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quarta-feira, novembro 14, 2007

“Olhos de Isa”

"Fernando nasceu numa quarta-feira à tarde - dia 13 de Junho de 1888 (dia de Santo António!) - no 4o. andar esquerdo do nº 4 do Largo de S. Carlos. A casa ainda existe e fica situada mesmo em frente do Teatro de S. Carlos.

A família era católica e ele foi baptizado no dia 21 de Julho de 1888 na Igreja Paroquial de Nossa Senhora dos Mártires.

Por isto, tantas vezes Pessoa referiu que o sino da sua aldeia era o da Igreja dos Mártires...
O padre que o baptizou foi o Monsenhor António Ribeiro dos Santos Veiga. O padrinho foi o general Cláudio Bernardo Pereira de Chaby, membro da Real Academia de Ciências de Lisboa e da Real Academia de História de Madrid; a madrinha foi uma irmã da sua mãe, Ana Luísa Pinheiro Nogueira, a tia Anica, que nessa altura vivia na rua Serpa Pinto. O pai de Fernando, Joaquim Seabra de Araújo Pessoa, era crítico musical e assíduo frequentador do S. Carlos, na época escrevia para o “Diário de Notícias”.

Pelo lado paterno, o avô era o general Joaquim António de Araújo Pessoa, nascido a 15 de Fevereiro de 1813, e a avó era Dionísia Seabra Pessoa, que endoideceu muito cedo. Tiveram um único filho, Joaquim Seabra de Araújo Pessoa, que nasceu a 28 de Maio de 1850 e que foi o pai de Fernando."

Pois bem, o Joaquim Pessoa de que vos quero falar, não é nenhum destes.

Lembram-se dos poemas das canções: Ruas de Lisboa, Alcácer Que Vier e Amélia dos Olhos Doces?

Lembram-se de:
Eu parto. Partes. Ele parte. / Partimos todos à uma. / Somando as nossas três partes / chega-se a parte nenhuma. // Mas se as partes todas três / não forem três forem todas / talvez as partes somadas / sejam três terços em vez // de cada um por seu lado / juntando parte por parte / ir aumentando a fracção // e fazer como o leão / que em jeito de quem reparte / guardou o melhor bocado.

Ou de:
Às onze e meia da noite / rastejam cobras na lama / onde afocinham as putas / Senhoras Donas da Cama. / Mas as putas que são putas. / Não as que têm a fama.

Lembram-se do poema “Os Olhos de Isa”?
Nos olhos de Isa a chuva grita e a noite
Acende fogueiras.
Os meus olhos param. Nos olhos de Isa.
Oh, nos olhos de Isa espreguiça-se a madrugada
E o vento acorda para ajudar os pássaros a voar
E as árvores a acenar-lhes uma bandeira de folhas, uma tristeza verde.
Nos olhos de Isa.
Nos olhos de Isa a manhã explode num inferno de estrelas,
Num clarão de silêncio, em estilhaços de rosas, pétalas de sombra.
Nos olhos de Isa os poetas vagueiam num bosque de mel
Onde as abelhas constroem a tarde
Desesperadamente.
Nos olhos de Isa ninguém repara na minha solidão.

que colocou Lisboa à procura da Isa, nos longínquos meados dos anos 80?

O que será feito do Joaquim Pessoa, o autor destes escritos?

Não sabem? Que será feito do “poeta” que misturava o erotismo e a militância ideológica nos seus versos? Que será feito do poeta, cujo único consenso a respeito dos seus poemas, era o de terem bons títulos? Que será feito da Isa? Alguma vez terá sido descoberta? Será que ela existiu mesmo como pessoa inteira? Ou foi apenas o baptismo de um par de olhos desconhecidos, que cruzaram o olhar com o poeta?

Estava eu – sem saber porquê — outro dia a meditar sobre este assunto, tão importante para o progresso e felicidade da humanidade, quando de repente (tipo relâmpago) algo ficou claro para mim.

Afinal eu também — se bem que de forma diferente — fora contemplado com a minha Isa.
Embora agora tenha o meu antigo lugar ocupado por outros mais novos, nos olhos de Isa, durante muito tempo, eu sei que fui a pessoa mais importante.
Os olhos de Isabel nos meus olhos sempre reflectiram o brilho do amor, da generosidade e da ponderação.
Nos olhos de Isabel Maria, a noite irreversível aproxima-se como uma sentença, mas é onde afinal eu quero sempre descansar. E tal como eu, também Isa, olha para cima, também ela sonhando com os olhos de Isa, sua mãe.

Voltando ao Joaquim Pessoa... alguma coisa lhe deve ter acontecido, deixou-se apenas dos bons títulos... veja-se o exemplo de poema com que foi comemorado o seu 54º aniversário (Poema Temperamental), cuja leitura será da V. inteira e exclusiva responsabilidade.

Caetano,
O Cicatrizante

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