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segunda-feira, março 16, 2009

A Prima de Nabil

A História repete-se.Afinal parece que Nabil teria uma prima...
"O homem (D. Sebastião) andou perdido de amores por quatro mulheres, desde a filha dos duques de Aveiro (de quem dizem que teve um filho) até à herdeira de Mulei Muhamed (a célebre «princesa moura» que a Inquisição perseguiu), e à jovenzinha infanta Isabella Clara Eugénia (quase que esganou Filipe II para que este lha desse em casamento)
..."
A Batalha dos Três Reis (1578, 4 de Agosto)
(achei que devia publicar estes três textos)

1 - texto de Manuel Macedo
4 de Agosto, dia da hecatombe. Muito por culpa do que nos tornámos é hoje o Sebastianismo saco para toda a pancada, a antítese mais radical do pau para toda a Lusa Obra que os seus cantores queriam. As contrafacções da História da Mentalidade ajudam a tanto, segundo a conveniência do momento. Guerrear a moirama no Norte de África não era mais do que a continuidade estratégica e doutrinária do que os Antecessores da Dinastia de Avis haviam feito. E, de resto, era o que concitava a concordância de Povo e intelectuais, irmanados na opção, um pelo sentir palpitante da necessidade de dar luta ao inimigo conhecido e os outros pela tangibilidade pensável desse teatro de guerra, numa altura em que as Descobertas eram domínio reservado da Ordem de Cristo, alfim encaixada na Coroa ponto por ponto, sem extensão ao entusiasmo coevo da Grei.
Aontecido o desastre, ergueu-se a esperança no regresso do Desejado não como mais tarde se tornou, e já o Grande Je Maintiendrai, em texto inesquecível, zurziu - a demissão patética do esforço, vivendo do sonho irrealista. Na altura, sem quadros militares, era o refúgio possível para não aceitar a derrota. E onde a minha própria família política quer ver uma manifestação da subsistência da Ideia Nacional, projectada numa grandeza sorelianamente mítica, a informar a acção futura, vejo eu apenas a fidelidade ao Senhor, que já não pouca honra seria: os povos não costumam amar os venidos, por que o fariam neste caso? Porque a construção da biografia real pós-batalha dava o Rei como penitente, coberto das culpas da Derrota, não desejando reocupar o trono por se dele crer indigno. Na atmosfera ultra-cristã daquele fim de Quinhentos a expiação pessoal em prol da felicidade do seu Povo encontrava a retribuição imediata na assimilação ao Salvador e correlata recusa da adoração dos deuses impostos de fora. Para os menos piedosos, a comoção em face do sofrimento auto-imposto e arrastado gerava o perdão. Durante dois séculos a acção própria não foi travada pela Referência sempre viva, apesar da sobrevinda impossibilidade física do Resgate do Regresso. Só ao vitimar-nos o internacionalismo centralista e ávido de comparação e seguidismo em face do Alheio é que a Referência Sebástica deixou de ser estímulo do esforço para se transformar na nostalgia lunática que artificialmente permitia abstrair da decadência que entrava pelos olhos dentro.


2 - resposta de Carlos Portugal

Parabéns pelo texto brilhante, como sempre. Concordo plenamente com ele no que se refere à demissão do esforço, da responsabilidade, atirando com eles para as calendas do regresso de um Desejado, numa procrastinação contínua e absurda.

Não concordo com ele, contudo, quanto aos motivos da batalha. Os que o meu Caríssimo Amigo apontou fazem parte - desculpe - do assassinato de carácter que posteriormente colaram ao Rei. Com efeito, a campanha de África já estava decidida pelas Cortes de 1562. As razões eram múltiplas, e de ordem quer geoestratégica quer comercial.

Com efeito, o Império Otomano, agora sob a égide de Selim II, filho de Suleimão, o Magnífico, expandira-se por todo o Norte de África, debatendo-se ainda com dificuldades em Marrocos, devido a resistências que os seus tratados, subornos e exércitos não conseguiam de todo controlar.
O Império Otomano vivia também do corso, e os seus corsários e piratas infestavam o Mediterrâneo e toda a zona que ia desde Larache até Cádiz e Faro. Apesar da derrota naval sofrida em Lepanto, em 1571, o Império em breve reconstruía a sua frota, e os receios colocados nas Cortes de 1562 - de que os otomanos tomassem conta do Estreito de Gibraltar, fechando o Mediterrâneo (principalmente depois de D. João III, por razões economicistas, ter abandonado várias praças-fortes do Norte de África) - ganhavam nova força. Também a actividade corsária era agora mais que muita, atacando os nossos navios que regressavam da Índia, e chegando a fazer raides sobre o Algarve.

Assim, seguindo as determinações das Cortes, D. Sebastião começou a preparar expedições militares ao Norte de África, contando com a ajuda de forças multinacionais, tal como o seu primo D. João de Áustria havia feito em Lepanto. A ideia era a de aproveitar o resultado de um golpe de estado local, em que o emir Mulei Maluk (aliado dos otomanos) destronara o seu sobrinho, Mulei Muhamed. Este, em troca da ajuda portuguesa, entrega a Portugal a praça-forte de Arzila, uma das abandonadas por D. João III.

A reposição das praças-fortes portuguesas e o afastamento dos otomanos levaria ao afastamento dos corsários e ao estabelecimento trocas comerciais com Marrocos e ao restabelecimento de rotas comerciais terrestres, aproveitando as caravanas de comércio do ouro.

Assim, não era só o interesse comercial de Portugal que estava em jogo; não era só a ideia da «expansão da Fé», propalada inteligentemente pela Igreja para arranjar apoios; não era só a busca de glória militar do nosso Rei. Era, principalmente uma questão de sobrevivência, não só do Império Português, mas talvez mesmo da própria Europa.
O Império Turco estava em expansão, era necessário travá-lo.

D. Sebastião enfrentou mil e uma dificuldades, erros, impreparações, e mil e uma traições. A derradeira, quando no chamado «minuto vitorioso» da Batalha dos Três Reis, em que a carga de cavalaria pesada do Duque de Aveiro entra como faca quente em manteiga pelas hostes adversárias (enquanto o terço de D. Sebastião eliminava a artilharia inimiga a golpes de espada), o célebre grito de «Ter, ter! Volta, volta!» que vai provocar a retirada da nossa cavalaria e desencadear o desastre, vai levar a que D. Sebastião tente desesperadamente salvar «o que poderia ser salvo», ou seja, acudir aqui e ali, onde a sua ajuda e dos seus exímios cavaleiros fosse mais necessária.

Quando, perante a imensidão do desastre, lhe vêem pedir «para que se salve», ele recusa. Recusa deixar morrer aqueles desgraçados sem que tente, pelo menos, lutar até ao fim. Dizem-lhe que então irá morrer. Ele responde, num sorriso amargo «Morrer sim, mas devagar...», ou seja, «calma, que isto ainda não acabou». Assim ditavam os códigos de Cavalaria, coisa que os novos historiadores esquecem.

O resto, faz parte da lenda. Há imensos dados que nos dão a certeza de que D. Sebastião sobreviveu à batalha, tendo sido transportado, muito ferido, num navio da Armada para Portugal, onde o desembarcaram no Forte do Beliche, em Sagres. Nos campos de Alcácer, entretanto, desenrolava-se a farsa do «reconhecimento» do corpo do Rei. Os seus validos sobrevivos haviam-lhe despido a armadura e vestindo com ela um cadáver desfigurado. Um truque velho de milhares de anos: a troca do rei pela torre, o «roque» do xadrez.

Filipe II encena a segunda parte da farsa, mandando sepultar nos Jerónimos o corpo da «torre». Até Donizetti se refere a isso na sua última (segundo creio) ópera, «D. Sebastião» (se não a tiver, enviar-lhe-ei por e-mail uma das árias, a belíssima «Deserto in Terra»).

Enfim, Caríssimo, esta missiva já vai demasiado longa, e com tanto que lhe quereria dizer acerca deste nosso Rei-Cavaleiro, Grão-Mestre da Ordem de Cristo, teimoso e arrogante, mas também tremendamente humano e dedicado à Pátria, e de uma coragem extraordinária.

Mas bastará, como consolação póstuma desse 4 de Agosto de 1578, relembrar que o objectivo primário da batalha de Al-Kasr Al-Kebir foi alcançado: o Império Otomano encontrou ali o fim da sua expansão, e começou o seu declínio. À custa de Portugal.
E, por fim, uma curiosidade: como penhor da ajuda de D. Sebastião, os partidários do falecido Mulei Muhamed enviaram 600 dos seus melhores cavaleiros para defenderem Portugal da invasão espanhola. Tombaram galantemente na Batalha de Alcântara, provocando o caos entre os mercenários italianos do Duque de Alba.

Um grande abraço deste seu amigo a quem esta data ainda provoca uma profunda dor de alma.


3 - texto de José Bento Duarte ("Senhores do Sol e do Vento")

"Imerso em sonhos de heroísmo e grandeza, o capri­choso reizinho de dezassete anos preparava-se para conduzir o seu país, dentro de pouco tempo, a um tremendo desastre. Acorrentados ao destino deste mancebo leviano e espalha-brasas, também possuído pela miragem da África, os Portugue­ses precipitar-se-iam com ele num abismo sangrento de Marrocos. A tragédia privaria o País da independência por um período de sessenta anos.
Observada de perto, a meteórica passagem de Sebastião por esta vida deixa na sua esteira uma espécie de fulgurância hipnótica, um fatalismo que fascina e comove. Era mais do que seu direito que o cognominassem de Africano, mas reservaram injusta­mente a outro tão merecido título. As consequências do seu mando foram, em vida e depois de morto, de tal modo relevantes para o império, incluindo a nas­cente Angola portuguesa, que se justifica um relance pela memória dos seus pas­sos breves.
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Nascido em 1554, elevado ao trono aos catorze anos, Sebastião será chocan­temente trucidado em combate aos vinte e quatro. O reinado deste rapazinho loiro-arruivado, de grandes olhos azuis engastados num rosto sardento, fino e cismático, foi antecedido, de acordo com as singelas vozes do tempo, por calamitosos presságios.
Neto de João Terceiro, não chega a co­nhecer o pai, um diabético falecido aos dezasseis anos, perto de três semanas antes da sua vinda ao mundo. A mãe, a carrancuda Joana, irmã do rei Fi­lipe Segundo de Espanha, vive aterrorizada por visões. Visita-a, por exemplo, a misteriosa Mulher de Negro, que, semioculta nas sombras dos aposentos, lhe vaticina por sinais que o fruto do seu ventre se dissipará no ar, como fumo. Noutras ocasiões sobressalta-se Joana com o fantasmagórico desfile de procis­sões de mouros, saídos não se sabe de onde, que se esgueiram através das pare­des, entoando cantorias fúnebres, em direcção ao negrume nocturno das águas do Tejo. Sussurram-se estranhas histórias de sibilas e espectros. Estes, invari­avelmente em grupos de três, aparecem a homens da Igreja com augúrios de es­pantar. E, sinal dos sinais, incendeiam-se uma noite os céus de Lisboa, por sobre a velha Sé, com o rasto de um esplendoroso cometa em forma de ataúde.
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Herdeiro, sem irmãos, do trono português, Sebastiãozinho é rigidamente edu­cado por jesuítas. Cedo dá indícios de um génio maniento e pouco reflectido. Mas não se lancem sobre os padres as culpas do desequilíbrio. O ânimo incerto, predisposto a extravagâncias, é seu de nascença, talvez como resultado dos inú­meros enlaces consanguíneos dos antepassados. Acaba de desestabilizar-se no clima de exaltação em que é criado.
A lembrança dos feitos dos Antigos, que esculpiram um império descomunal a golpes de espada e catecismo, desenvol­ve-lhe no espírito a semente de uma obsessão. Na sua esforçada letrinha infan­til, avisa certa ocasião, para júbilo apreensivo dos adultos, que, em sendo grande, há-de ir conquistar a África. Cá está a África. É a África dos areais de Marro­cos, a dos Mouros, abomináveis campeões do Islão. Expulsos há séculos de Por­tugal, permanecem, provocadores, às portas da Cristan­dade, a escassas milhas marítimas das costas lusitanas.
Sebastiãozinho não mais se libertará dessa ideia fixa. Transforma a fugaz existência numa alucinante ca­minhada de autista, irremediavelmente ligada àquele mórbido desígnio. Fica por vezes prostrado, num êxtase choroso, pedindo a Deus que o faça Seu capitão. Capitão será um dia. O que não será jamais é um estratego, um genuíno coman­dante-chefe, um seguro condutor de imponentes massas de homens em armas. No fundo não passará, até ao derradeiro suspiro, de um solitário cavaleiro de Cristo, um arrogante soldadinho da sua fé, uma espécie de menino medieval que não cresceu, perdido numa vereda embruxada da História a esgrimir sem descanso contra o Mouro pérfido dos seus pesadelos de infância.
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Por volta dos quinze anos, este pequeno homem, portador de um poder abso­luto nas suas perigosas mãos de adolescente, não hesita ante uma lúgubre incur­são ao reino dos mortos. Efectua uma peregrinação aos túmulos de diversos mo­narcas portugueses, violando-lhes as moradas eternas sem escrúpulos. No mos­teiro de Alcobaça ordena algumas exumações. Inebria-se diante das ossadas de Afonso Terceiro, esforçado vencedor dos Mouros nas lutas de liberta­ção da Península Ibérica. Viaja para os rendilhados de pedra da Batalha e traz à luz do dia o cadáver incorrupto de João Segundo. Venera-o como a um deus, acaba por proclamá-lo o melhor do seu ofício. Em Coimbra limita-se a cirandar, recolhido e reverencioso, junto ao mausoléu do rei Afonso Henriques, terror dos Sarracenos, lendário fundador da nacionalidade portuguesa no século XII. Desde logo projecta levar consigo a espada-talismã de Afonso, quando vier a hora da aventura africana.
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E segue adiante, muito senhor do seu nariz, sem consentir que nada o distraia da sua empresa.
Nada - nem mesmo os negócios do coração e do instinto. Esquiva-se a todos os arranjos casamenteiros, foge das mulheres como o diabo da água benta. Põe desse modo o reino em grave risco, porque não chega a deitar herdeiros a este mundo. Vai manter-se herói e casto, pronto para o sacrifí­cio final, como convém, aliás, a um capitão de Deus. Com os olhos postos naquela África irresistível, prepara-se para o grande embate. Estoira-se em exercícios físicos demolidores - toureia, caça, doma cavalos bravos. Apura uma coragem desafiadora e irracional. Mete-se pelo oceano dentro, em dias de tempestade grossa, zombando de vagas monstruo­sas a bordo de minúsculos barquinhos. Ninguém se atreve a denunciar-lhe com seriedade os desatinos. Adulado por quase todos, perde a noção da sua medida e percorre sobranceiro os trilhos enganosos de uma sina fatal.
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Certa ocasião, ha­bilmente desarmado e vencido ao jogo das canas pelo alferes-mor Luís de Mene­zes, vê-se de imediato proclamado vencedor - imagine-se - pela maneira elegante com que erguera do chão a sua arma.
Dia após dia, suspira o reizinho por África, por Marrocos. Nesse tempo, ainda os Portugueses por ali mantêm alguns poderosos bastiões, virados ao Mediterrâ­neo e ao Atlântico - Ceuta, Tânger, Mazagão. São os sobejos de uma fieira de praças-fortes conquistadas ou construídas de 1415 em diante. João Terceiro, o avô de Sebastião, confrontado com a extensão esmagadora do império, não tivera outro recurso senão enveredar por uma severa política de compressão de despe­sas. Optara por renunciar nos domínios marroquinos a várias posi­ções. Uma vez perdida por assalto a fortaleza de Santa Cruz do Cabo de Guer, foram abandonadas Safim, Azamor, Alcácer Ceguer e Arzila, esta posteriormente recuperada.
......
(...) O drama está iminente. As lutas internas pelo poder, em Marrocos, vão oferecer ao reizi­nho Sebastião o pretexto por que ele anseia para cair, como um anjo de vingança, sobre as planícies islamitas.
A cadeia de acontecimentos decisivos principiara a ganhar forma em 1574. Nesse ano, o mouro Mulei Mohamed levara a cabo a usurpação do trono marroquino, que, face às leis da dinastia dos Sádidas, caberia a seu tio, Mulei Abdelmalek, entretanto refugiado no estrangeiro.
No ano imedi­ato, amparado pelos turcos de Argel, Mulei Abdelmalek empreendera um vitori­oso retorno a Marrocos, sendo acolhido em delírio por um povo saturado da cru­eldade, da depravação e das extorsões de Mulei Mohamed. Ainda em 1575, Ab­delmalek alcançara um triunfo retumbante sobre as tropas do usurpador, que se pusera em fuga. Batê-lo-ia depois numa série de recontros, firmando-se como novo e ponderado xerife de Marrocos. Bom conhecedor da natureza turca, agira com sabedoria ao desembaraçar-se daqueles cúmplices incertos: gratificando-os com generosidade, suspirara de alívio assim que os vira desaparecer para as ban­das de Argel.
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Em Portugal, Sebastiãozinho rejubila, pois pressente nestes sucessos emocionantes a sua miraculosa oportunidade. Desata a brandir o espantalho do perigo turco. Esses poderosíssimos aliados de Mulei Abdelmalek, argumenta ele, podem voltar um dia para ocuparem posições estratégicas na costa marroquina. Colo­carão dessa forma em risco a segurança das rotas marítimas e a própria estabili­dade dos reinos ibéricos. O jovem sustenta a necessidade de uma guerra santa, redentora, contra o Mouro.
É um desassossego, uma febre, uma canseira de Sebastiãozinho. Nada o detém. Acaba por associar-se ao xerife deposto, Mulei Mohamed, que não passa já de um político queimado, repelido pelo povo, sem a mais pequena hipótese de um futuro relevante em Marrocos. Forceja pelo auxílio do tio, Filipe Segundo de Espanha. O esperto castelhano, vagaroso, re­flectido, jogador magistral, entretém-no com falas moles e enredadas. Mas a ver­dade é que, quanto ao essencial, se empenha na rejeição daqueles projectos es­touvados.
Sincero ou não, o inefável tio Filipe procura abrandar os ímpetos do rapaz e demovê-lo da aventura, a seu ver tão arriscada como inútil. Em vão. O reizinho não escuta nem vê. Está surdo e cego, há um ror de anos, para tudo o que não seja a sua obsessão de infância, que é como uma estrela má a chamá-lo ininterruptamente no escuro firmamento do seu destino.
Dê por onde der, nos estremecimentos desta teia perigosa, só o aranhiço espanhol reúne possibilidades de ganhar alguma coisa. Basta que o estoira-vergas português se perca na guerra sem sucessores. Nesse caso, haverá fatalmente espanhóis à solta nas douradas praias lusitanas (...) "
É preciso, é absolutamente preciso
Que seja tudo belo e inesperad
o

Receita de mulher

(Vinicius)

As muito feias que me perdoem
Mas beleza é fundamental. É preciso
Que haja qualquer coisa de flor em tudo isso
Qualquer coisa de dança,
qualquer coisa de haute couture
Em tudo isso (ou então
Que a mulher se socialize
elegantemente em azul,
como na República Popular Chinesa).
Não há meio-termo possível. É preciso
Que tudo isso seja belo. É preciso
que súbito tenha-se a
impressão de ver uma
garça apenas pousada e que um rosto
Adquira de vez em quando essa cor só
encontrável no terceiro minuto da aurora.
É preciso que tudo isso seja sem ser, mas
que se reflita e desabroche
No olhar dos homens. É preciso,
é absolutamente preciso
Que seja tudo belo e inesperado.

quinta-feira, março 12, 2009

Pedra De Canto

"Ainda terás alento e pedra de canto,
Mito de Pégaso, patada de sangue da mentira,
Para cantar com sílabas ásperas o canto,
De rima em –anto, o pranto,
O amor, o apego, o sossego, a rima interna

Das almas calmas, isto e aquilo, o canto..."

Pedra do Canto, localiza-se na Fazenda do Canto, cerca de 20 km do município de Unaí MG.
Tem uma altura aproximada de 150 metros e largura 100 metros e sua composição é de calcário.
Também conhecida como Pedra do padre. Reza a lenda que um padre da região, para pagar
uma promessa, escalou a pedra por sua crista até o topo e, depois disto, nunca mais foi visto.

sexta-feira, março 06, 2009

O olhar do poeta

O poeta elegeu duas personagens de um pequeno acontecimento do quotidiano urbano dos anos 70 em Lisboa.

Duas pessoas simples, humildes, até mesmo desinteressantes, Teresa Torga e António Capela, saltaram, através do olhar do trovador, para a eternidade.