ... Algum problema ...?” – diz esta frase com um bocejo.
“Já estavas a dormir, ... desculpa lá...”
“Não estava nada a dormir Inês...” – mais um bocejo incontrolável.
“Desculpa lá... sei que te levantas cedo...”
“Fala Inês... Não há problema nenhum, deixei-me dormitar a ver televisão...Ainda é cedo... Não há problema. Não acordaste ninguém...ainda está a dar o Telejornal na TV...” Nem lhe disse que a televisão estava na SIC Notícias que tem telejornais em ciclo permanente.
“Tá bom... fico mais descansada. Mas preciso mesmo de falar contigo...”
“Pode ser por telefone?...
“Sim...”
“...Então diz...”
“Vou ser breve...Preciso da tua ajuda num trabalho de pesquisa...”
“Mas Inês... eu não sou médico...”
“Péra ...”
“... não te posso ajudar... só se for para ser cobaia? ... mas já falámos muitas vezes sobre o que eu penso disso...tu própria não te devias expor...”
“Não... não é nada disso? ...”
“Não ? ...Pronto fico mais descansado...”
“...lembras-te de há tempos falares ... que estavas interessado na prática de pesca nocturna, e que estavas a ter dificuldades em reunir um grupo de amigos... com o mesmo hobby...”
“sim, ... ....está lá?”
“sim...estou...estava a dizer que estavas a ter dificuldades em reunir um grupo de amigos... com o mesmo hobby ... para se dedicarem à pesca ...nas noites de Sexta para Sábado”
“Humm... Humm!.”
“... que sempre era uma forma de convívio salutar... de comunhão com a natureza, de beber uns copos, de passar frio, ... ver chegar o amanhecer,..., o cheiro das marés...uma desculpa para sair de casa lembras-te...”
“Sim...” Atalhou rapidamente antes que a conversa se prolongasse mais naquela direcção.
“Pois bem ainda continuas interessado?...”
“Sim...ainda...se bem que é sempre preferível... arranjarmos nós as companhias...”
“... É que fizeram-me um convite para realizar um trabalho sobre um grupo de pescadores...”
“E ...?”
“...tenho de levar parceiro, só aceitam pares,... e como em tempos tiveste interesse nisto...estava a pensar em ti.”
Ele lembrou-se que naquela altura, ... ela tinha dificuldade em arranjar companhia. E que entre eles... havia uma grande amizade desde os tempos em que foram da mesma turma, há mais um quarto de século.
Os amigos são para as ocasiões! Pensou ele.
“Isso é para quando? ... Não é para hoje... pois não?” diz isto com mais um bocejo.
“Não. É para amanhã à noite.”
“...”
“Que dizes?”
“Se é para amanhã...”
“Sim, é para amanhã!”
“...em princípio, trato das coisas durante o dia e amanhã à noite não terei problemas...”
“Óptimo. Obrigada. És um anjo.. Ligo-te amanhã durante o dia para combinarmos a logística.”
“Tá... eu até fico mais descansado se for contigo”
Já estava cada um a falar para seu lado e ao mesmo tempo, pensou ele.
“Prometo que não te ligo cedo...”
“Promessas!” pensou ele.
“Inês ...tenho uma das canas-de-pesca emprestada, a outra trago-a no carro mas...não tem carreto...”
“Não te preocupes com isso... Não há problema... Está tudo tratado...”
Não sabia porquê, mas agora sim, estas palavras deixaram-no preocupado.
“Ok.”
“Tchau.”
Desligaram.
Foi mais ou menos nesta altura que ele acordou de vez.
Pensou para si próprio que provavelmente a ajuda, que ela precisava, não era para pescar.
Em que raio de sarilho é que acabara de se meter?

sábado, novembro 03, 2007

Pessoa

O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia,

Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia

Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia.

O Tejo tem grandes navios

E navega nele ainda,

Para aqueles que vêem em tudo o que lá não está,

A memória das naus.

O Tejo desce de Espanha

E o Tejo entra no mar em Portugal.

Toda a gente sabe isso.

Mas poucos sabem qual é o rio da minha aldeia

E para onde ele vai

E donde ele vem.

E por isso, porque pertence a menos gente,

É mais livre e maior o rio da minha aldeia.

Pelo Tejo vai-se para o Mundo.

Para além do Tejo há a América

E a fortuna daqueles que a encontram.

Ninguém nunca pensou no que há para além

Do rio da minha aldeia.

O rio da minha aldeia não faz pensar em nada.

Quem está ao pé dele está só ao pé dele.

Alberto Caeiro
Não basta abrir a janela
Para ver os campos e o rio.

Não é bastante não ser cego

Para ver as árvores e as flores.

É preciso também não ter filosofia nenhuma.

Com filosofia não há árvores: há ideias apenas.

Há só cada um de nós, como uma cave.

Há só uma janela fechada, e todo o mundo lá fora;

E um sonho do que se poderia ver se a janela se abrisse,

Que nunca é o que se vê quando se abre a janela.
Acabou o Verão.









Trancar as janelas.
Apagar as luzes.
Fechar a porta.
Colocar o cachecol.
Mochila às costas.
Entrar no escuro...

Porque o nosso único destino é a morte.
E cada vez mais parecemos caminhar a passos rápidos, como se quiséssemos chegar ao fim o mais rápido possível.
E depois, quando tudo ficar turvo devido ao fino tecido de chuva que vai caindo entre cá e lá, será que descobriremos que afinal, tudo foi em vão?
O fim será sempre o mesmo.
O que muda são os caminhos que tomamos para lá chegar.

sexta-feira, novembro 02, 2007




No Escuro

(não acredito que o Represas tivesse escrito este poema)

Vi-te de longe no escuro
onde já não te esperava encontrar.
Não era a noite, nem era o sono.
Nem falta de alma p'ra te procurar.

Fui-me chegando mais perto,
devagarinho para não pisar o coração...
talvez o meu bata tão forte para te avisar.

Há tantas vidas sigo o cheiro
que me deixaste preso ás mãos
e me sufoca ao meio da noite
numa boa maldição

Há quantas vidas que eu desejo
ter mais coragem que paixão,
e confessar tudo o que o tempo
me guardou no coração

Não era falta de fé ou confiança p'ra me revelar,
era só medo que as tuas águas
fossem tão fundas que perdesse o pé.

Já me perdi no passado por insistir em querer adivinhar
o que pensavas, que não abrias
nenhuma porta para eu entrar.

Talvez mate o destino de uma vez
se um beijo escorregar mesmo á traição

Quem sabe se no escuro a luz se acende e então...
darás por todos os recados que mandei.