domingo, março 20, 2011

Um Pouco De Ternura

Uma crónica de Baptista Bastos

Nos olhos dela habitava a bondade. Um doce sorriso embalava-lhe os lábios, e a face transparecia a tranquilidade interior de quem não fora punida pelo despeito nem agredida pelo ressentimento. Era ainda nova: vivia na linha de sombra que tenuemente divide a idade das pessoas, entre maduras e velhas. De onde viera? Que idade tinha? Ninguém sabia. Por vezes, pintava os lábios murchos. Por vezes, exibia largos decotes e mangas cavadas, eis o traço lascivo dos seios, eis os braços roliços, opulentos e sensuais. Era alta, quase imponente; porém, quando subia a rua íngreme, parecia alada, os pés quase não tocavam no chão.

Aparecera no bairro e logo se organizara uma aura de mistério em sua volta. Apesar da estatura, mantinha-se discreta e reservada, pouco
falava com os vizinhos. Havia dias em que cantava; cantava alto velhas canções de amor. Nas tardes de sábado, os homens reuniam-se no clube, jogavam ao loto e à sueca e, ocasionalmente, embebedavam-se.

Ela residia num pequeno apartamento, mesmo por cima do clube. Gostava de se colocar à varanda, e os homens fitavam-na, gulosos, ávidos e sôfregos. Fingia não os ver. As mulheres remoíam raivas e amuos. Ela observava o horizonte, lá, onde o Tejo forma uma laçada, e permanecia assim: abstracta, atenta e exposta. Mas gostava que a apreciassem, e divertia-se com o ciúme das outras. Às vezes dançava ao som de uma pequena telefonia. Dançava como se estivesse a dançar com o mundo, ou, quem sabe?, a pensar em alguém que amara.

As geografias sentimentais são mais ou menos favoráveis: o bairro era bom e valia tudo o que de ele se dissesse; o resto era mau, e tudo o que de pior se dissesse nunca seria excessivo. Começaram as intrigas, as suposições pérfidas, as calúnias evasivas. Não lhe perdoavam a beleza, a dignidade da postura, a pequena viração de altivez que dela se desprendia.

Suspeitaram de tudo: que era prostituta, que vivia às custas de um proprietário de imóveis, que fazia números de nu em cabarés rascas. Chegou-lhe aos ouvidos a natureza insidiosa desses boatos. Não lhes atribuiu a menor importância, o que ainda mais arreliou as outras.

Saía de casa logo pela manhã, regressava tarde, ocasionalmente ausentava-se pela noite. Acumulavam-se as suspeições. Até que, certo dia, deixou de aparecer. O falatório aumentou. Coisas medonhas foram ditas, como se de verdades se tratassem. Correu o tempo; uma semana passou, outra, e outra ainda. Para onde fora? Que seria feito dela? E se ele não regressasse, não pudesse regressar ou não quisesse regressar?

Depois, houve quem a visse. Era numa tarde em que a chuva, lamentosa, caía forte. Desapareceu no cotovelo da rua, quem a viu acelerou o passo para descortinar aonde ela ia. Entrou num prédio alto e antigo, de azulejos, e ao perseguidor assaltou a ideia de que a vizinha misteriosa talvez fosse mulher-a-dias. Este indivíduo tivera, em tempos, a veleidade de se relacionar com ela; porém, fora rejeitado com uma frase breve e ríspida. Era o ressentimento que o incitara àquela infausta perseguição.

Horas e horas decorreram. A chuva deixara de cair, o homem encostara-se a uma árvore, sem abandonar a vigilância ao prédio. Até que, finalmente, ela reapareceu. Olhou em derredor e, rapidamente, aproximou-se da árvore onde o outro se ocultava. Atrapalhou-se, o homem. E ela disse:

— Quer saber o que eu faço, não é?

— Bom…bom — Não sabia o que responder.

— Olhe: vendo ternura.

E desandou. Agora, uma brisa mansa, um vento acariciador, um pio de ave, e o silêncio. Era assim: todos os dias, ou quase, ela visitava casas de gente idosa, e recebia escassos euros para lhes ler jornais, revistas ou livros de histórias cordatas com finais felizes. Simplesmente um pouco de ternura.

Voltou à rua para se despedir da rua e ignorar as pessoas. As pessoas juntaram-se, viram-na subir o calçadão, puxar pelas pernas para escalar a escadaria enorme. Durante algum tempo pensaram nela. Nunca ninguém soube o seu nome, nem se foi feliz na vida.

Anos depois, um modesto cronista contou-a numa crónica humilde.

Anyway (original)



All the pumping's nearly over for my sweet heart,
This is the one for me,
Time to meet the chef,
O boy! running man is out of death.
Feel cold and old, it's getting hard to catch my breath.
's back to ash, 'now, you've had your flash boy'
The rocks, in time, compress
your blood to oil,
your flesh to coal,
enrich the soil,
not everybody's goal.

Anyway, they say she comes on a pale horse,
But I'm sure I hear a train.
O boy! I don't even feel no pain -
I guess I must be driving myself insane.
Damn it all! does earth plug a hole in heaven,
Or heaven plug a hole in earth - 'how wonderful to be so profound,
when everything you are is dying underground.'

I feel the pull on the rope, let me off at the rainbow.
I could have been exploding in space
Different orbits for my bones
Not me, just quietly buried in stones,
Keep the deadline open with my maker!
See me stretch; for God's elastic acre
The doorbell rings and its
"Good morning Rael
So sorry you had to wait.
It won't be long, yeh!
She's very rarely late."

Anyway Analysis

Por fim, um dos melhores temas de sempre é também analisado:


Analysis Anyway from Leigh Harris on Vimeo.

Grand Parade Of Lifeless Packaging

Mais uns segredos revelados...


Uma Troca de Bolas

RecentemenTe em Man On The Moon os R.E.M. trocaram "Mr. Charles Darwin had the gall to ask" por "Mr. Charles Darwin had the balls to ask". Confirma-se assim que cores não se discutem...

In God We Trust ?

Tons Laranja

Começam a aparecer os tons alaranjados:

sábado, março 05, 2011

Os Retoques Do Sr. Hackett

Devido a um acidente numa das mãos - que ía acabando com a sua carreira - na gravação Live do The Lamb houve "correcções técnicas" feitas pelo engenheiro de som Nick Davis a alguns solos da guitarra eléctrica. Anos depois a versão remastered conta com os retoques do próprio Steve Hackett, entretanto operado à tendinite, para (re)por o brilhantismo dos seus solos.

Tudo revelado nesta serie de videos:



Teoria Da Conspiração - Carpet Crawlers reversed

Espantoso como a melodia fica preservada mesmo quando tocada ao contrário