quarta-feira, dezembro 08, 2010

Saudades Destas Ruas (três palavras no plural)





Joaquim Pessoa, novamenTe impressionanTe











Vou-me embora de mim


Nasci no campo, onde se cruzavam os cheiros de flor
Do limoeiro Com o de hortelã e o do estrume. Brinquei Por entre o milho, queimei em fogueiras o rosmaninho, Persegui lagartixas, cobras e ouriços, capturei e destruí Escaravelhos, Defendi as carochas, roubei ninhos com ovos e pássaros Implumes, Colhi cachos ainda verdes, desesperei pelo amadurecimento Dos figos, das romãs e dos alperces, Tingi-me com amoras, fui irmão das abelhas, discuti com o Vento E mais do que a erva e as árvores aproveitei-me da chuva. Agora moro num quarto andar e tenho um automóvel tão Sólido como a minha infelicidade, Viajo às vezes entre as árvores, e colinas com árvores e Planícies com árvores Mas está tudo longe, fora do alcance, fugindo de mim Rapidamente, em sentido contrário, Com a mesma rapidez com que a infância me fugiu. Sou hoje um cidadão da pedra e do betão. Os meus pés não Pisam já o alecrim, Os meus olhos não se habituam já ao escuro da noite para Observar o voo dos morcegos, Guardo uma ideia vaga de como era um arado, tenho Saudades De ver o meu pai descalço a regar morangos e abóboras. O piar dos tentilhões e dos picanços foi substituído pelo Ruído do tráfego, O desajeitado voar das borboletas parece-me às vezes vê-lo Nos papéis Que o vento levanta do chão, levando-os daqui para acolá, E a minha vida é vivida de forma a comemorar o dia disto E o dia daquilo Sem comemorar nunca o dia em que começa a primavera. Bom dia!, diz-me o cliente. Bom dia!, diz-me o fornecedor. Bom dia!, digo eu, sem dizer nada.