sábado, julho 18, 2009

Cicatrizante ESTÁ de FÉRIAS !!!

... e constata que os Operadores continuam a
apostar na melhoria da cobertura de rede.

Viva o Momento.
Até Já.

quarta-feira, julho 15, 2009

...morreu o Homem

A morte de D.João II no Alvor
(Luís Maia)

Ainda em Évora em 1490, após o casamento do filho, tinha D.João II, sofrido os primeiro sintomas da estranha enfermidade que o havia de matar. Em 1495 já não sofria apenas de mal estar e desmaios, também o seu aspecto outrora belo se havia começado a alterar devido a um inchaço. Os seus últimos anos de vida foram, de imensa actividade em permanente mudança pelo País, um pouco como procura e qualquer lado, a receita que pudesse minimizar os seus padecimentos. A rainha D. Leonor também adoecera gravemente, aumentando a aflição do Rei, que se nunca se recompusera do falecimento do infante, julgava agora também vir a perder a mulher. Acabou arainha por salvar-se e o rei, que nunca deixara abrandar a sua actividade, encontrava-se com a corte em Évora mo verão de 1495 quando uma inoportuna peste assola a cidade, obrigando a corte a retirar-se para Alcáçovas. O mal que padecia estava avançando, de tal forma que a s mãos de tanto incharem, já mal lhe permitiam segurar uma pena para escrever de tal forma que manadara fazer uma chancela em ouro para as assinaturas. Infrutíferas continuavam a ser as tentativas de D.João II, junto de D.Leonor, para que autorizasse a legitimação do filho Jorge, bastardo de D.João. Tinham tido notícias de algumas maravilhas curativas que com as águas de Monchique se obtinham, que o levaram a decidir partir para o Algarve . Com o franciscano João da Póvoa se confessou e com ele redigiu o seu testamento, optando por não afrontar a Rainha e não nomear seu filho Jorge herdeiro do trono, optando por nomear D. Manuel , duque de Beja e seu cunhado. Também cuidou em Alcaçovas antes de partir, de deixar nomeado Vasco da Gama, como capitão da frota que deveria ir à Índia. Em Monchique porém as águas fizeram-lhe ainda pior, retirando para o Alvor, onde viria a morrer, em casa de D.Álvaro de Ataide, mas foi o próprio rei que desenganado pelos médicos, sobre as suas hipóteses de salvação, organizou o próprio cenário da sua morte, ordenou a sua extrema unção, e faleceu no dia 25 de Outubro de 1495, apenas com 40 anos, não sem antes pedir aos que o rodeavam que não o agoniassem com o seus prantos. Isabel a Católica, quando recebeu a notícia, terá exclamado. "morreu o Homem", passou na História de Portugal a ser conhecido pelo Príncipe Perfeito.

segunda-feira, julho 13, 2009

O governo do Prior do Grato
DAMIÃO PERES.

(Nota prévia: embora não conste da galeria dos Reis de Portugal, D. António Prior do Crato, foi Rei de 19 de Junho a 25 de Agosto de 1580. Rei por 67 dias.)

Decorrem sombrios os primeiros dias de Junho de 1580.
Muitos portugueses sopesam o valor da sua influência, para marcar o preço porque hão de vender-se a Castela. E outros muitos, a grande maioria, em quem as virtudes da Raça se não tinham obliterado, andam como que perdidos, sem coesão, sem rumo definido, sem horizonte claro, sem um cérebro lúcido e um braço vigoroso que a todos una e oriente no caminho da salvação. Os três mais importantes candidatos á coroa portuguesa — o Prior do Grato, a duquesa de Bragança e o rei de Castela — procuram por todos os meios ver realizado o seu desideratum.
Os dois primeiros, durante algum tempo, nem sequer reconhecem que a sua rivalidade enfraquece, dividindo-os, os meios de defesa da nacionalidade em face das pretensões do rei de Castela. Quem primeiro nota o perigo de uma tal atitude é o Prior do Grato. Em uma mensagem dirigida aos procuradores de Santarém, de cujo texto se depreende ter sido enviada em 7 de Junho, aludindo aos preparativos militares do monarca castelhano, advoga a sua união com a duquesa de Bragança, oferecendo-se para a servir como rei ou como vassalo, de harmonia com a decisão que pelos meios legais vier a ser tomada. Tal união, porém, não chega a efectuar-se. Desconfianças mútuas impedem a realização desse acto que teria tido certamente consequências importantissimas. E já o exército do Duque de Alba está prestes a partir, quando o Prior busca ainda, sem sair da sua atitude de mero pretendente, evitar ou demorar a invasão procurando desorganizar a hoste castelhana. Em 16 de Junho dirige ele um apelo ás tropas alemãs que constituíam uma parte importante do exército invasor, convidando-as a abandonarem as fileiras castelhanas, em que militavam, para o virem auxiliar. Mas tudo é inútil. Iniciando o seu metódico avanço, o exército do Duque d'Alba pisa já a terra portuguesa. E' então que, respondendo a tal afronta, alguns, poucos, patriotas resolvem fazer reviver dias longínquos de gloria que cada vez mais e mais se afastavam, apagando-se da memória de muitos portugueses. Cortando de um lance as últimas indecisões, o bispo da Guarda, digno tio de um valoroso português, o conde de Vimioso, propõe na Ermida dos Apóstolos, em Santarém, a escolha de D. António, Prior do Crato, para o encargo de regente do reino. Como sucede sempre que as paixões políticas são excitadas por algum incidente, cada um dos ouvintes deu largas aos mal sofridos impulsos do seu ânimo e logo da multidão que escutava o prelado partiram os aplausos calorosos de uns e as invectivas impetuosas de outros. O elemento popular apoiava com entusiasmo. No meio da tremenda confusão estabelecida, alguém soltou o grito de "Rial, rial, por D. António, Rei de Portugal!”, grito logo repetido por centenares de peitos que do gravíssimo problema político português tinham certamente noções muito simplistas, mas que nele traduziam a anciã da nacionalidade lançando-se às cegas em uma aventura que só justificava o desesperado desejo de salvar, fosse como fosse, a independência da pátria. Em cada minuto que passa o entusiasmo aumenta e leva de vencida a oposição dos adversários do Prior do Grato. O alcaide-mór, creatura de Filipe, depois de uma inútil resistência é obrigado a fugir. Os oficiais da câmara, não querendo sancionar com a sua presença a aclamação de D. António, tinham-se ausentado. Não foi dificuldade que se não vencesse facilmente. Arrombadas as portas, a multidão trouxe para fora a bandeira real com a qual andou pelas ruas aclamando o novo rei. O Prior do Grato, tomando para modelo esse outro bastardo que dois séculos antes galhardamente salvara a Pátria do domínio castelhano, queria apenas o título de Defensor do Reino. Mas a sua vontade era já impotente para deter ou orientar o movimento revolucionário cuja eclosão provocara. E, assim, voluntariamente ou não, o Prior do. Grato era já o Rei de Portugal! A aventura tomava proporções muito maiores do que as desejadas pelo Prior e ia produzir resultados que ninguém podia prever. Até mesmo Cristovam de Moura, tão profundo conhecedor dos homens do seu tempo, e Rodrigo Vasques, ainda que se mostrem optimistas, não podem impedir que a pena involuntariamente os atraiçoe, mostrando o ternor que, mau grado seu, lhes perturbava o espírito. Em 20 de Junho escrevia Cristovam de Moura a Filipe n : «Hasta agora no puedo descobrir que fundamento tenga este negócio, el princípio ha sido laço pêro ansi se ernpieçam grandes danos sino se atajan con tiempo». Em 24 de Junho, insistindo pela vinda imediata das tropas castelhanas, dizia ser conveniente «acudir aqui con brevedad por que Ia gente desconfiada dei socorro, no acuda ai Tirano, cuyas faerzas hande crecer por horas si Ias de V. Mag.d no se veen por momentos». Na mesma data, em cartas comuns, os embaixadores eram igualmente explícitos quando escreviam: «Aun que esto se dexava entender quan poça fuerza y fundamento tenia... podria el descuydo de centella pequena enceder gran fuego» e «nuevas de Lisboa. . . no esperamos ningunas buenas sino llega la fuerza de V. Mag por mar ó por tierra ». Bem claramente significativo, êste temor. Por isso ele deve encher-nos de legítimo orgulho. Que temiam realmente os embaixadores de Castela? Eles próprios o confessam: não o presente, apenas o futuro. Não eram os partidários do Prior que faziam perpassar na sua mente o arrepio do medo; esses eram poucos e pouco valiosos. Apavorava-os, porém, que a alma nacional despertasse a tempo e impedisse o crime monstruoso de alguns portugueses. E quem sabe? Um pouco mais de patriotismo dos Duques de Bragança e de tacto político do Prior do Grato, ou um pouco menos de perícia de Filipe e de valor militar do Duque de Alba, e o milagre do Mestre de Avis repetir-se-ia talvez, transformando aquele sombrio entardecer em uma risonha madrugada. A notícia da aclamação de D. António chegou a Setúbal, onde então estavam os Governadores do Reino, em 20 de Junho por carta que a estes escreveu o alcaide de Santarém, D. Pedro Coutinho, aproveitando os poucos momentos de que pudera dispor depois de se refugiar no seu castelo. Esta notícia deixou os Governadores tão cheios de assombro que a única decisão que tomaram em tão crítico lance foi a de mandarem chamar Cristovam de Moura, o hábil agente de Filipe para que este os viesse aconselhar. O arguto diplomata logo lhes lembrou que imediatamente aproveitassem o ensejo, que tão oportunamente o acaso lhes deparava, para tornarem público oficialmente o seu reconhecimento dos direitos do monarca castelhano ao trono português. Este alvitre não foi, porém, aceite, limitando-se os Governadores a escrever, para Lisboa, ao seu colega D. João Telo, que então ali se achava, a D. Pedro da Cunha e á Câmara recomendando-lhes que resistissem a D, António com a maior energia, confiados em que assim este não conseguiria entrar em Lisboa. Às esperanças dos governadores eram, porém, comple-tamente destituídas de fundamento; D. João Telo chegou de facto a celebrar uma reunião em que se assentou nas medidas de defesa que convinha adoptar, mas, no momento em que a sua acção se tornou necessária, negou-se a sair de Belém, pretextando doença; em face disto, D. Pedro da Cunha recusou-se também a chefiar a resistência. Entretanto D. António deliberara dirigir-se a Lisboa, para ser reconhecido como Rei e, a 22, partira de Santarém indo dormir nessa noite ao Cartaxo. No dia seguinte jantou em Alemquer e foi dormir à Povoa, levantando-se no dia imediato muito cedo e entrando em Lisboa nesse mesmo dia sem encontrar a menor resistência apesar de vir acompanhado de pequena hoste. De resto, Lisboa era francamente hostil aos governadores. No dia 20 tinham sido eleitos procuradores ás Cortes, por uma grande maioria, dois partidários do Prior do Grato, D. Manoel de Portugal, pelos Fidalgos, e Diogo Salema, pelos Letrados: «indícios dei animo de los naturales», comenta Cristovam de Moura. Ao mesmo tempo aparecia em Lisboa um pasquim, que os governadores mostraram a Crisíovam de Moura, no qual eram acusados de traidores em termos violentos e insultuosos. Também pela mesma ocasião, como que para aumentar mais ainda o descrédito dos Governadores, circulavam cartas falsas, escritas como sendo deles, nas quais se pedia ao rei de Castela que viesse tomar posse da coroa portuguesa. A autoria destas cartas foi então atribuída ao Prior do Crato: "Los governadores han cogido cartas falsas que en su nombre escrivió Don António a V. Mag.d diziendo que viniesse a tomar possession deste Reyno e mandavalas mostrar por los logares para indignalos contra los gobernadores”. Modernamente, um ilustre escritor, o Sr. José Caldas, vendo nesta acusação um grave desprestigio para o Prior do Crato, procurou desagravá-lo dizendo que se tratava de uma falsidade, a que, sem fundamento sério, Rebelo da Silva dera curso, e que as cartas falsas que na época circularam não foram da autoria de D. António mas sim da do Conde de Lemos, capitão-general da Galiza. Em abono das suas afirmações, o Sr. José Caldas cita'e publica a acta da sessão da Câmara de Viana do Castelo, realizada a 28 de Julho, da qual extraímos o seguinte passo que é aquele que interessa ao assunto: "Aos vimte he oyto dias do mês de Julho do ano de mil quinhentos he hoytenta annos em esta notável villa de Viana foz do Lima estando juntos em camara, ho Licenciado João Gill dabreu, juiz de fora em esta villa,. Cosme de Sousa, Diogo Jacome Bezerra, Bertholameu Villas Boas da Rocha vereadores e Baltazar André procurador do concelho ... hasemtaram que de maneira alguma se tomasen ou que se recebessem requados ou cartas que lhe fossem dadas porquoanto se temiam que pelo próprio conde dellemos capitão jheral por o rej de Castela no reino da Gualiza husar de muitas manhas allguum dia em nome do senhor dom António" debaixo do titulo de rey lhes dése allgumas cartas dell rey de Castella que pudesem causar allgum motim hou bando de maneira que elles não pudessem leuar avante ho intento de bons he liaes portuguezes que pretendiam”. Ora analizando este documento o que se verifica é que a Câmara de Viana do Castelo temia que o Conde de Lemos, "por husar de muitas manhas”, fosse capaz de. lhe enviar «em nome do senhor dom António debaixo do titulo de rey. .. allgumas cartas deli rey de Castella». Vê-se, pois, claramente, que o documento em questão se não refere ás cartas falsas a que alude Cristovam de Moura, as quais foram passadas em nome dos Governadores e endereçadas ao rei de Castela. Afinal, vem a saber-se que o uso de cartas falsas, como meio de luta, estava muito generalizado, e isto é ainda, até certo ponto, um argumento indirecto a favor do fundamento da acusação formulada contra o Prior do Grato. À juntar ainda a tantos motivos de desgosto havia tambem a descortezia soez do duque de Bragança que, logo após o levantamento de Santarém, viera a Setúbal exigir dos Governadores que o proclamassem rei, uma vez que o monarca castelhano e o Prior do Crato tinham perdido todo e qualquer direito por terem recorrido a meios violentos. Esta exigência repetia-se, e, a cada momento, á Vehemencia da aspiração correspondia a grosseria da frase. Cercados de tão grandes dificuldades que de todos os lados surgiam, os Governadores não sabiam que partido tomar. Se a. aclamação de Santarém os deixara assombrados, a entrada do Prior em Lisboa enchia-os de verdadeiro terror. A aumentar a sua perplexidade havia ainda a chegada a Setúbal em 24, dia imediato ao da entrada de D. António em Lisboa, do Governador D. João Telo que se apresentava como fugitivo. A sua chegada alarmou também os embaixadores castelhanos que logo pediram aos outros Governadores que o não admitissem em conselho, nem lhe reconhecessem autoridade, pois que a sua conduta em Lisboa autorizava iodas as suspeitas. A seguir vieram o conde de Vimioso e outros partidários de D. António e a trama de uma conspiração, rapidamente urdida, ia produzir os seus naturaes resultados. Dela foram porém, informados, por denúncia, os Governadores. Esta má nova aumentou mais ainda o terror de que já se achavam possuídos, e, no meio da sua angustia, a solução vergonhosa, mas humana, imediatamente lhes acudiu ao espírito. Era preciso fugir; fugir imediatamente, antes que a sublevação projectada, uma vez triunfante, os entregasse nas mãos victoriosas do Prior do Grato. Assim, precisamente quando indispensável se tornava que o poder, legal estivesse confiado a homens valorosos e serenos, à altura da gravidade do momento, ele estava afinal entregue, a uns pobres, velhos gastos, cançados, cheios de temor, decrépitos de corpo e de espirito: «pobres hombres, viexos, sin consexo y llenos de miedo». Mas os preparativos da fuga não poderam ser feitos tão a ocultas que deixassem de; ser notados, e então o temido movimento surgiu com toda a sua violência. As vaias, os apupos, as injurias de toda á espécie e os brados de morte da multidão embravecida soavam aos ouvidos dos Governadores como fúnebre dobre de finados. "Estos pobres hombres, escrevia Cristovam de Moura a Filipe II, me han hecho gran lastima porque lloraban como ninos sin saver escojer lo que mas les convenia. Noite espantosa foi essa de 26 para 27. De madrugada, porém, os Governadores conseguiram, a muito custo, refugiar-se, como criminosos, a bordo da caravela que por fim os foi deixar em Ayamonte. Entretanto a casa de Cristovam de Moura era igualmente alvo das iras populares. A serenidade e o valor pessoal do embaixador tiveram, porém, o condão de lhe conservar intactas a liberdade e a vida. Só pela manhã os embaixadores partiram. Estranho contraste! Ao passo que os Governadores, representantes do poder legal, sahiam de Setúbal protegidos pelas sombras da noite, fugindo vergonhosamente, os embaixadores de Castela esperavam que o sol se erguesse para lhes iluminar a retirada. Segundo um acordo anterior, os embaixadoras castelhanos deviam ir reunir-se aos Governadores em Alcácer do Sal. Mas, parecendo a estes, afinal, que tal distância era muito pequena, proseguiram a viagem até Ayamonte. Entretanto Filipe II, observando aos seus embaixadores que se tinha acabado de cortar "el hilo a la negociacion”, ordenava-lhes que se juntassem ao exercito do Duque de Alba. Segundo o critério que os norteava os Governadores tinham feito bem. porque as malhas da rede destinada a colhê-los tinha-se estendido bastante para além de Setúbal. Â 28 de Junho D. António expedia de Azeitão a D. João de Azevedo, alcaide de Extremos, uma carta dando ordens e instruções para a prisão dos Governadores. De Ayamonte, onde aportaram corre dois dias de viagem, os fugitivos passaram dias depois a Castro-Marim, não sem terem obtido do Duque de Medina-Sidonia, que os cumulara de atenções, uma guarda constituída por duas companhias de arcabuzeiros. Por seu turno Filipe II, calculando que a situação económica dos governadores não seria satisfatória, recomendava ao Duque que averiguasse discretamente se assim era, porque a queria remediar se ela não fosse boa. Largamente adulada a vaidade senil dos governadores, e .colocados em situação de absoluta segurança material, foi afinal expedida de Madrid, a 11 de Julho, a minutada declaração dos direitos de Filipe II, que os governadores deveriam servilmente subscrever. A 14 ainda a adulação continuava, mandando Filipe II consultar os Governadores sobre a nomeação de fronteiros para as terras conquistadas. Por fim, em 17, foi firmado o celebre edito de Castro-Marim no qual o poder legal, curvando se subserviente, declarava rebelde e inimigo da Pátria o português valoroso que por ela ia dar a tranquilidade e o bem-estar do resto dos seus dias, e rei de Portugal o estrangeiro que assentava a frieza dos seus direitos na violência das armas e no poder corruptor do seu dinheiro. Por tardio, este documento poderá parecer inútil; não o era porém. Subscrito por portugueses, ele é urna ignominia, mas não é uma inutilidade. Uma vez quebrada a resistência que se erguia sob a a égide do Prior do Grato, Filipe n colheria sem dificuldades, por virtude dele, a obediência dos legalistas. E os legalistas dispunham ainda de bastante influência. Nem de outra maneira se explica que o Duque d'Alba, certamente bem desejoso de que o triunfo de Filipe n se devesse sobretudo à sua acção militar, fizesse a apologia desse documento. Enviando ao Duque 50 copias da édito e pedindo-lhe um parecer a respeito da sua eficiência, o rei exprimia a sua opinião do seguinte modo: «se cree ha de tener gran fuerza para con todos los dese reino, pues los buenos y leales se confirmaran en mi obediencia y servido y los que teniam dubida ó escrúpulo por el juramento que habiam hecho saldran delia, y los obstinados por entura volveran sobre si y tomaram el camino que les conviene». Em resposta o velho general escrevia: «Las cincuentas copias de la declaracion de los governadores, que V. M. me mando enviar, he recebido que me ha parecido muy buena diligencia, y tan acertada que espero sera de mucho fruto. Yo ya he comenzado a enviar a algunas partes delas, y hoy he enviado a Lisboa una con el prior de Belém». A missão dos governadores estava agora finda. Filipe II o afirmava em termos crus e incisivos que eram um bem merecido prémio da sua indignidade: «Firmado y enviado que hayam los governadores estos edictos, se podran venir en buen hora, como yo se lo escribo, pues no ternam mas que hacer por alia y para ayuda a su gasto escrivo y envio a mandar a António Manso que les provea de cada três mil! ducados, y que ponga a mi cuenta otros quatro mill que les ha dado, que con esto creo ternam suficientemente Io que habran menester”. Sem patriotismo que os norteasse, sem serenidade e sem energia, os Governadores haviam de vir fatalmente a inclinar-se ante o partido que se lhes afigurasse mais forte. Desgraçadamente para a sua memória esse partido foi o do rei castelhano. E foi assim, entre o tilintar festivo do ouro castelhano, numa vileza triste, monótona, obscura, insignificante, que o poder constituído, o único poder legal, voluntariamente se retirou da scena política, naquela hora trágica em que o gládio vitorioso do Duque d'Alba se estendia já, ameaçador, por sobre os poucos patriotas que pretendiam resgatar ainda, com o seu sangue generoso, os crimes de muitos e os erros de todos.

sexta-feira, julho 10, 2009

POEMA EM LINHA RETA
(Fernando Pessoa)

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo.
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó principes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Favas Contadas

"Já lhe foi (bem o vistes) concedido
C’um poder tão singelo e tão pequeno,
Tomar ao Mouro forte e guarnecido
Toda a terra, que rega o Tejo ameno:
Pois contra o Castelhano tão temido,
Sempre alcançou favor do Céu sereno.
Assim que sempre, enfim, com fama e glória,
Teve os troféus pendentes da vitória."



quarta-feira, julho 01, 2009

The Poem of Huizhen
by Yuan Zhen (779-831)

A thin moon pierces the window lattice
and firefly lights appear in the jade sky.
Where the far sky begins is all silky distance.
The low trees emerge as a dark blur of green.
Dragon songs swirl through the courtyard bamboo
as phoenix songs touch parasol trees by the well.
Thin fog descends like silk gauze.
In slight wind the sound of jade rings is heard.
The Royal Mother of the West trails a dark red train.
Her maids carry cloud-shaped jade in their hands.
Deep in the night, people all are quiet.
Our meeting is like dawn, though rain is drizzling.
Pearl light shines from her decorated shoes,
flowers peek from her embroidered clothes,
her jeweled hairpin is a colored phoenix,
and her silk shawl covers a red rainbow.
She says she’s from Yao Hua Garden
and is on pilgrimage to the Jade Emperor’s palace.
Because she took a tour to Luo City
she happened to come here, east of Song family.
When I flirt with her she resists at first.
but soft feelings already secretly connect us.
When she bows her hair it seems the shadows of cicadas move.
As she walks about her jade stocking are gilded with dust.
When she turns it’s like snowflakes swirling.
On the bed we embrace through silk
and like Mandarin ducks dance with our necks twined.
Like two kinds of jade, we go well together,
though her dark eyebrows knit frequently in shyness.
Her warm red lips feel like they are melting.
I taste her breath like a fragrant orchid,
her creamy skin, her full jade flesh.
She feels strengthless, unable to move even a wrist,
though she’s so sensitive that her body tenses.
The light of her sweat is like pearls.
Her tangled hair is loose and black.
Happiness like this comes once in a thousand years.
But now we hear the fifth beat of the night drum.
We want to stay, but time is scarce,
We are so close that it is hard to stop.
Her face is sorrow
and her words promise faithfulness.
She gives me ring to remember this time,
ties a knot, to say our hearts are twined.
Her tears drop on the mirror
and around the guttering lamp insects swirl.
The dawn light comes slowly
and the rising sun starts to show.
She flies back to Luo on the back of a crane
and plays a vertical flute on Song Mountain.
My clothes are fragrant as if dyed with musk.
There are red stains still on the pillow.
Standing in front of the grass in the pond,
my thoughts are floating far away.
I hear a harp crying and complaining like a crane.
gaze at the clear River of Stars and hope to see her crane returning.
But the ocean is too broad to cross
and the sky is too high to soar above,
so like a floating cloud with nowhere to go
I walk back inside the tower.