sexta-feira, outubro 30, 2009

Poema árabe

Adalberto Alves
O meu coração é árabe


filha das águas e da terra,
para quem lhe almeja os dons
é corpo numa veste de recusa
e na sua beleza obstinada
bem no cimo lá da haste
lembra uma jovem cristã
que cota de espinhos usa.








quarta-feira, outubro 28, 2009

O Odor Do Sangue
MARCANTE !


João Lopes / Diário de Notícias

"O filme conta a história sentimental de Carlo, dividido entre a sua mulher Silvia e a jovem Lu. Carlo partilha um apartamento em Roma com Silvia no bairro fino de Parioli: não esconde nada da sua relação com Lu, que alberga na sua casa de campo, e aceita que Silvia possa ser cortejada por outros homens. Quando se encontra no campo com Lu, Carlo tem como hábito falar longamente ao telefone com a sua mulher, e é no decurso de uma dessas conversas que descobrimos que um jovem rapaz procura seduzir Silvia. A aparição desta quarta personagem marca o ponto de partida da história: a de uma obsessão, cujos longos diálogos investigarão o mistério de Silvia, levando progressivamente Carlo à verdade. Silvia aparece cada vez mais prisioneira deste jovem amante misterioso e violento, e acaba por pedir a Carlo para não regressar ao seu apartamento em Roma. A partir desse momento, Carlo vai vaguear na cidade, que lhe aparece angustiante e sinistra, procurando em vão dar uma cara ao rapaz.
Transformado pela angústia, Carlo descarrega a sua violência contida em Lu. Volta precipitadamente para Veneza porque Silvia lhe pede que vá ter com ela. Em Veneza, Carlo apercebe-se que afinal a sua mulher está nas garras do seu amante torcionário, e que alimenta a necessidade de cometer um acto desesperado. Deixa-a, mas quando regressa ao campo é por sua vez abandonado por Lu.
Chega o Inverno. Carlo recebe uma chamada de Sergio que lhe comunica a morte de Silvia. Os dois amigos deslocam-se à morgue onde Carlo pára demorado frente ao corpo de Silvia enquanto ecoa a melodia de Romeo de Berlioz no túmulo de Julieta."


Goffredo Parise
"A existência humana é desordenada, de uma desordem que remonta a tempos longínquos, bem antes da actividade sexual, em zonas de energia não menos sexuais mas ainda remetidas, na maior parte, à obscuridade do desconhecido. Estas, desenvolvendo-se e acopolando-se na desordem, produzem e reproduzem uma outra desordem e um outro desconhecido, até atingir a pequena, pequeníssima parte de conhecido constituinte do nosso conhecimento, da nossa nascença e breve aparição neste mundo. A desordem está na vida. No acaso que nos engendrou, que caminha através dos grandes e pequenos traumatismos que acompanham o nosso crescimento, a nossa infância, a nossa adolescência, a nossa maturidade, a nossa velhice e a nossa morte. A desordem absoluta é abrir os olhos para a desordem e os aleatórios do mundo, a desordem é o nosso desenvolvimento, os nossos instintos primários, os nossos desejos ou as nossas volúpias, a ponto de cada um de nós sabe ter amado com mais ou menos castidade os seus camaradas de infância dos dois sexos, levado pelos impulsos mais desordenados e desconhecidos: uma tarde, atrás de um arbusto no campo, entre as vacas movendo-se livremente, pelo calor, o odor dos excrementos humanos e um moscardo verde; os banhos entre rapazes e raparigas num canal; o cheiro dos cabelos de uma criança do sul de Itália acabado de sair do mar; o suor de uma miúda que joga ténis com a cara avermelhada; a garganta apertada (era mais forte que nós) nos primeiros beijos, nas carícias e no primeiro amor verdadeiro. Tudo é desordem."


MARIO MARTONE

Encenador e realizador, Mario Martone nasceu em Nápoles em 1959. Começa a trabalhar logo em 1977, num teatro de avant garde típico da altura e funda a companhia Falso Movimento com a qual realiza espectáculos que combinam música, cinema e artes visuais como Tango glaciale, Il desiderio preso per la corda, Rittorno ad Alphaville. Dez anos depois, cria a companhia Teatri Uniti, que se impõe como um ponto de encontro para os artistas napolitanos da nova geração. Com Teatri Uniti, monta o espectáculo Rasoi (sobre os textos de Enzo Moscato, co-encenados por Toni Servillo,1991) e realiza as suas primeiras longas metragens: Morte di un matematico napolitano (Grande prémio do júri em Veneza 1992), L’amore molesto (1995) e Teatro di guerra (1998). Além disso realiza numerosos documentários e curtas metragens e, no teatro, traz à cena várias tragédias gregas (está actualmente envolvido no ciclo tebano de Sofócles) e óperas, entre as quais Don Giovanni e Cosi fan tutte de Mozart (retomado recentemente em Ferrara com Claudio Abbado).
Entre 1999 e 2000, dirige o Teatro di Roma, onde opera uma mudança radical na programação, abrindo-o às diferentes formas de expressão artística e ao novo teatro. Em Roma, encena Édipo Rei e Os Dez Mandamentos de Rafaele Viviani e cria um novo espaço teatral, o Teatro India, investindo uma velha fábrica que estava no abandono sobre o Lungotevere. Desde 2003, faz parte do comité artístico do Mercadante Teatro Stabile de Nápoles, para o qual dá vida ao projecto Stabile onde estão implicados dezenas de artistas italianos sobre temas do romance homónimo de Pier Paolo Pasolini.


Mario Martone, como chegou a este novo filme, após três anos sem filmar?

Inspirei-me no livro de um escritor da região de Veneza, Goffredo Parise. O texto foi escrito em 1981, arrumado numa gaveta, de lá tirado pelo autor dois meses antes da sua morte, e finalmente publicado postumamente dez anos mais tarde. Foi um pouco como uma bomba a retardamento que, no momento da sua explosão, parecia falar numa língua que não era a da literatura dos anos setenta, mas a de hoje em dia.
A descoberta de Parise foi decisiva: é um autor livre, afastado dos lugares comuns, inclassificável ideologicamente, como Pasolini.
Depois de ter percorrido o mundo e de ter contado nas suas reportagens a violência vista em tantos países, da China ao Vietname e ao Biafra, em O ODOR DO SANGUE, Parise fala da desordem que existe na intimidade.

É exactamente isso: a intimidade, o sexo, são os temas principais do filme.

A relação com o sexo é complicada em Parise, como é complicada para toda a gente. Para ele, a sexualidade deve ser vivida até ao fim sem preconceitos católicos, como ele o tinha descrito numa reportagem no Japão, país de que gostava muito e que conhecia muito bem.
Li o romance em 1997 e fiquei muito marcado, e se Parise diz tê-lo vivido como uma terapia, ao principio foi a mesma coisa para mim.
Acabava de sair de um túnel de sofrimentos; períodos, como acontece, pelos quais atravessamos uma relação difícil com a linguagem. Não sabemos o que queremos e o que podemos dizer, o que é preciso ou impreciso dizer, por entre as palavras que pronunciamos ou que calamos, tudo se torna inextricável. A radicalidade da sua escrita neste romance fulminou-me: é mais escandalosa que o sexo por si.


Imagino que lendo o livro viu logo que filme ia fazer dali?
Pelo contrário: não pensava fazer um filme, mas em juntar notas como se estivesse a desenvolver um trabalho pessoal, apanhado pelo tema. E apercebi-me que podia fazer disso um filme: as relações entre as personagens eram vivas e não pediam ajustes. Comecei então um projecto de argumento sem saber se os direitos estavam disponíveis, porque, mais do a finalização cinematográfica, o que me interessava era o corpo a corpo, pessoal e íntimo, entre o romance e a vida. Quando finalmente tive na mão o rascunho a partir do qual podíamos ter uma primeira ideia do filme, descobri que a Fanny Ardant tinha adquirido uma opção sobre os direitos: ela tinha lido o romance, atraída pelo título e fascinada pela foto do autor na capa, desconhecendo o quanto Parise tinha amado Truffaut, e sem saber que ele próprio tinha traduzido os diálogos de Jules e Jim.
 

Portanto a grande actriz francesa foi “fulminada” também ela , por Parise. Qual é o seu papel no filme? Há que dizer que ela criou uma personagem feminina que se encontra entre as mais extraordinárias dos últimos dez anos.
O filme enfrenta uma relação conjugal que mudou, o ciúme, o desejo cansado e aquele que é jovem e voraz, a atracção da mulher, Fanny Ardant, por uma paixão doentia. A Fanny soube interpretar admiravelmente uma personagem inefável e muito misteriosa, que suscita uma dialéctica inédita e portanto destabilizante.

Porquê mudar o quadro temporal?

No filme, a acção é transportada da Roma dos anos 70, a dos anos de chumbo do terrorismo, à igualmente desordenada e depressiva, dos nossos dias, com feridas ainda mais profundas. Mudei também os nomes e as profissões dos três protagonistas, mas apenas porque era o único meio que tinha de me apropriar totalmente conseguindo representar com exactidão o mundo burguês das personagens.
 

Temos a impressão de que há uma matéria obscura no filme. É verdade?

Sim, exactamente. Em O ODOR DO SANGUE, há uma matéria obscura, o corpo, o verdadeiro campo de batalha das nossas vidas, enquanto problema. O eros, aquele que se manifesta e aquele que não se manifesta, leva à identificação com esta história, mesmo se ela não é construída para uma identificação.


Não se pode dizer que é uma história que acaba bem!
Pelo contrário. É uma história trágica, extrema. Uma obsessão masculina que transtorna tudo.
 

Como nunca anteriormente conta com um impudor glacial, com um erotismo explícito no ecrã uma obsessão, o sexo como jogo cruel e procura desesperada de sentido.

Não existe exclusividade, repetem-se os protagonistas, como que para justificar a impossibilidade de sair da desordem da condição humana, do sexo, da vida, porque o que acontece à nossa volta não está separada do que se passa por dentro de nós. O filme é como uma tragédia grega com três personagens: os enganos cruzam o destino, e tudo o que é terrível passa-se fora de cena. O desejo casa-se com a paixão, com a morte, no sentido do engano e da dor que frequentemente entrelaçam as ligações dos homens e das mulheres. Mas o verdadeiro escândalo desta questão, e também a sua força, é a palavra.


As personagens exprimem-se de forma directa, não escondem nada.
Mas essa utopia é o risco que os amantes correm quando jogam a dizer a verdade!











quarta-feira, outubro 14, 2009

«O quê, o gajo do Tintin também escreve livros?»
(Dinis Machado, sobre o seu livro "O que diz Molero")



Descobri que queria ser o primeiro leitor a surpreender-se com aquilo que eu próprio escrevia. Depois, além da Marília, a minha mulher, foram os meus amigos de infância, aos quais li o livro em voz alta. Eles ficaram encantados e só me perguntavam como éque tinha conseguido passar a atmosfera do nosso sítio, da nossa gente. Não havia correlação directa com as personagens, mas eles reviram-se na história. Levei-o, então, à Bertrand, à Piedade Ferreira, um bocado a medo, porque o livro era muito anticonvencional, podia ferir susceptibilidades. O Luiz Pacheco foi a primeira autoridade literária a lê-lo. Ele viu as provas tipográficas e perguntou: «Oquê, o gajo do Tintin também escreve livros?» Ficou muito entusiasmado e, dias depois, escreveu um artigo no Diário Popular. Foi aqui que tudo começou.
Inédito de Pessoa






















Quando criança eu apanhava os carrinhos de linha. 
Amava-os com um amor doloroso – que bem que me lembro – porque tinha por eles não serem reais uma imensa compaixão... Quando um dia consegui haver às mãos o resto de umas pedras de xadrez, que alegria não foi a minha! Arranjei logo nomes para as figuras e passaram a pertencer ao meu mundo de sonho. Essas figuras definiam-se nitidamente.Tinham vidas distintas. Morava um– cujo carácter eu decretara violento e sportsman – numa caixa que estava em cima daminha cómoda, por onde passeava, à tarde quando eu, e depois ele, regressávamos do colégio,um carro eléctrico de interiores de caixas de fósforos de madeira, ligadas não sei porque arranjo de arame. Ele saltava sempre como carro a andar. Ó minha infância morta! Ó cadáver sempre vivo no meu peito! 
Quando me lembro destes meus brinquedos de criança já crescida, a sensação de lágrimas aquece-me os olhos e uma saudade aguda e inútil rói-me como um remorso. 
Tudo aquilo passou, ficou hirto e visível, visualizável, no meu passado, na minha perpétua ideia do meu quarto de então, à roda da minha pessoa invisualizável de criança, vista de dentro, que ia da cómoda para o toucador, e do toucador para a cama, conduzindo pelo ar, imaginando-o parte da linha de carris, o eléctrico rudimentar que levava a casa os meus escolares de madeira ridículos. 
A uns eu atribuía vícios – fumo, roubo – mas não sou de índole sexual e não lhes atribuía actos, salvo, creio, uma predilecção, que me parecia um acto de brincar, de beijar raparigas e espreitar-lhes as pernas. Fazia-os fumar papel enrolado por trás de uma caixa grande que havia em cima duma mala. Às vezes aparecia no lugar um mestre. 
E era com toda a emoção deles, e que eu me via obrigado a sentir, que eu arrumava logo o cigarro falso e punha o fumador vendo-o curiosamente desprendido à esquina, esperando o mestre, e cumprimentando-o, não me lembro bemco mo, à inevitável passagem…Às vezes, estavam longe um do outro e eu não podia com um braço manobrar esse e outro como outro. Tinha que os fazer andar alternadamente. 
Doía-me isto como hoje me dói não poder dar expressão a uma vida...
Ah, mas porque recordo eu isto? 
Por quenão fiquei eu sempre criança? 
Porque não morri eu ali, num desses momentos, preso das astúcias dos meus escolares e da vinda como que inesperada dos meus mestres? 
Hoje não posso fazer isto...Hoje tenho só a realidade com que não posso brincar... 
Pobre criança exilada na sua virilidade! 
Porque foi que eu tive de crescer?
Hoje, quando relembro isto, vêm-me saudades demais coisas do que isto tudo. 

Morreu em mim mais do que o meu passado.

quarta-feira, outubro 07, 2009

O Cicatrizante não é...


creme natural

nem anti-séptico esterilizante
nem pomada de resultado rápido
nem remédio natural regulador das glândulas sebáceas
nem cauterização para unha encravada
nem remédio para fechar orifício do piercing
nem feito à base de própolis e xilocaína
nem tem acção anti-bacteriana, bactericida, bacteriostatico
nem expectorante, antidiarreico, adstringente, emoliente, desintoxicante e depurativo
nem lambida de cachorro
nem remédio infalível para rápida cicatrização
reacção anormal do corpo a qualquer tipo de ferimento
nem contém trofodermin, "calendula officinalis", neomicina, bepantol
nem óleo de rosa mosqueta
nem curativo nos mais diversos casos de queimaduras e alergias
nem a resposta que você queria ouvir


Cicatrizante é o nevoeiro curativo que o tempo cria.