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quinta-feira, maio 31, 2012

O Equívoco de Coelho Pacheco






Houve um tempo em que se chegou a pensar que Coelho Pacheco seria um heterónimo (mais um) de Fernando Pessoa.  Autor de “Para Além de Outro Oceano”.

Depois acordaram... era mesmo uma pessoa real..: José Coelho Pacheco

segunda-feira, maio 28, 2012

Quando Eu Não Te Tinha


Carta

E hoje que é sexta-feira, primeiro dia de maio, pela manhã, saímos em terra com nossa bandeira; e fomos desembarcar acima do rio, contra o sul onde nos pareceu que seria melhor arvorar a cruz, para melhor ser vista. E ali marcou o Capitão o sítio onde haviam de fazer a cova para a fincar. E enquanto a iam abrindo, ele com todos nós outros fomos pela cruz, rio abaixo onde ela estava. E com os religiosos e sacerdotes que cantavam, à frente, fomos trazendo-a dali, a modo de procissão. Eram já aí quantidade deles, uns setenta ou oitenta; e quando nos assim viram chegar, alguns se foram meter debaixo dela, ajudar-nos. Passamos o rio, ao longo da praia; e fomos colocá-la onde havia de ficar, que será obra de dois tiros de besta do rio. Andando-se ali nisto, viriam bem cento cinqüenta, ou mais.

Plantada a cruz, com as armas e a divisa de Vossa Alteza, que primeiro lhe haviam pregado, armaram altar ao pé dela. Ali disse missa o padre frei Henrique, a qual foi cantada e oficiada por esses já ditos.

Ali estiveram conosco, a ela, perto de cinqüenta ou sessenta deles, assentados todos de joelho assim como nós. E quando se veio ao Evangelho, que nos erguemos todos em pé, com as mãos levantadas, eles se levantaram conosco, e alçaram as mãos, estando assim até se chegar ao fim; e então tornaram-se a assentar, como nós. E quando levantaram a Deus, que nos pusemos de joelhos, eles se puseram assim como nós estávamos, com as mãos levantadas, e em tal maneira sossegados que certifico a Vossa Alteza que nos fez muita devoção.

Estiveram assim conosco até acabada a comunhão; e depois da comunhão, comungaram esses religiosos e sacerdotes; e o Capitão com alguns de nós outros. E alguns deles, por o Sol ser grande, levantaram-se enquanto estávamos comungando, e outros estiveram e ficaram. Um deles, homem de cinqüenta ou cinqüenta e cinco anos, se conservou ali com aqueles que ficaram. Esse, enquanto assim estávamos, juntava aqueles que ali tinham ficado, e ainda chamava outros. E andando assim entre eles, falando-lhes, acenou com o dedo para o altar, e depois mostrou com o dedo para o céu, como se lhes dissesse alguma coisa de bem; e nós assim o tomamos!

Acabada a missa, tirou o padre a vestimenta de cima, e ficou na alva; e assim se subiu, junto ao altar, em uma cadeira; e ali nos pregou o Evangelho e dos Apóstolos cujo é o dia, tratando no fim da pregação desse vosso prosseguimento tão santo e virtuoso, que nos causou mais devoção. Esses que estiveram sempre à pregação estavam assim como nós olhando para ele. E aquele que digo, chamava alguns, que viessem ali. Alguns vinham e outros iam-se; e acabada a pregação, trazia Nicolau Coelho muitas cruzes de estanho com crucifixos, que lhe ficaram ainda da outra vinda. E houveram por bem que lançassem a cada um sua ao pescoço. Por essa causa se assentou o padre frei Henrique ao pé da cruz; e ali lançava a sua a todos -- um a um -- ao pescoço, atada em um fio, fazendo-lha primeiro beijar e levantar as mãos. Vinham a isso muitos; e lançavam-nas todas, que seriam obra de quarenta ou cinqüenta. E isto acabado - era já bem uma hora depois do meio dia - viemos às naus a comer, onde o Capitão trouxe consigo aquele mesmo que fez aos outros aquele gesto para o altar e para o céu, (e um seu irmão com ele). A aquele fez muita honra e deu-lhe uma camisa mourisca; e ao outro uma camisa destoutras.
 
E segundo o que a mim e a todos pareceu, esta gente, não lhes falece outra coisa para ser toda cristã, do que entenderem-nos, porque assim tomavam aquilo que nos viam fazer como nós mesmos; por onde pareceu a todos que nenhuma idolatria nem adoração têm. E bem creio que, se Vossa Alteza aqui mandar quem entre eles mais devagar ande, que todos serão tornados e convertidos ao desejo de Vossa Alteza. E por isso, se alguém vier, não deixe logo de vir clérigo para os batizar; porque já então terão mais conhecimentos de nossa fé, pelos dois degredados que aqui entre eles ficam, os quais hoje também comungaram.
 
Entre todos estes que hoje vieram não veio mais que uma mulher, moça, a qual esteve sempre à missa, à qual deram um pano com que se cobrisse; e puseram-lho em volta dela. Todavia, ao sentar-se, não se lembrava de o estender muito para se cobrir. Assim, Senhor, a inocência desta gente é tal que a de Adão não seria maior - com respeito ao pudor.
 
Ora veja Vossa Alteza quem em tal inocência vive se se convertera, ou não, se lhe ensinarem o que pertence à sua salvação.
 
Acabado isto, fomos perante eles beijar a cruz. E despedimo-nos e fomos comer.
 
Creio, Senhor, que, com estes dois degredados que aqui ficam, ficarão mais dois grumetes, que esta noite se saíram em terra, desta nau, no esquife, fugidos, os quais não vieram mais. E cremos que ficarão aqui porque de manhã, prazendo a Deus fazemos nossa partida daqui.

Esta terra, Senhor, parece-me que, da ponta que mais contra o sul vimos, até à outra ponta que contra o norte vem, de que nós deste porto houvemos vista, será tamanha que haverá nela bem vinte ou vinte e cinco léguas de costa. Traz ao longo do mar em algumas partes grandes barreiras, umas vermelhas, e outras brancas; e a terra de cima toda chã e muito cheia de grandes arvoredos. 

De ponta a ponta é toda praia... muito chã e muito formosa. Pelo sertão nos pareceu, vista do mar, muito grande; porque a estender olhos, não podíamos ver senão terra e arvoredos -- terra que nos parecia muito extensa.
 
Até agora não pudemos saber se há ouro ou prata nela, ou outra coisa de metal, ou ferro; nem lha vimos. Contudo a terra em si é de muito bons ares frescos e temperados como os de Entre-Douro-e-Minho, porque neste tempo d'agora assim os achávamos como os de lá. Águas são muitas; infinitas.
 
Em tal maneira é graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo; por causa das águas que tem!
 
Contudo, o melhor fruto que dela se pode tirar parece-me que será salvar esta gente. E esta deve ser a principal semente que Vossa Alteza em ela deve lançar. E que não houvesse mais do que ter Vossa Alteza aqui esta pousada para essa navegação de Calicute bastava. 

Quanto mais, disposição para se nela cumprir e fazer o que Vossa Alteza tanto deseja, a saber, acrescentamento da nossa fé!

E desta maneira dou aqui a Vossa Alteza conta do que nesta Vossa terra vi. E se a um pouco alonguei, Ela me perdoe. Porque o desejo que tinha de Vos tudo dizer, mo fez pôr assim pelo miúdo.

E pois que, Senhor, é certo que tanto neste cargo que levo como em outra qualquer coisa que de Vosso serviço for, Vossa Alteza há de ser de mim muito bem servida, a Ela peço que, por me fazer singular mercê, mande vir da ilha de São Tomé a Jorge de Osório, meu genro - o que d'Ela receberei em muita mercê.
 
Beijo as mãos de Vossa Alteza.
 
Deste Porto Seguro, da Vossa Ilha de Vera Cruz, hoje, sexta-feira, primeiro dia de maio de 1500.

Pero Vaz de Caminha.

quinta-feira, maio 24, 2012

Enigma



Que maravilha de tempos que vivemos em que é possível ler um poema tal como foi escrito pelo seu autor.

quarta-feira, maio 23, 2012

Metamorfose


"Numa manhã, ao despertar de sonhos inquietantes, Gregório Samsa deu por si na cama transformado num gigantesco inseto. Estava deitado sobre o dorso, tão duro que parecia revestido de metal, e, ao levantar um pouco a cabeça, divisou o arredondado ventre castanho dividido em duros segmentos arqueados, sobre o qual a colcha dificilmente mantinha a posição e estava a ponto de escorregar. Comparadas com o resto do corpo, as inúmeras pernas, que eram miseravelmente finas, agitavam-se desesperadamente diante de seus olhos. Que me aconteceu ? — pensou. Não era nenhum sonho. O quarto, um vulgar quarto humano, apenas bastante acanhado, ali estava, como de costume, entre as quatro paredes que lhe eram familiares. Por cima da mesa, onde estava deitado, desembrulhada e em completa desordem, uma série de amostras de roupas: Samsa era caixeiro-viajante, estava pendurada a fotografia que recentemente recortara de uma revista ilustrada e colocara numa bonita moldura dourada. Mostrava uma senhora, de chapéu e estola de peles, rigidamente sentada, a estender ao espectador um enorme regalo de peles, onde o antebraço sumia! Gregório desviou então a vista para a janela e deu com o céu nublado — ouviam-se os pingos de chuva a baterem na calha da janela e isso o fez sentir-se bastante melancólico. Não seria melhor dormir um pouco e esquecer todo este delírio? — cogitou. Mas era impossível, estava habituado a dormir para o lado direito e, na presente situação, não podia virar-se. Por mais que se esforçasse por inclinar o corpo para a direita, tornava sempre a rebolar, ficando de costas. Tentou, pelo menos, cem vezes, fechando os olhos, para evitar ver as pernas a debaterem-se, e só desistiu quando começou a sentir no flanco uma ligeira dor entorpecida que nunca antes experimentara. Oh, meu Deus, pensou, que trabalho tão cansativo escolhi! Viajar, dia sim, dia não. É um trabalho muito mais irritante do que o trabalho do escritório propriamente dito, e ainda por cima há ainda o desconforto de andar sempre a viajar, preocupado com as ligações dos trens, com a cama e com as refeições irregulares, com conhecimentos casuais, que são sempre novos e nunca se tornam amigos íntimos. Diabos levem tudo isto! Sentiu uma leve comichão na barriga; arrastou-se lentamente sobre as costas, — mais para cima na cama, de modo a conseguir mexer mais facilmente a cabeça, identificou o local da comichão, que estava rodeado de uma série de pequenas manchas brancas cuja natureza não compreendeu no momento, e fez menção de tocar lá com uma perna, mas imediatamente a retirou, pois, ao seu contacto, sentiu-se percorrido por um arrepio gela- do. Voltou a deixar-se escorregar para a posição inicial. Isto de levantar cedo, pensou, deixa a pessoa estúpida. Um homem necessita de sono. Há outros comerciantes que vivem como mulheres de harém. Por exemplo, quando volto para o hotel, de manhã, para tomar nota das encomendas que tenho, esses se limitam a sentar-se à mesa para o pequeno almoço. Eu que tentasse sequer fazer isso com o meu patrão: era logo despedido. De qualquer maneira, era, capaz de ser bom para mim — quem sabe? Se não tivesse de me aguentar, por causa dos meus pais, há muito tempo que me teria despedido; iria ter com o patrão e lhe falar exactamente o que penso dele. Havia de cair ao comprido em cima da secretária! Também é um hábito esquisito, esse de se sentar a uma secretária em plano elevado e falar para baixo para os empregados, tanto mais que eles têm de aproximar-se bastante, porque o patrão é ruim de ouvido. Bem, ainda há uma esperança; depois de ter economizado o suficiente para pagar o que os meus pais lhe devem — o que deve levar outros cinco ou seis anos —, faço-o, com certeza. Nessa altura, vou me libertar completamente. 
Mas, para agora, o melhor é me levantar, porque o meu trem parte às cinco."

Metamorfose
Frank Kafka

Uma Outra Luz


segunda-feira, maio 21, 2012

Quero mais

"Quero tudo novo de novo. Quero não sentir medo. Quero me entregar mais, me jogar mais, amar mais. Viajar até cansar. Quero sair pelo mundo. Quero fins de semana de praia. Aproveitar os amigos e abraçá-los mais. Quero ver mais filmes e comer mais pipocas, ler mais. Sair mais. Quero um trabalho novo. Quero não me atrasar tanto, nem me preocupar tanto. Quero morar sozinho, quero ter momentos de paz. Quero dançar mais. Comer mais brigadeiro de panela, acordar mais cedo e economizar mais. Sorrir mais, chorar menos e ajudar mais. Pensar mais e pensar menos. Andar mais de bicicleta. Ir mais vezes ao parque. Quero ser feliz, quero sossego, quero outra tatuagem. Quero me olhar mais. Cortar mais os cabelos. Tomar mais sol e mais banho de chuva. Preciso me concentrar mais, delirar mais.
Não quero esperar mais, quero fazer mais, suar mais, cantar mais e mais. Quero conhecer mais pessoas. Quero olhar para frente e só o necessário para trás. Quero olhar nos olhos do que fez sofrer e sorrir e abraçar, sem mágoa. Quero pedir menos desculpas, sentir menos culpa. Quero mais chão, pouco vão e mais bolinhas de sabão. Quero aceitar menos, indagar mais, ousar mais. Experimentar mais. Quero menos “mas”. Quero não sentir tanta saudade. Quero mais e tudo o mais.
“E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha". "


Erradamente atribuem este texto a Fernando Pessoa... onde é que tanta ignorância irá desaguar?

domingo, maio 13, 2012

1957


O Castelo do Giraldo foi descoberto em 1957.

Eu descobri-o ontem...

Dois Excertos de textos encontrados na web sobre Giraldo, "O Sem Pavor" e que relatam os valores da época e a importância deste vulto na construção de Portugal:

"...
Nos meados do século XII o Gharb Al-Andalus vivia tempos conturbados. A ameaça do reino de Bortuqal era cada vez maior. Ibn Arrik (Afonso Henriques) conseguira fazer descer a fronteira para o Vale do Tejo e transferira a sua capital para Coimbra, onde procurava granjear o apoio dos moçárabes e fazer no Alentejo uma guerra de desgaste com os seus cavaleiros-vilãos. Para além disso, contava com o apoio dos temíveis Franj, ou cruzados, que mostraram toda a sua crueldade durante os massacres que levaram a cabo na conquista de Lisboa de 1147, na qual inclusivamente assassinaram o bispo moçárabe da cidade.
Do lado do Islão a unidade era difícil de alcançar, já que os recém-chegados Almóadas sentiam dificuldades em unificar o território, pois subsistiam bolsas de resistência Almorávida e de Reinos de Taifas, que se recusavam a aceitar a sua soberania, obrigando a uma constante dispersão de forças para garantir a unidade territorial do Al-Andalus.
Também é verdade que os próprios reinos cristãos disputavam entre si os territórios conquistados ao Islão, o que os colocava frequentemente em guerra aberta uns com os outros.
A guerra entre cristãos e muçulmanos tinha assim contornos que iam muito para além do campo religioso e cultural, e que em termos estratégicos, ideológicos e mesmo espirituais, dava origem a alianças aparentemente pouco lógicas, mas facilmente explicáveis, como a que uniu em determinado momento as cavalarias espirituais Muçulmana e Cristã, personificadas pelos Muridines de Ibn Qassi e os Templários de Ibn Arrik, ou a que uniu os Almóadas de Abu Yaqub Yussuf Al-Mansur ao Reino de Leão de Fernando “o Baboso”.

O Alentejo e a Extremadura Espanhola estavam no centro da disputa pelos territórios de fronteira, e neste contexto surge uma figura controversa e pouco conhecida, que foi determinante nos conflitos que ocorreram neste período, de nome Giraldo “o Sem Pavor”.

Durante o período dos Reinos das Taifas aumenta a ameaça dos cristãos ao Andalus. Incapazes de suster o seu avanço, os príncipes dos vários reinos de taifas, liderados por Al-Mu’tamid Ibn Abbad, reúnem-se na conferência de Sevilha, na qual pedem auxílio a Yussuf Ibn Tachfin, chefe dos Almorávidas que recentemente tinham unificado Marrocos sob o seu poder.

Yussuf era um crítico do modo de vida dos príncipes das taifas, segundo ele mais preocupados em divertir-se do que em lutar contra os inimigos do Islão.

“Libertar a Península dos cristãos tal foi o nosso único fim quando vimos que estavam quase a ser os seus donos e, por outro lado, quanta era a incúria dos príncipes muçulmanos, o seu pouco entusiasmo em fazer a guerra, as suas lutas intestinas e o seu gosto pelos prazeres. Cada um deles não tinha outra preocupação senão esvaziar as suas taças, escutar cantadeiras e divertir-se.”

Yussuf acede ao seu pedido e envia um poderoso exército que se junta às forças de Al-Mu’tamid, rei de Sevilha, Al-Mutawakkil, rei de Badajoz e Abdallah, rei de Granada, para além de tropas das taifas de Almeria e Málaga, que em 1086 derrota na batalha de Zalaca o exército cristão de Afonso VI de Leão e Castela, Sancho Ramirez de Aragão e D. Raimundo e D. Henrique, futuros condes da Galiza e Portucale, e incluindo também uma força enviada por Rodrigo Díaz de Vivar, o famoso El Cid, “o Campeador”. No seguimento da vitória Almorávida, Yussuf não regressa a Marrocos e destrona os reis das Taifas, unificando o Andalus sob a sua bandeira.

“Por pouco que eu viva saberei devolver aos muçulmanos todas as províncias que lhes tomaram os cristãos durante este período calamitoso. Para combater os nossos inimigos enchê-las-ei de cavaleiros e de peões que ignoram o repouso, que não sabem o que é viver na moleza, que não sonham senão em domar e treinar os seus cavalos, em cuidar das suas armas e precipitar-se para o combate á primeira ordem.”



No ano de 1094 o Gharb Al-Andalus estava todo em poder dos Almorávidas, que fixam a fronteira com os reinos cristãos no Vale do Tejo. No entanto a ocupação Almorávida vem criar conflitos na sociedade multi-étnica e multi-cultural andalusa, tradicionalmente tolerante e aberta, que vivia no respeito pelos direitos das várias comunidades. Iniciam-se revoltas no seio dos moçárabes e muladis, em resposta à intolerância do poder dos alfaquís.

“A vitoria dos Almorávidas trouxe para a Espanha Árabe o triunfo dos alfaquís e uma nova época de intolerância religiosa. Isso desgostou grandemente a aristocracia hispano-árabe e as classes cultas, aquela desapossada dos seus bens e estas atingidas pela condenação sistemática das suas obras e pelo desaparecimento da liberdade intelectual.”


A revolta de Ibn Qassi e do movimento Muridíno em Silves, e a consequente criação de um vasto território independente, abarcando todo o Algarve, Alentejo e parte da Extremadura Espanhola, foi sem dúvida a mais importante de todas.


Defensor do misticismo sufi e dos ideais da cavalaria espiritual, Ibn Qassi sela um pacto com Ibn Arrik, cujas ligações aos ideais da cavalaria espiritual são por demais conhecidos, concretamente aos Templários, que constituíam a principal força de ocupação dos territórios da “frente”.


Ibn Qassi é inicialmente apoiado pelos Almóadas, uma nova dinastia berbere que entretanto conquistara Marrocos e disputa com os Amorávidas o domínio do Al-Andalus, mas acaba por ser assassinado por estes. O reinado de Ibn Qassi vigorou entre 1144 e 1151.


Sobre a importância do pacto entre Ibn Qassi e Ibn Arrik escreveria Adalberto Alves: “O pacto simbólico que então faz com D. Afonso Henriques sela o ideal sinárquico que une a cavalaria templária à cavalaria islâmica muridínica, afinal uma convergente cavalaria espiritual. É esse arco voltaico de natureza iniciática que liberta a sinergia donde Portugal virá a brotar”.


Garcia Domingues também se refere não só ao pacto entre Ibn Qassi e Ibn Arrik contra os Almóadas, como também aquele que anteriormente Al-Mu’tamid celebrara com o seu sogro Afonso VI de Castela contra os Almorávidas, ambos selados após pedidos de auxílio feitos aos Norte-Africanos, afirmando: “Desta forma se vê, que a alma destes últimos muçulmanos se dividia já entre os deveres de uma fé confusa e discutida, embora ainda cheia de energias e o sentimento de uma solidariedade peninsular que se iria afirmando.”


A partir de 1157 iniciam-se as grandes ofensivas do Almóada Abu Yaqub Yussuf Al-Mansur, Almançor, “o Vitorioso”, que reconquista algumas praças perdidas pelos Almorávidas após a sua derrota na batalha de Ourique de 1137, sendo apenas travado em Tomar pelos Templários de Gualdim Pais no ano de 1190. A fronteira não mais subiria acima do Vale do Tejo.


Gualdim Pais, cavaleiro Templário regressado da Palestina no ano de 1157, é ordenado Grão-Mestre da Ordem, então sediada em Soure. Em 1160 funda o Castelo de Tomar, para onde transfere a sua sede, e posteriormente os de Almourol, Pombal, Monsanto e Idanha.



Conforme já foi referido, o próprio Afonso Henriques assume-se como um Irmão Templário. No documento de doação do Castelo de Soure à Ordem afirma “…in vestre fraternitate sum frater”. O próprio selo de Afonso Henriques tem referências atribuídas à sua confissão Templária, como a Cruz dos Templários e a decomposição da palavra “Portugal” nas suas três sílabas, resultando na frase “por tu gal” ou “por tuo graal”.

Mas o maior indício da confissão Templária de Afonso Henriques é sem dúvida o carácter nobre dos seus actos. “A verdade é que o primeiro rei de Portugal, se bem que grande conquistador de terras muçulmanas, foi simultaneamente um inegável protector dos direitos das minorias mouras (…) Talvez a essa tolerância do primeiro rei não seja alheio o facto de ter havido de mulher moura um filho bastardo, o infante Martim Afonso Chichorro (…) A aliança entre Ibn Qasi e Afonso Henriques só pode, assim, entender-se, em todo o seu verdadeiro alcance, com recurso às ideias sufis daquele e aos ideais templários deste. Tal pacto não pode ser levado à conta de mero oportunismo.”


Do lado de Bortuqal, é inegável a importância que a batalha de Ourique teve. Dois anos depois, Afonso Henriques transfere a sua capital para Coimbra, reforçando consideravelmente o seu poder e posicionando-se de forma mais eficaz para a conquista do Sul. Com esta transferência do poder de Guimarães para Coimbra, Afonso Henriques “mata vários coelhos”, ao afastar-se da nobreza do Norte, libertando-se do espartilho que constituía politica e ideologicamente, e estabelecendo novos laços com os moçárabes, granjeando apoios nas áreas conquistadas, selando pactos de amizade com os cavaleiros-vilãos e abrindo a mentalidade vigente na sociedade portuguesa, ao incorporar os valores culturais e científicos do Sul, muito mais avançados e desenvolvidos.


Para além disso, Afonso Henriques percebe que o impasse em que os territórios da zona de fronteira se encontram, com conquistas e derrotas de lado a lado, como por exemplo em Évora e Beja em 1159, exige um novo tipo de guerra, os chamados “fossados” ou incursões rápidas, emboscadas e razias para desgaste e destruição de víveres.


Os “cavaleiros-vilãos”, ou lavradores livres, eram cavaleiros designados pelos concelhos para combater nas hostes do rei, devendo para isso ter posses suficientes para possuir cavalo, armas e ter um determinado rendimento, já que normalmente eram donos de terras. Não recebiam qualquer pagamento, mas ficavam isentos de determinados impostos. Nos concelhos são os homens-bons e nas cortes representam a classe popular, estando assim entre a nobreza e o povo. Muitos dos cavaleiros-vilãos eram moçárabes e estavam muito familiarizados com os “fossados” ou incursões no território inimigo.


É neste contexto que surge em 1162 Giraldo “o Sem Pavor”, também conhecido como “o Campeador Português”.


As origens de Giraldo não são bem conhecidas, mas tudo indica que seria um moçárabe, provavelmente natural de Santarém. O seu conhecimento das terras do Gharb Al-Andalus e das suas cidades, dos costumes e língua Árabe, bem como o facto de ser referenciado pelos cronistas muçulmanos da época, caso do historiador Almóada Ibn Sahib As-Salat, nas suas crónicas inflamadas, como um traidor e um renegado, indiciam que terá crescido no seio da sociedade islâmica.


Giraldo agia por conta própria, com o seu exército de bandoleiros, atacando as praças muçulmanas pela calada da noite, e entregando-as posteriormente a Ibn Arrik, fosse a troco de um pagamento, fosse no âmbito de uma relação de vassalagem.



“O pérfido galego Afonso Henriques, senhor de Coimbra – o maldito de Deus! – conhecia bem a valentia do cão do Giraldo. O pensamento constante deste era tomar à traição as cidades e os castelos, só com a sua gente: ele tinha os muçulmanos da fronteira sob o terror (das suas armas). Este cão (procedia assim): avançava, sem ser apercebido, na noite chuvosa, escura, tenebrosa e, insensível ao vento e à neve, ia contra as cidades (inimigas). Para isso levava escadas de madeira de grande comprimento, de modo que com elas subisse acima das muralhas da cidade que procurava surpreender; e quando a vigia muçulmana dormia, encostava as escadas à muralha e era o primeiro a subir ao castelo. E empolgando a vigia dizia-lhe: – Grita como tens por costume de noite que não há novidade! – E então os seus homens de armas subiam acima dos muros da cidade, davam na sua língua um grito imenso e execrando, penetravam na cidade, matavam quantos encontravam, despojavam-nos, e levavam todos os cativos e presa que estavam nela.”

Outra explicação sobre a origem de Giraldo, não corroborada pelas fontes da época, é a que ele era um nobre cristão caído em desgraça por um crime cometido e exilado em terras islâmicas. “A ele se juntavam todos os proscritos e malfeitores que passavam a integrar a sua mesnada, e como mantinha tréguas com os muçulmanos dedicavam-se a razias em território cristão, sendo por isso apodados de ladrões.” O facto de as forças de Ibn Arrik começarem a actuar próximo da sua área teria como consequência que começasse a lutar pelos cristãos, para obter o seu perdão.


No ano de 1162 um grupo de cavaleiros cristãos ao serviço do rei de Bortuqal, comandados por Fernando Gonçalves, filho do alcaide de Coimbra, efectua uma incursão pelo baixo Alentejo e toma a cidade de Beja durante a noite.


Durante a sua passagem por Santarém terá engrossado as suas hostes com vários cavaleiros-vilãos, e pensa-se que Giraldo estivesse entre eles. A ocupação de Beja ocorre desde o mês de Novembro até Abril do ano seguinte, após o que foi arrasada, incendiada e abandonada.


Em 1165 Giraldo leva a cabo a sua mais notória conquista, a da cidade de Évora, que entrega ao rei de Portugal e lhe terá valido a nomeação de alcaide da cidade. A esta versão “oficial” dos acontecimentos os cronistas Árabes da época apresentam uma outra, bastante mais prática e plausível _ a que Giraldo vendeu a cidade a Ibn Arrik, o que aliás também faria com as suas conquistas posteriores.


Entre 1165 e 1167 seguem-se Trujillo, Cáceres, Montanchez, Lobón, Monsaraz, Moura, Serpa, Alconchel e Juromenha, onde, nesta última, estabelece o seu quartel-general.


No ano de 1169 Giraldo cerca Badajoz e pede ajuda a Afonso Henriques, que conquista a cidade. Ao saber desta situação, Fernando II, o Baboso, rei de Leão, a coberto de uma aliança que mantinha com os mouros de Badajoz, cerca a cidade. No combate que se segue as forças de Afonso Henriques são atacadas em duas frentes. Pelos Leoneses do lado de fora das muralhas e pelos Almóadas que ainda resistiam na alcáçova. Os portugueses são obrigados a retirar. Durante a fuga, o rei de Portugal parte a perna no ferrolho da porta da cidade, perde os sentidos e é transportado pelos seus para um lugar próximo chamado Caia.


“Os cavaleiros de Fernando, o Baboso, foram em sua perseguição e levaram-no cativo e em ferros à presença dele, mas ele deu-lhe a liberdade, a pedido dos cristãos, e permitiu que voltasse à sua capital Coimbra, vencido e humilhado; e nunca mais pode montar a cavalo – Deus o amaldiçoe e lance ao fogo do inferno! – Quanto a Giraldo, o pérfido galego, voltou ao seu lugar forte; e por fim deu Deus a vantagem ao príncipe dos crentes, como se dirá no lugar competente.”


Afonso Henriques fica cativo durante vários meses. “A Portugal regressou um soberano cansado e envelhecido, doente e incapaz. Nunca mais montou a cavalo.” Entrega o comando das operações militares do reino ao seu filho Sancho e a responsabilidade de defesa da fronteira Sul aos Templários.


Fernando II de Leão devolve Badajoz aos Almóadas e recupera as praças da actual Extremadura espanhola. Afinal a grande ameaça da expansão do Reino de Leão para Sul eram os portugueses. “A posse portuguesa de Badajoz e um hipotético senhorio de Geraldo aí implantado significavam para os leoneses o encerramento da sua via natural de expansão. A única disponível.”


Quanto a Giraldo volta para Juromenha e, sem o apoio de Afonso Henriques, inicia uma guerra por conta própria, passando a governar de forma independente o seu território na zona do Guadiana. Obcecado com a conquista de Badajoz, começa a fazer razias insistentes no campo que a circunda, destruindo colheitas, roubando gabo e privando a cidade do necessário abastecimento de víveres. Apoiado por bandos de cavaleiros-vilãos de Santarém, monta um cerco à cidade, impedindo o seu abastecimento pelo exterior.


Para ajudar Badajoz os Almóadas enviam em Maio de 1170 uma caravana de 5.000 burros com mantimentos, protegida por tropas Berberes e Andaluzas. Giraldo monta uma emboscada no Vale de Matamouros. As tropas muçulmanas são desbaratadas e os mantimentos saqueados.


“Chegado este comboio e gente perto de Badajoz, o maldito Giraldo, com a sua gente, formada de moçárabes e moradores de Santarém, saiu-lhes ao encontro e, depois de um combate que durou uma grande parte do dia, desbaratou os muçulmanos, matou e cativou muitos deles e tomou toda a carga que traziam.”


O ano de 1171 é um ano de reveses para Giraldo. Abu Yaqub Yussuf organiza um exército comandado por Abu Saíd Uthman para pacificar o Guadiana. O exército junta-se a tropas de Fernando II de Leão e expulsa os bandoleiros dos arredores de Badajoz, perseguindo-os até Juromenha, que cercam e destroem. O mesmo exército reconquista o castelo de Lobón. Nas duas situações os Almóadas procuram capturar Giraldo, mas este ou consegue fugir ou não se encontra presente. Ibn Sahib As-Salat descreve assim o evento:


“Desse lugar onde se encontrara com o soberano cristão, o Cide Magnífico foi com as suas tropas contra o castelo de Juromenha que cercou e tomou, obrigando Giraldo, infiel e maldito, a fugir dele: depois de que o arrasou.”


No ano seguinte Giraldo participa na sua última acção militar em colaboração com os portugueses, tomando de assalto a cidade de Beja. Do lado português o exército é comandado pelo infante Sancho, dada a invalidez de Afonso Henriques. A cidade é tomada pela calada da noite e mantida em poder dos portugueses durante alguns meses, após o que é destruída e abandonada.



1173 fica marcado por ofensivas de grande vulto por parte dos exércitos Almóadas que, apesar de conseguirem substanciais saques nos territórios cristãos, não alteram os limites das fronteiras existentes. Apesar disso, tanto Castelhanos como Portugueses estabelecem acordos de paz com Sevilha. O acordo de paz de 5 anos celebrado por Afonso Henriques permite aos portugueses organizar o seu território de fronteira, consolidar o povoamento e conceder cartas de foral às principais cidades. Permite também promover a trasladação das relíquias de S. Vicente, de Sagres para Lisboa.

“Suspensa a ofensiva militar, assumidas outras prioridades políticas, não havia mais lugar para Geraldo Sem Pavor. Era necessário garantir o estrito cumprimento do pacto com o Islão (…) Na ausência de projectos bélicos, extinguem-se as fontes de rendimento, a subsistência, os meios de manutenção do seu grupo armado, de um modo de vida. A própria legitimidade enquanto chefe de guerra fica posta em causa. Perdidos os castelos, a alternativa encontra-se da outra banda, na terra dos Infiéis que antes tinha fustigado.”

Giraldo regressa às origens. Com um grupo de companheiros dirige-se a Sevilha, converte-se ao Islão e coloca-se ao serviço dos muçulmanos.

Três anos depois Abu Yaqub Yussuf Al-Mansur regressa a Marraquexe e leva consigo Giraldo e os cerca de 350 bandoleiros que o acompanhavam, a quem confia o governo de Tarudant, capital do Suss. O papel de Giraldo será o de pacificar a tribo dos Sanhaja, rival do poder Almóada.

O desfecho da história de Giraldo conhece várias versões, todas elas com um denominador comum:  a sua execução devido a uma carta que terá escrito a Ibn Arrik propondo-lhe uma operação militar portuguesa no Suss marroquino.

De acordo com o Códice Albaidac, Yussuf enviou Giraldo (Guerando como era conhecido pelos muçulmanos) para a região do Draa, onde foi executado. Escreveu Yussuf ao governador do Draa: “Quando vos enviarmos Guerando e os seus partidários, reparti estes pelas tribos e a ele matai-o porque nós temos carta dele que mostra a sua traição.”

De acordo com o Anónimo de Madrid e Copenhaga, Giraldo foi detido e colocado numa prisão em Sijilmassa, no Tafilalt marroquino. “Pensou ele, todavia, em fugir da prisão e embarcar em algum porto, mas descobriu-se o seu projecto e foi posto à morte, cortando-lhe a cabeça para acabar com os seus manejos.
...”


"....
Há mais de 4000 anos atrás, uma tribo celta funda no alentejo uma pequena aldeia de nome desconhecido. Com planícies férteis a toda a sua volta mostrou-se como o local ideal para se poder prosperar em pleno alentejo. Milénios passam, e no século II a.C, Sertório, o Romano, dá-lhe o nome de Liberalitas Julia. Depois da guerra civil Romana, é conquistada por Décimo Júlio Bruto, tomando o nome de Ebora Cerealis tal não era a fertilidade dos campos circundantes (até a cidade é devotada à deusa da caça e fertilidade). O império romano cai, e em 711 é conquistada pelo mouro Tariq e fica séculos sob jugo àrabe, donde toma o nome de...

Yeborah

E Yeborah continou, mesmo contra a vontade de Afonso, o Conquistador, primeiro rei de Portugal. Em luta pelos domínios alentejanos, Afonso é derrotado em 1169 e para além de perder 6000 de 15000 homens é ele próprio derrubado do cavalo onde depois sofre de uma terrível ferida provocada por uma maça de guerra moura, que lhe esmaga a perna...

Muitos dos ganhos de Afonso foram então perdidos, e apenas não o foram permanentemente por causa de homens como Geraldo Geraldes. Pouco se sabe sobre suas origens. Alguns dizem que era um nobre do norte do País, outros dizem que era apenas um criminoso e arruaceiro moçarabe (cristão que nasceu já sob o jugo árabe), mas a verdade é que nos anos após a derrota de Afonso, Geraldo espalhou o terror pelo Alentejo, salteando, roubando e criando o caos em território Mouro. Talvez devido ao ferimento, ou talvez à "lua de mel" com a sua 3ª mulher, os anos depois de 1969 foram o "eclipse" de D. Afonso.

Diz-se que Geraldo e seus fora da lei construíram um pequeno castelo, escondido entre arvoredo e rocha, e de tal difícil acesso que permanecia desconhecido aos infiéis. Conta a história que Geraldo trepou ele próprio os muros de Évora(Yeborah) a abrigo da noite, mata os guardas dos portões, e introduz o seu bando de arruaceiros em Évora. No próximo dia, executa o governador mouro, saqueia a cidade e envia um quinto do espólio a D. Afonso.

É claro, D. Afonso dá o título de cavaleiro a Geraldo, e Geraldo retribuí. Conquista Évora, Serpa, Alconchel, Montachês, Cáceres, Juromenha e até Badajoz, oferecendo sempre as cidades conquistadas a Afonso, rei algures lá no norte.

É então que acontece o impensável, Geraldo e seu bando vão a Sevilha, em frente do próprio Califa e oferece as suas armas aos mouros. Afonso escreve para todos os territórios Portugueses, ordenando a morte de Geraldo caso volte a por pé em terras lusas, mas, sabendo da forma como Geraldo fazia guerra, envia em segredo uma carta rogando-lhe que fugisse, e oferecendo até reforços militares para salvaguardar o seu regresso.

Geraldo ignora os avisos, e a abrigo do Califa desloca-se até Ceuta, o coração das rotas mercantes e porto de onde todos os mouros faziam a travessia de África até à Península. Aí Geraldo escreve carta para Afonso, para que ataque Ceuta, que ele e seus homens garantem os portões abertos e muito caos entre os defensores. Teria sido uma conquista digna de todos os livros de história, mas o destino quis que esta carta fosse interceptada, e Geraldo e seus homens morreram ali, longe da Portugal. Não há canções a cantar o seu valor, e nenhumas linhas nos livros de história, mas verdade é que todos nós devemos um pouco a Geraldo, o sem
  Pavor. 
..." 


Flor No Arame


 


quarta-feira, maio 02, 2012

The Tobacco Kiosk

"(...)
The man has come out of the Tobacco Kiosk (putting change in his trousers?).
Ah, I know him: he is Esteves without metaphysics.
(The Tobacco Kiosk owner has come to the door.)
As if by a divine instinct, Esteves turned around and saw me.
He waved hello, I greet him "Hello there, Esteves!", and the universe
Reconstructed itself for me, without ideal or hope, and the owner of the Tobacco Kiosk smiled."

terça-feira, maio 01, 2012

O Coelho Pedro

O Coelho Pedro e Outras Histórias

Esta história fala de um coelho chamado Pedro. 
Um dia a mãe de Pedro teve de ir às compras e disse:
- Podem ir para os campos e para a azinhaga. Não vão para a Quinta do Sr. Joaquim, pois foi lá que o vosso Pai sofreu um acidente.
 
Flopsi, Mopsi e Bola-de-Algodão, que eram os irmãos do coelho Pedro, eram muito obedientes e foram apanhar amoras. 
Pedro desobediente foi direito à Quinta. Primeiro comeu alfaces e alguns feijões verdes. Depois sentindo-se um bocado enjoado, foi à procura de salsa. Quando chegou ao fim do canteiro estava lá o Sr. Joaquim, que estava de gatas a plantar couves. Quando viu o coelho Pedro, deu um grande pulo e disse:
 
- Agarra que é ladrão!
 
Pedro muito aterrorizado, começou a correr e escondendo-se por vários sítios.
No meio daquilo tudo, Pedro perdeu os seus sapatinhos e o casaco novinho em folha, com botões de latão. Naquelas aventuras lá conseguiu voltar para casa.
 
Quando chegou a casa estava todo ensopado por ter se escondido num balde cheio de água. Pedro tinha apanhado uma valente constipação.
 
A Mãe meteu-o na cama, fez-lhe um chá de camomila e deu-lhe uma dose de sopa ao jantar. Quando os seus irmãos estavam a jantar leite, pão e amoras.

Para encurtarmos esta história, escrita em fundo laranja, importam-se de ajudar o Sr. Joaquim a apanhar o malvado do Coelho Pedro ?

PS: Bola-de-Algodão identifiquei-o, agora o Flopsi e o Mopsi não chego lá...

Camões ? Não.

Descalça vai para a fonte
Lianor pela verdura;
Vai fermosa e não segura.

A talha leva pedrada,
Pucarinho de feição,
Saia de cor de limão,
Beatilha soqueixada.
Cantando de madrugada
Pisa as flores na verdura
Vai fermosa e não segura.

Leva na mão a rodilha,
Feita da sua toalha;
Com uma sustenta a talha,
Ergue com outra a fraldilha.
Mostra os pés por maravilha
Que a neve deixam escura
Vai fermosa e não segura.

de Francisco Rodrigues Lobo