domingo, junho 17, 2012

MarcanTe Mesmo Escrito Doutra Forma

AOS AMORES
(Sérgio Godinho)

A vida que tudo arrata arrasta os amores também  uns dão à costa, exaustos, outros vão mais além  navegadores só solitários dois a dois  heróis sem nome e até por isso heróis  Desde que o John partiu a Rosinha passa mal  vive na Lonely Street, Heartbreak Hotel, Portugal ainda em si mora a doce mentira do amor tomou-lhe o gosto ao provar-lhe do sabor.  Os amores são facas de dois gumes têm de um lado a paixão, doutro os ciúmes  são desencantos que vivem encantados como velas que ardem por dois lados. Aos amores! No convento as noviças contam as madrugadas e a bela monja escreve cartas arrebatadas “é por virtude tua que tu és o meu vicío por ti eu lanço os ventos ao precipício” O Rui da Casa Pia sabe que sabe amar sopra na franja, maneira de se pentear vai à posta restante para ver quem lhe escreveu foi uma bela monja que nunca conheceu. Aos amores! (desordeiros irresistíveis deleitosos entranhantes verdadeiros evitáveis buliçosos como dantes
bicolores transgressores impostores cantadores). A Marta, quinze anos, vê na televisão um beijo igual ao que ontem deu junto do vulcão faz baby-sitting à espera de parecer mulher quando é que o amor lhe explica o que dela quer? Depois da dor, como conservar a inocência? leia um bom livro, legue as lágrimas à ciência  parta o vidro em caso de necessidade deixe o seu coração ir em liberdade. Aos amores!

sábado, junho 09, 2012

Remember Kona Ba Liu Liu

Quarta-feira, Julho 09, 2003
Memórias da Resistência


Estamos no ano 1997 d. C.

Todo o Timor-Leste está ocupado pelos indonésios. 
Todo?... Não! Uma pequena aldeia de irredutíveis timorenses resiste ainda e sempre ao invasor...

É de noite. Um galo canta, um cão ladra, uma galinha é atropelada, um porco passeia e uma mulher foge do marido.

Zé Ximenes monta guarda à aldeia. De súbito, um barulho suspeito.

Zé Ximenes: Quem vem lá?

Tó Ximenes: Oi, irmão, di'ak ka lae.

Zé Ximenes: Di'ak, o tanas! Qual é a senha?

Tó Ximenes: "Pescoço cortado, bufo calado".

Zé Ximenes: Ao que vens?

Tó Ximenes: Quero alistar-me na Frente de Libertação Popular Timorense, que luta contra a opressão imperialista, o elitismo burguês, a injustiça humana e a violência doméstica.

Zé Ximenes: Informaram-te mal. Nós aqui somos da Frente de Libertação do Povo Timorense, que luta contra a opressão imperialista, o elitismo burguês e a injustiça humana.

Tó Ximenes: Não posso alistar-me?

Zé Ximenes: Sim.

Tó Ximenes: Sim?... Posso alistar-me?

Zé Ximenes: Não.

Tó Ximenes: Não posso alistar-me na Frente de Libertação Popular Timorense?

Zé Ximenes: Sim.

Tó Ximenes: Sim?...

Zé Ximenes: Não.

Tó Ximenes: Não?... Porquê?

Zé Ximenes: Porque, como te disse, somos da Frente de Libertação do Povo Timorense.

Tó Ximenes: Mas a Frente de Libertação do Povo Timorense não defende também a filosofia de unidade dos românticos e o historicismo de Hegel, como formas de desresponsabilização do indivíduo sobre si mesmo?

Zé Ximenes: O historicismo de Hegel não é uma verdade absoluta. Os guerrilheiros da Frente de Libertação Popular Timorense é que defendem isso. Mas nós, os guerrilheiros da Frente de Libertação do Povo Timorense, ascendemos ao plano estético de Kierkegaard e, ainda que vivamos completamente no mundo dos sentidos, estamos expostos aos sentimentos de angústia e de vazio.

Tó Ximenes: Mas Berkeley afirmou que "a minha alma pode ser causa dos meus pensamentos, mas só uma outra vontade ou espírito pode ser causa das ideias que constituem o nosso mundo material".

Zé Ximenes: Sim, é verdade. Mas não te esqueças que Berkeley é estudado, nas montanhas, pelos da Frente de Libertação Popular Timorense, o que condiciona o livre espírito da afirmação. Por isso é que nós, os da Frente de Libertação do Povo Timorense, já superámos, aos fins de tarde, a incapacidade discursiva e estética da "Praça da Alegria" e optámos pelo existencialismo de Jean-Paul Sartre, cuja palavra-chave, como para Kierkegaard, é "existência", um termo que não significa o mesmo que "existir". Portanto é que Sartre diz que o ser humano se sente estranho num mundo privado de sentido. Mas claro que, quando descreve a alienação do homem, aceita ideias centrais de Hegel e de Marx. Mas, como já te disse, Hegel é com os da Frente de Libertação Popular Timorense e nós somos da Frente de Libertação do Povo Timorense... Nada de confusões!...

Da noite estrelada sobrevem um longo silêncio...

Um galo canta, um cão ladra, uma galinha é atropelada, um porco passeia e uma mulher foge do marido...

Resistentemente vosso, 
Tonho do Ramelau

sexta-feira, junho 08, 2012

Que Saudades ...!

“Era uma vez uma longa coluna de jipes brancos, recentemente importados, com a sigla da ONU ou do governo nas portas. Timorenses ao volante, dois carros de escolta de militares e polícias a abrir o caminho, dezenas de individualidades internacionais e timorenses espalhadas pelos bancos de trás. Segue a compasso para uma qualquer cerimónia, onde já estão os párocos para celebrar a Eucaristia que abre todas as reuniões.

É a época das chuvas e com atrasos na implementação dos projectos de recuperação das estradas, a viagem é atribulada. Para-se regularmente para um buraco que se abriu numa curva escondida ou para atravessar um riacho pelo leito, agora que a madeira, as cordas ou o ferro da ponte temporária foram ‘saqueadas’ e vendidas ao desbarato para um exportador sem licença.

Nas pastas, as individualidades levam os programas, os protocolos, as análises, os relatórios, os estudos, as avaliações, as conclusões das comissões de acompanhamento, das comissões especiais, dos departamentos de análise, dos consultores pagos a preço de ouro, as opiniões de todas as facções timorenses, as considerações do governo, da presidência, da sociedade civil.

O edifício onde decorre a cerimónia ainda não foi reconstruído. Mas isso pouco importa já que a destruição ainda é tão corriqueira que na pressa de se viajar de um gabinete para outro, quase nem se nota. À chegada o som das danças e a distribuição dos ‘tais’ que as ‘individualidades’ recebem quase diariamente, soa cada vez mais a festa oca. Depois de 15 minutos a ouvir os agradecimentos às individualidades presentes, o público dobra-se para a frente e espera pela primeira palavra, pelo som da língua que determinará que percentagem dos presentes perceberá o discurso.

Os ‘menos iguais’ que não fazem discursos, contabilizam quem falou em que língua – um para o português, outro para o inglês. Está 4-3. Não, está 4-5. Apesar de uma mesa ter sido preparada com bolos e café de Timor previamente açucarado, a maioria dos passageiros come apenas para ‘não parecer mal’. Muitos almoçaram a correr no escritório – nem sequer houve tempo para parar 10 minutos –, outros sentaram-se calmamente num das dezenas de restaurantes da capital timorense onde 10 dólares americanos compram três bicas e duas águas.

A cerimónia é importante. Trata-se da nomeação de um timorense para chefiar uma nova estrutura que será “crucial, essencial e determinante” para o processo de transição. Nas mentes dos presentes que já viram dezenas de cerimónias como esta já se pensa na falta de recursos, quando começam os programas de formação, quem irá ter paciência para permitir que a instituição cresça e quem será o primeiro a tentar ultrapassá-la, tirando-lhe legitimidade, para concluir, o mais rapidamente possível, um qualquer processo que está a ser ‘atrasado’ pela dita instituição.

Seja como for, as considerações terão que ficar para depois. Hoje ainda há 38 reuniões e 24 cerimónias. O jantar é no City e sexta-feira vai-se a Bali. A claustrofobia e a insularidade aguentam-se dois meses, máximo.”

Cumprimentos
Kona ba, liu liu

quarta-feira, junho 06, 2012

O REGRESSO DOS DEUSES


Ricardo Reis
Os deuses não morreram: o que morreu foi a nossa visão deles. Não se foram: deixámos de os ver. Ou fechámos os olhos, ou entre eles e nós uma névoa qualquer se entremeteu. Subsistem, vivem como viveram, com a mesma divindade e a mesma calma.
Falamos muito, e com hipocrisia, no sentimento que temos da beleza antiga, e das civilizações mães da nossa, e que foram pagãs. Mas nós não temos a alma grega nem a alma romana. Amamo-las de pertil, incorporeamente. Nada da alma antiga está em nós ou connosco. A nossa ânsia de beleza clássica é toda cristã na sua fúria de perfeição, no seu desassossego.
O sentimento que conduzimos, para amá-las, até ao soclo das está tuas helénicas, é um insulto a elas. Amamos a beleza demasiadamente: os gregos não a amaram assim. Para o seu sentimento passava a calma da lucidez com que viam. Ver muito lucidamente prejudica o sentir demasiado. E os gregos viam muito lucidamente. Por isso pouco sentiam. Daí a sua perfeita execução da obra de arte. Para executar a obra de arte com perfeita perfeição é preciso não sentir excessivamente a beleza que se vai esculpir. A arte grega era toda de equilíbrio e (...). E era a arte de quem via sabendo ver.
Nós levamos para a sensação de uma estátua o sentimento, translato, que o cristianismo nos ensinou a levar para a adoração de Cristo na cruz, da perfeição moral, do ascético e do casto. Não é deslocando a direcção do nosso olhar iludido que conseguimos torná-lo lúcido e calmo. É criando em nós um novo modo de olhar e de sentir.
A mais antiga tradição da nossa civilização é a tradição grega. Devemos reatá-la. Temos que nos criar uma alma grega, para podermos continuar a obra da Grécia. Tudo posterior à Grécia tem sido um erro e um desvio. As nossas instituições políticas sofrem do colectivismo romano e do sentimentalismo Cristão. Misturámos à dureza administrativa de Roma a moleza humanitária dos sermões de Cristo. E uma prova de quão longe andamos da alma grega, como ela era verdadeiramente.
Só a ciência é que evolui. Nada mais evolui. Nem política, nem artes, nem costumes comportam evolução. Podem comportar diferenças. Evolução não comportam. Só o que é adquirir conhecimentos evolui porque evoluir é aumentar.
Não há arte senão a arte grega. Não há beleza senão como a Grécia a criou. Reconhecemos isto — muitos de nós — obscuramente. Na realidade, a nossa alma anda tão longe disso que todos os dias traímos a uma linguagem mãe, a (...) Grécia Antiga.
O nosso romanismo secou-nos, e o nosso cristianismo apodreceu-nos. Ficámos secos e pôr isso moles.
Apareceu-nos uma grande ocasião para reconstituirmos, em ponto grandioso, a civilização grega. Foi quando as descobertas apontaram à nossa civilização o caminho único [?] — a escravização das raças negras, levando à aristocratização integral das raças brancas. O nosso cristanianismo atravessou-se; falhámos. Mas o nosso romanismo deixou-nos ir dominando essa África que não utilizámos para a civilização para através de dominá-las não nos aristocratizarmos; utilizámo-las para o nosso comércio apenas. Podendo ser hoje uma raça superior e culta, toda aristocrata, somos uma crista reles de escravos reles e reles patrões de escravos. Não sabemos mandar nem obedecer; não sabemos querer ou pensar. O verme cristão adoece tudo dentro de nós. Já nada nos modifica nem nos faz erguer.
As nossas vidas são cheias de absurdos e de abdicações. Não temos ousadia em nada. Quando julgamos ousar, é que temos febre. Ousamos febrilmente, com demasiada noção do risco e demasiada embriaguez do perigo. Somos incompletos e infecundos. Nascemos escravos. O nosso humanitarismo é uma grilheta que nos pusemos. Não sabemos mandar. Não sabemos sentir, não sabemos sequer ver. Há mais de vinte séculos que seguimos um caminho errado, e nem esse seguimos persistentemente.
Já não sabemos regressar ao que nunca devíamos ter deixado. O nosso helenismo nada adivinha ou percebe da Grécia Antiga. O nosso amor ao império romano é uma doença dos mais doentes entre nós. As próprias perversões e crimes dos impérios idos são incompreendidos por nós. Julgamos que são como os nossos. Amamos na antiguidade o que ela tem das nossas consciências, mas ela nada tem da nossa consciência. A nossa ignorância é profundíssima e a nossa (...).
Não progredimos nem (...). Nada temos que a Antiguidade não tinha, e perdemos muito. Nada ganhámos de essencial. Salvo o que a ciência acumulou — e não podia deixar de acumular — não progredimos em nada. Na metafísica não progredimos, na arte não progredimos e em felicidade não progredimos. Sabemos o mesmo que sabiam os gregos do espírito essencial do universo. Nenhuma beleza criámos que substituísse a valer a beleza que os gregos criaram. Nenhum sistema de administrar e reger inventámos que produza os homens e equilibre os estados como o sistema que os gregos tinham. O progresso seria termos progredido nessas coisas. O resto passou-se à superfície da nossa vida e nada nos dá que valha a pena ter-nos dado.
Fazei a vós próprios esta pergunta — desejaríeis vós viver agora ou na Grécia Antiga? Sei o que me responderíeis, se sois lúcidos e sonhadores. Para que ter progredido para querer antes o passado longínquo do que o presente?
Sim, nós não progredimos senão na ciência. E com isso o que progredimos deveras? Progredimos, em verdade, nos nossos conhecimentos?
Não progredimos: nós não sabemos nada mais, essencialmente, sobre o silencioso centro das coisas. Valeu então o progredirmos porque os progressos da ciência nos são úteis? Úteis como, e úteis em quê? Porque aumentaram o nosso conforto, a nossa felicidade? Julgais com verdadeira sinceridade que somos mais felizes do que os gregos, que a nossa vida tem mais conforto e alegria e beleza do que a deles? Não o julgais, bem o sabemos. Em que progredimos portanto?
Transportamo-nos mais depressa dum ponto ao outro. Trocamos palavras mais rapidamente através da distância. Vestem-nos tecidos vindos de muito mais longe. Mas nem um grão mais de felicidade veio ter connosco. Nem uma gota mais de ciência refresca a nossa fronte. Se olharmos para o fundo do que sabemos, do que temos, do que somos, vemos que, perante o mundo e a vida, a nossa visão não é mais lúcida nem mais calma, que não somos felizes, que o mundo da morte pesa sobre nós como decreto, que os laços da sensualidade riscam-nos o corpo como outrora.
Porque este aumento de conhecimento, este acréscimo de transposições podia ao menos ter aumentado o valor do indivíduo, ter feito cada um per si, mais valor do que nos gregos era. Se houve mudança, foi para pior. Os nossos dominadores não podem dormir, tão complexa é a vida, em tanta coisa tropeçam, mesmo dentro de si próprios. Os nossos artistas criam arte ínfima; há muitos mais do que havia antigamente, mas que obras criaram eles que se igualem às antigas? Tudo está confuso e perplexo em nossa roda.
Somos mais complexos, não porque tenhamos mais dentro de nós, porque o eterno pouco que temos, têmo-lo confusamente. Confusos é tudo o que somos. Perdemos a visão lúcida do mundo e a interior visão lúcida de nós mesmos. Enfebrecemos e envelhecemos. O que há de novo em nós, sobre o que a Grécia tinha, é a velhice. É a velhice, com a sua maior experiência, e o seu menor poder em utilizá-la; a velhice confusa e saudosa; a velhice faladora, analisadora de si, das suas recordações, dos seus sentimentos, como compensação de não poder mexer-se bem, de não poder agir nitidamente.
Não nos libertámos nada, de modo nenhum. O nosso medo fez-nos continuar a criar novos deuses, a que a nossa sobreposição de valores dá outros nomes do que deuses. A tirania absurda dos nomes de rei e de nobre não tirou as mãos de cima das nossas almas. Continuamos escravos de preconceitos, medrosos dos ridículos, incapazes de criar novos métodos e novas visões. No fundo tudo é o mesmo salvo, que a tristeza dói mais e a incerteza cresce. Porque, no âmago de nós, qualquer coisa como uma consciência nos acusa de nada termos feito, de nada termos substituído ao que perdemos. Gememos alto, como velhos que padecem. E em gemidos, e imitações instantâneas, e começos abandonados de acção, os nossos pensamentos se cansam, os nossos ideais se evolam, a nossa vida se assombra e se relaxa.
Os que entre nós julgam que se revoltam, apenas põem a canga ao contrário. Uns dizem-se anarquistas e pesa-lhes nos pés a grilheta do sentimento humanitário que os cristãos trouxeram. Outros gritam contra o rei, outros contra os ricos, outros contra (...). Mas o que grita contra os reis é por causa do poder que os reis têm, o que grita contra os ricos é por (...) A ânsia de ser livre e de ser escravo muda-os como um (...).
As leis, mesmo superficiais, das coisas continuam desconhecidas. Qual de nós talhará hoje com mais lógica, com mais utilidade, com mais segurança, uma regra de vida para si ou para os outros? Todos sabem o que não querem, sem saber o que querem. E mesmo o que não querem, nem sabem porque o não querem, nem (...). Os nossos actos e os nossos pensamentos deixaram de ser simples; mas não passaram a ser complexos. Passaram a ser confusos, a ser perplexos, ficaram esboços de gestos, pensamentos abandonados. Ninguém tem energia para seguir uma ideia ou ir para um combate. Os nossos propósitos viram como cataventos, As nossas ideias passam como folhas secas. Os nossos próprios vícios são tristes e frágeis. Não nascemos de um excesso quente de vida mas de uma febre, de um desassossego que sabe que a vida não basta, mas nem concebe o que lhe bastaria.
Creio nos Deuses como numa verdade e numa salvação. A sua presença adoça e simplifica. Nada lógico me leva a preferir-lhes qualquer outro deus, mais antigo ou mais recente. Ver as fontes e os bosques habitados realmente por entes reais de outra espécie não me parece mais absurdo do que acreditar que tudo isto derivou do nada, que Deus é a essência disto tudo. E eu tive a felicidade de tal nascer que naturalmente sinto a presença de entes reais nos bosques e nas fontes, que, sem preconceitos clássicos, Neptuno é para mim uma personalidade real, Vénus um ente verdadeiro e Júpiter o pai terrível e existente dos calmos deuses todos.
Nada me interpreta a natureza melhor, nem me faz amá-la mais. A presença de uma nereida alegra-me quando me encontro ao lado de uma fonte. E é grata companhia a dos silêncios quando atravesso, humanamente sozinho, o sossego sóbrio dos bosques frescos.
Os amores dos deuses, a sua humanidade afastada não me dói nem me repugna. Repugna-me a morte de um Deus, Cristo na cruz, vítima de seu próprio pai numa religião que pretende ser enternecida.

Ai, Margarida


Álvaro de Campos
Ai, Margarida,
Se eu te desse a minha vida,
Que farias tu com ela?
— Tirava os brincos do prego,
Casava c'um homem cego
E ia morar para a Estrela.
Mas, Margarida,
Se eu te desse a minha vida,
Que diria tua mãe?
— (Ela conhece-me a fundo.)
Que há muito parvo no mundo,
E que eras parvo também.
E, Margarida,
Se eu te desse a minha vida
No sentido de morrer?
— Eu iria ao teu enterro,
Mas achava que era um erro
Querer amar sem viver.
Mas, Margarida,
Se este dar-te a minha vida
Não fosse senão poesia?
— Então, filho, nada feito.
Fica tudo sem efeito.
Nesta casa não se fia.
Comunicado pelo Engenheiro Naval
       Sr. Álvaro de Campos em estado
                de inconsciência
                         alcoólica.

AVE-MARIA


Fernando Pessoa


AVE-MARIA
                        À minha mãe
Ave Maria, tão pura,
Virgem nunca maculada
Ouvide a prece tirada
No meu peito da amargura.
Vós que sois cheia de graça
Escutai minha oração,
Conduzi-me pela mão
Por esta vida que passa.
O Senhor, que é vosso filho
Que seja sempre connosco,
Assim como é convosco
Eternamente o seu brilho.
Bendita sois vós, Maria,
Entre as mulheres da terra
E voss'alma só encerra
Doce imagem d'alegria.
Mais radiante do que a luz
E bendito, oh Santa Mãe
É o fruto que provém
Do vosso ventre, Jesus!
Ditosa Santa Maria,
Vós que sois a Mãe de Deus
E que morais lá nos céus
Orai por nós cada dia.
Rogai por nós, pecadores,
Ao vosso filho, Jesus,
Que por nós morreu na cruz
E que sofreu tantas dores.
Rogai, agora, oh mãe querida
(quando quiser a sorte)
Na hora da nossa morte
Quando nos fugir a vida.
Avé Maria, tão pura,
Virgem nunca maculada,
Ouvide a prece tirada
No meu peito da amargura.
12-4-1902

[Mandamentos]


Fernando Pessoa
1. Não tenhas opiniões firmes, nem creias demasiadamente no valor de tuas opiniões.
2. Sê tolerante, porque não tens a certeza de nada.
3. Não julgues ninguém, porque não vês os motivos, mas só os actos...
4. Espera o melhor e prepara-te para o pior.
5. Não mates nem estragues, porque, como não sabes o que é a vida, excepto que é um mistério, não sabes que fazes matando ou estragando, nem que forças desencadeias sobre ti mesmo se estragares ou matares.
6. Não queiras reformar nada, porque, como não sabes a que leis as coisas obedecem, não sabes se as leis naturais estão de acordo, ou com a justiça, ou, pelo menos, com a nossa ideia de justiça.
7. Faz por agir como os outros e pensar diferentemente deles. Não cuides que há relação entre agir e pensar. Há oposição. Os maiores homens de acção têm sido perfeitos animais na inteligência. Os mais ousados pensadores têm sido incapazes de um gesto ousado ou de um passo fora do passeio.

A mulher virgem, em geral, não ama o homem com quem casa


Fernando Pessoa
A mulher virgem, em geral, não ama o homem com quem casa, embora frequentemente de tal se persuada: gosta d'ele, e esse gostar, que é uma amizade, provocada em geral pelo amor do homem por ela, somando-se ao instinto sexual insatisfeito, ou seja à atracção sexual abstracta, forma um composto semi-emotivo que dá a ilusão do amor, (...) as suas emoções — aquela parte da sexualidade que não é só sexual — ficam insatisfeitas. Nuns casos o instinto maternal, exercendo-se no aparecimento dos filhos, ou satisfaz essas emoções ou as esbate e acalma; noutros casos, a vida imaginativa consegue, em maior ou menor grau, satisfazê-las. Há casos, porém, em que ficam insatisfeitas e então só o fundo moral seguro e a [...] moral forte, ou o senso [...] e medroso da respeitabilidade social, podem — quando podem, e isso depende muito do temperamento que está por trás d'essas emoções — resistir ao aparecimento, quando e se ele se der, do homem em quem essas emoções se possam concentrar. Em todo o caso, e para bem moral dos resultados, o melhor é o homem não aparecer.
Só o maior dos sensos morais e da honestidade do dever pode evitar um desastre.
E a mulher que ama nestas condições, ama louca e perdidamente, e porque a fome das emoções é maior e mais terrível do que a da sexualidade. Esta pode ser satisfeita — mal, mas em todo o caso satisfeita, pela própria masturbação. As emoções, embora em certo grau o possam também ser pela imaginação — não o podem ser, relativamente, tanto. A satisfação do instinto pela masturbação é apenas incompleta; a das emoções pela imaginação é fictícia.
A paixão é um pânico das emoções, e como o pânico — que nisto se distingue do medo — estilhaça a inibição, desorienta o espírito, vira o indivíduo contra as suas próprias aquisições mentais superiores, e muitas vezes o conduz a fazer o que mal sabe que faz, ou que a própria paixão se fosse menor, como o pânico se não fosse mais que medo, o levaria ou aconselharia a não fazer.

[Carta a Ophélia Queiroz - 28 Maio 1920]


Fernando Pessoa
Segunda carta
Querido Bebezinho do Ibis:
A carta, que te escrevi ainda agora e que já deitei no correio, não contém, como no fim dela te disse, tudo quanto eu te queria escrever. O caso é que, quando eu ia quase no fim (felizmente não foi antes) apareceu o primo no Café Arcada, onde eu estava escrevendo, e onde estou, também, escrevendo esta. Tive que interromper a carta, e fiquei irritado — não com ele, é claro, que estava longe de ter culpa, até tinha ficado de aparecer a essa hora (seis), mas com o Destino, que combinara assim tão mal as coisas.
Como nessa carta te digo, eu tinha que estar de volta na Baixa às 9 horas. Pois, com a demora do meu primo a falar comigo, dentro em pouco era um quarto para as sete; ele saiu, acabei a tua carta à pressa, deitei-a no correio... e lembrei-me nessa altura que tinha que ir fazer a barba.
Resultado: não tenho tempo para ir a casa jantar e estar de volta na Baixa às 9 horas. Por isso voltei ao Arcada para comer qualquer coisa; é do «Arcada» que te estou a escrever.
Bebezinho meu: o que eu te queria dizer na outra carta, e não tive tempo, mas que te digo nesta, é isto, e peço que aprendas bem a lição, e, se me tens amor, que escutes este conselho:
O Destino é uma espécie de pessoa, e deixa de nos ralar se mostrarmos que nos não importamos com o que ele nos faz. Por isso tu deves ter a força de vontade de só pensar isto : gosto do Fernando, não há mais nada .
O rapaz, e o que ele diz, trata com desprezo, mas com desprezo autêntico e verdadeiro: não penses nele. Achas difícil? Não admira, porque és muito nova; mas não serás capaz, pedindo-te eu , de concentrar o teu espírito numa atitude de indiferença por tudo quanto não seja o teu Nininho? Se não puderes fazer isto, não sabes amar ainda.
Bem sei: apoquentam-te por todos os lados, ralam-te, cansam-te. Toma conta de ti mesma (percebes?) e não olhes a nada disso.
Gostas de mim, do Ibis, do Nininho?
Eu sou muito nervoso, mas tenho já o espírito educado ao ponto de receber com sangue frio o pior e o mais complicado. Se eu fosse dez anos — que digo eu? basta dois anos — mais novo, ficava todo atrapalhado com o que me contaste.
Fiquei apoquentado por tua causa, mas por mim não imaginas como estou calmo, tranquilo, em ordem dentro da minha cabeça. E gosto imenso de ti, Bebé, acredita; não quer isto dizer que eu te não ame; quer dizer que, nisto tudo, ligo só importância a ti e a mim, não me importando o resto para nada.
Tu és capaz de me fazer um favor? É procurares estar calma, ter desprezo, ter indiferença. Tu estás dando ao rapaz um prazer imenso. Olha: de mim não tira ele prazer nenhum...
Amanhã hei-de ver-te. O natural é que vá ter a Belém durante a tua hora de almoço — um pouco do meio-dia em diante. Mas procurarei estar em Santos à hora da tua ida, para combinar contigo.
Não imaginas. Tenho positivamente uma sensação de alegria. É que me estorvam; e eu não desgosto que me estorvem, para eu remover os obstáculos.
Limpa as lágrimas, Bebé mau! Tens hoje do teu lado o meu velho amigo Álvaro de Campos, que em geral tem sido só contra ti. Alegra-te! Só vale a pena o que se consegue com esforço.
Mil beijinhos, beijos e chi-corações do teu, sempre teu
Fernando
28/5/1920
P.S. Pode ser que, por quaisquer razão contra a minha intenção, eu não possa aparecer de manhã. Nesse caso espera-me em Belém logo depois do meio-dia . Espreita o meu aparecimento e sobe para me falar. Não é natural que teu pai esteja, não é verdade? — Quanto ao rapaz, pode estar à vontade, que isso não tem importância.
F.
28-5-1920

COMO ORGANIZAR PORTUGAL


Fernando Pessoa
COMO ORGANIZAR PORTUGAL
Quando a guerra findou — como se a guerra alguma vez findasse, ou houvesse neste mundo senão guerra! —, quando, enfim, esta guerra de há pouco findou, passou a ser assunto de primeiro plano aquilo, já bastante discutido, a que mais vulgarmente se chamou “os problemas da reconstrução”. A frase é inglesa, e, como participa da nebulosidade mental que caracteriza os ingleses, susceptível de ser mal interpretada. Se o termo diz respeito ao mero restabelecimento das vias normais da vida pacífica, tem cabimento etimológico; se diz respeito à reconstituição das indústrias estagnadas, à reedificação das cidades destruídas, tem cabimento também. A frase porém tem um sentido vulgar arbitrariamente mais lato: quando se diz “reconstruir”, quer, em geral, dizer-se simplesmente “organizar”. E esta ideia de organização não tem origem simplesmente na necessidade de preencher lacunas, que a guerra abrisse, ou de reparar estragos, que os exércitos fizessem. Tem uma, de certo modo, mais vergonhosa origem.
Durante quatro anos suportaram os aliados embates sobre embates dos Alemães. Aguentaram-os conforme os Deuses foram servidos, ora bem, ora mal, ora confiando, ora descrendo, até que o mais velho dos Deuses, o Tempo, lhes concedeu a vitória. E durante esses quatro anos, e através da dura experiência que eles foram, aprenderam — com que proveito, ainda se não sabe — pelo menos uma coisa. Repararam que a força da Alemanha provinha, não da valentia notável dos componentes individuais dos seus exércitos, não da perícia especial dos seus chefes militares, mas de ser na guerra o que era na paz, e na disciplina particular da vida guerreira o que era no geral de toda a sua vida — uma nação plenamente organizada, coerindo dinamicamente em virtude de uma aplicação inteligente e estudada dos princípios de organização. A inveja é mãe do estímulo, como a curiosidade o é da ciência; da inveja da organização alemã nasceu o falar-se tanto em organizar tanta coisa.
Se é fácil, porém, falar em organizar, menos fácil é, ao que parece, organizar deveras, ou, pelo menos indicar como se organize. Nem se pode conceber época mais inapta para tomar sobre si o encargo intelectual que a palavra “organização” comporta. Os homens do nosso tempo, destituídos por completo do senso das realidades, extraviados por hipotéticos “direitos”, “justiças” e “liberdades” da noção científica das coisas, não logram, nem mesmo em teoria, visionar a construção da prática. Um século, ou mais, de “princípios de 89”, um século, ou mais, de “liberdade, igualdade, fraternidade” tornou o geral dos europeus, salvo os alemães, obtuso para aquelas noções concretas, com as quais seguramente se constrói o futuro.
E um estudo, como este, da organização, devia, para ser completo, começar pela eliminação crítica de quanto lixo a loucura dos séculos mortos, os idealismos fustes do século passado deixaram nas almas; por uma análise — fácil, afinal — que mostrasse como desde a Revolução Francesa o espírito humano, no que político, retrogradou, e como as ideias de liberdade, de igualdade e de fraternidade, como as têm entendido desde Babeuf aos bolchevistas, não são mais que restos laicos da ideologia cristã, drogas de reclame para uso das plebes por educar.
Isto, porém, estorvaria o intuito directo deste estudo, que é o de determinar em que princípios deve ficar assente qualquer teoria da organização social e, em especial, da organização social portuguesa.
Suponhamos que queremos organizar a sociedade portuguesa; como a organizaremos?
É evidente que o problema da organização se divide em três partes, uma das quais compete ao teórico, e as outras duas ao prático. Temos, primeiro, a determinação do plano ou norma, segundo o qual se vai organizar; temos, depois, a colocação, nos lugares que lhes competem, dos homens competentes que hão-de efectivar, na prática, essa organização; temos, por último, a coordenação dinâmica dos esforços desses homens, a maneira especial de pôr a organização em marcha. A primeira parte é de pura teoria, a segunda e a terceira pertencem já à prática. Para a primeira não há senão regras; para a segunda e a terceira não há outra regra senão a realidade, nem outra norma, na segunda parte, senão a intuição na escolha dos homens, e, na terceira, o espírito prático de coordenação de esforços.
Não nos interessa — escusado é dizê-lo — senão aquela parte que é teoria, e é dessa que vamos tratar. As outras duas partes, que competem aos práticos, não nos interessam porque não podem ser objecto de estudo, nem para elas há regras que se possam dar. Antes, porém, de entrarmos na teoria, propriamente dita, vejamos bem de que espécie de teoria é que se trata.
E que há duas espécies de teorias — a teoria puramente científica e interpretativa, e a teoria preliminar da acção. A cada uma delas corresponde um modo determinado de análise, uma atitude especial do espírito. A análise de um problema para o compreender não é igual à análise do mesmo problema para aplicar à prática a sua solução. Compreender envolve esmiuçar o mais possível; resolver envolve simplificar: há, portanto, oposição entre as atitudes do espírito em um e outro caso. Quem estuda um problema para o compreender não tem diante do seu espírito senão esse problema; quem estuda um problema para o resolver e aplicar tem diante do seu espírito duas coisas — o problema e a realidade a que há-de ser aplicada a sua solução. No primeiro caso, a atenção tem que concentrar-se apenas sobre o problema; no segundo, tem que estudar qual a média entre o problema e a realidade. Não é só que o escrúpulo normalmente excessivo da compreensão entibia, de ordinário, a vontade; isso é com o teorista e não com a teoria, e só lhe pode fazer realmente mal se ele pretende ser, além de planeador, o chefe prático da execução do seu plano. É que toda a realização é a diagonal do paralelogramo de forças, cujos lados são a ideia a aplicar e a realidade a que ela se aplica.
Quanto mais concretamente plausível seja a teoria que se tenta aplicar, mais facilmente será aplicada; ou, em outras palavras, e para me servir da imagem justa que empreguei, quanto mais pequeno for o ângulo entre a linha-força da teoria e a linha-força da realidade, menor será o desvio de ambas, da diagonal da realização.
Esta é a parte que compete à teoria. A intensidade da força aplicada, que graficamente se representa pelo comprimento da linha, pertence já à prática. Dela não trataremos nem podemos tratar.
Aplique-se, agora, esta doutrina. Tratando de organizar, tratamos de organizar qualquer coisa; determinemos primeiro que coisa é essa, para que, desde o princípio, possamos limitar a nossa investigação a um ponto concreto. Não se trata — é bem de ver — de uma teoria da organização abstracta, da organização atitude mental que tanto pode ser aplicada a um poema como a um estado, a um tratado de filosofia como a uma empresa de comércio. O que procuramos organizar é a sociedade portuguesa; é sobre esse ponto, e sobre esse apenas, que temos que fazer incidir a nossa investigação.
O estudo desse ponto, porém, desdobra-se em três partes. Para a análise, a sociedade portuguesa é, primeiro, sociedade, e depois sociedade portuguesa; temos, portanto, que investigar, primeiro, em que princípios deve assentar a organização de qual-
quer sociedade, e, depois, por que aplicação especial desses princípios deve ser organizada a sociedade portuguesa. São estas as duas primeiras partes, mas como nelas apenas se assentam princípios, uma terceira parte, derivada e complementar daquelas, será o estudo dos processos a adoptar para realizar a organização, cujos princípios estabeleçam.
Na investigação dos princípios em que deve assentar a organização de qualquer sociedade tropeçamos, logo de começo, num obstáculo — a ausência de ponto de apoio científico para tal determinação.
Tomando a imagem da química, podemos dizer que a ciência chamada sociologia está ainda no seu período alquímico. De forte e seguro, em matéria sociológica ou política, pouco temos
— nós, humanidade em geral—a não ser a Política de Aristóteles, fruto de toda a experiência política da Grécia antiga, e O Príncipe, de Machiavelli, fruto de toda a experiência política da Renascença. Um como outro, habitantes de pequenos estados, onde as engrenagens da política estavam patentes, podiam colher ensinamentos que São vedados aos súbditos de grandes nações, onde a profusão de elementos acidentais e heterogéneos obscurece as grandes linhas, as linhas simples, da realidade substancial. Desde a Revolução Francesa, sobretudo, se perdeu por completo o senso das realidades sociais, em proveito de teorias abstractas, de sentimentalismos vagos, de imperialismos místicos e mistos. E de então para cá, na era dos grandes estados e do internacionalismo crescente, que a progressiva facilidade de comunicações e de relações instaurou, ficou sendo completa a obnubilação do senso político. Foi em meios como estes que nasceram as modernas teorias sociológicas. Não admira que a nada cheguem e de nada sirvam, e que se possa dizer que estamos ante elas como os velhos diplomatas recomendavam que se estivesse, para aprender, ante o célebre governo da Sicília: esse governo era uma perfeita lição de administração, pois bastava ver o que ele fazia e fazer o contrário, para se acertar.
Privados, assim, de apoio científico — pois a própria Política de Aristóteles é mais uma colecção de apontamentos admiráveis do que uma obra cientificamente coerente — não temos remédio senão entrar sozinhos, e sem mais recursos que a própria lógica, na investigação do problema. Não vamos, porém, investigar quais as leis fundamentais e eternas, pelas quais as sociedades se regem; tal empresa seria, simplesmente, a de escrever um tratado de sociologia. O nosso fim, como já se explicou, é apenas ver o problema em relação à prática; basta, portanto, no caso presente, que descubramos qual a lei, o princípio que serve de esteio às sociedades; se for na verdade fundamental, tal qual é nos servirá para o nosso fim prático.
Limitemos, ainda mais, o problema. escusamos de procurar o princípio fundamental de todas as espécies de sociedades; basta que procuremos o que serve de base às sociedades civilizadas ou progressivas. Mais do que isto não é preciso, pois a uma sociedade civilizada e progressiva (embora atrasada e perturbada) se hão-de aplicar, por fim, as nossas conclusões. Vemo-nos, assim, livres do que Summer Maine disse ser um problema capital da sociologia — qual a distinção fundamental entre as sociedades susceptíveis e as insusceptíveis de progressos?
Ora, se considerarmos uma sociedade progressiva, a própria designação está dizendo que o seu princípio fundamental se liga com o progresso. Escusamos de definir progresso; e assim nos vemos livres de um outro dos pesadelos da sociologia. Para o nosso caso, basta determinar a dinâmica do progresso, sem examinar o conteúdo lógico do termo.
O progresso, seja o que for, e quer se considere bom quer mau, é, com certeza, uma alteração, e uma alteração envolve o abandono de certos hábitos, de certos costumes, de certas normas e atitudes que, por serem velhas, se tornaram queridas, e, por serem usuais, se tornaram necessárias. A alteração chamada progresso incide, portanto, quando não sobre os instintos, pelos menos sobre os hábitos dos indivíduos, ou da maioria dos indivíduos, que compõem uma sociedade. Ora o homem, como todos os animais, é essencialmente uma criatura de instintos e de hábitos; a ciência psicológica terá descoberto pouco, mas, isso, pelo menos, descobriu. A essência do progresso é, portanto, uma coisa que choca os homens no que têm de mais humano; a atitude instintiva da maioria dos homens perante o progresso é, portanto, a resistência a ele. a resistência é grande, patente e forte, se a alteração que se tenta fazer é notável e fere ou muitos hábitos ou hábitos muito arreigados; de ordinário, e na normalidade do progresso, como este é lento, a resistência é fraca, e opera como freio e não como obstáculo.
Temos, pois, que, nas sociedades progressivas, o que há de fundamental se resume em duas forças — uma que tende a fazer progredir, outra que tende a resistir ao progresso.
Ora a ciência constata que tudo quanto vive, vive em virtude do equilíbrio de duas forças — uma força de integração e uma força de desintegração. A vitalidade de qualquer ser está na razão directa do equilíbrio destas duas forças; com elas essa vitalidade diminui.
A sociedade, como é composta de entes vivos, é, evidentemente, regida por esta mesma lei; e isto embora não se queira ter a sociedade por um organismo. Basta que seja composta de entes vivos para que lhe seja aplicada a lei fundamental da vida. Nós constatámos, nas sociedades progressivas, a existência, precisamente, de duas forças. Aplicando a este caso especial aquela lei geral, podemos já concluir que no equilíbrio das forças de progresso e de resistência ao progresso reside a vitalidade de uma nação.
É quanto precisávamos saber de fundamental. Resta agora que formemos uma ideia clara dos fenómenos que se dão em qualquer sociedade civilizada quando se dá uma ruptura de equilíbrio pelo predomínio de uma, ou de outra, daquelas duas forças.
Quando a ruptura de equilíbrio se dá pelo predomínio excessivo da força conservadora, dá-se uma estagnação, um entorpecimento, e o grau dessa estagnação depende do grau do predomínio da força conservadora. Por atrasada, porém, que seja essa sociedade progressiva, algumas classes haverá, visto que ela é progressiva, que não estejam dispostas a aceitar essa estagnação. Essas classes buscarão progredir, institiva ou conscientemente, e esse seu esforço produzirá, tarde ou cedo, dois resultados funestos. O primeiro é que perderão o contacto com as classes estagnadas do país, dando-se assim uma quebra de coesão social, e, portanto, uma baixa de vitalidade, por sua vez, atingindo-os, ou aos seus descendentes, diminui-lhes tudo quanto trabalha para o progresso — o poder de pensar originalmente, a imaginação construtiva, a vontade directora. O segundo é que, perdido o contacto com as outras classes do país, os progressivos são fatalmente levados a viver mentalmente com o estrangeiro, e assim se desnacionalizam, abrindo ainda mais o abismo entre eles e os outros, que, na sua estagnação, permanecem agarrados ao passado e às tradições nacionais.E, quando a baixa de vitalidade nacional por fim atinge as classes progressivas, essa vida com o estrangeiro, perdidas já as qualidades que originam e orientam, transforma-se em servilismo desnacionalizado, em mimetismo idiota das coisas que vêm de fora.
Quando a ruptura de equilíbrio se dá pela predominância da corrente progressiva, acontece que as outras classes, não podendo acompanhar esse progresso (se o pudessem acompanhar não se rompia o equilíbrio) e não se adaptando portanto a ele, passam a reagir violentamente, e o país cai na anarquia. como do mesmo modo, que no caso contrário, um abismo se abre entre as duas partes do país, temos a mesma perda de coesão e, portanto, de vitalidade nacional. E como uma dessas partes, não coerindo com a outra, passa a viver mentalmente do estrangeiro, temos aqui também, mas em maior escala, o fenómeno de desnacionalização, que no caso oposto também se notou.
Há, em dois pontos, semelhança entre os resultados dos desequilíbrios; em ambos os casos perda de coesão e de vitalidade nacional, em ambos os casos desnacionalização de parte do país. A explicação é simples. É que esses fenómenos são os que caracterizam todas as decadências, e as decadências são, por igual, a estagnação em que uma sociedade superconservadora se enterra, e a anarquia em que cai uma sociedade superprogressiva.
No intuito, cuja razão já expliquei, de simplificar o problema, tenho estudado apenas os seus traços fundamentais. Isto não quer dizer que ele não seja, quando estudado com um fim puramente científico, muito mais complexo e que não haja, nos períodos de estagnação, fenómenos de anarquia, nem nos de anarquia, fenómenos de estagnação. Esses fenómenos, porém, são, em cada um dos casos, secundários; vinco apenas, em cada caso, o fenómeno fundamental e definidor.
Isto posto, passarei desta análise geral ao estudo particular do problema português.
Encarando o problema português com o mesmo critério, e, portanto, com o mesmo propósito de simplificação, constata-se, sem grande trabalho, que na nossa vida nacional se deu uma grande ruptura de equilíbrio, e, muito depois, duas outras perturbações, de carácter secundário, e subsidiárias daquela.
Onde quer que se coloque o início da nossa decadência — da decadência resultante do formidável esforço com que realizamos as descobertas e as conquistas —, aí se deve colocar o início da grande ruptura de equilíbrio que se deu na vida nacional. Com a dispersão por todo o mundo e a morte em tantos combates, precisamente daqueles elementos que criavam o nosso progresso, o nosso pequeno povo foi pouco a pouco ficando reduzido aos elementos apegados ao solo, aos que a aventura não tentava, a quantos representavam as forças que, numa sociedade, instintivamente reagem contra todo o avanço. E um dos casos mais visíveis da criação de uma predominância das forças conservadoras. Com isto, visto à luz do que se explicou, queda revelado o porquê da nossa decadência.
Todos os fenómenos se seguiram, que na devida altura detalhei, como o seguimento fatal da supertradicionalização. O que restava de progressivo desnacionalizou-se depressa. Cavou-se um abismo entre esses e a maioria do país. Em uns e outros, o nível intelectual, o nível cultural e o nível da vontade prática e útil foi baixando. Um ou outro homem de maior destaque surgia e desaparecia e a sua obra, quando não morria com ele, morria pouco depois, pois não havia coesão social, por onde se propagasse, nem interesse intelectual, por onde, ao menos, se mantivesse. A Restauração, livrando-nos da maior vergonha externa, não nos livrou, nem trouxe quem nos livrasse, da vergonha interna paralela. Ficámos independentes como país e dependentes como indivíduos. Tornámos a ser portugueses de nacionalidade, mas nunca mais tornamos a ser portugueses de mentalidade. Nem portugueses, nem nada.
Só da obra do Marquês de Pombal alguma coisa ficou, e isso não pela energia do homem, nem mesmo pelas suas grandes qualidades de organizador, mas pelo ponto de apoio que deu a essa obra — o desenvolvimento industrial e comercial do país. No fim deste estudo se verá a que vem esta observação. O que Pombal criou, porém, sumiu-se com as invasões francesas. Depois delas a nossa desnacionalização teve o seu período abísmico: só o nome da nossa independência nos ficou. Pode, à primeira vista, parecer que a implantação do constitucionalismo representa uma reacção do espírito progressivo contra o peso do tradicionalismo. O constitucionalismo, porém, foi uma coisa muito diferente: foi um simples fenómeno de desnacionalização. Longe de suspender a nossa decadência, vincou bem que estávamos em decadência. Uma reacção do espírito progressivo procuraria reformar a nossa antiga monarquia, procuraria estimular energias, modificar o nosso modo de não ser económico. Reacção do espírito progressivo foi a obra de Pombal. O constitucionalismo, porém, não fez senão trazer-nos um regime político inteiramente estranho a toda a nossa vida nacional, inteiramente inadaptável a todas as condições, materiais como culturais, da nossa verdadeira índole. Destruiu e espoliou inútil e estupidamente, tendo em mira apenas a nossa impossível adaptação a um regime que nenhum sentimento português queria, e que a toda a inteligência verdadeiramente portuguesa instintivamente repugnava. O resultado foi aquela política que todos nós conhecemos, e que em oitenta anos o afundou. Foi isto o constitucionalismo — um 1640 feito por Miguel de Vasconcelos.
O único bem que o constitucionalismo trouxe proveio de um dos seus maiores males. As grandes convulsões sociais, as revoluções, as guerras civis, embora politicamente nada produzam, têm ao menos a vantagem de sacudir energias letárgicas; e é a este género de mal do constitucionalismo que devemos a eclosão, no século passado, de individualidades de destaque relativo, se bem que inegável. De obra política, porém, não deixou senão um abismo maior entre as classes sociais e uma desnacionalização mais adiantada e corrupta.
O que se diz do constitucionalismo pode dizer-se, sem perigo de errar, da implantação da República. Nenhuma reacção do espírito progressivo a instaurou; foi um fenómeno, ainda mais adiantado, da nossa decadência, da nossa desnacionalização.
Se o regime constitucional pouquíssimos pontos de contacto tem com quanto em nós seja português, a república francesa que implantaram em Portugal não tem, então nenhuns. Uma reacção verdadeira do espírito progressivo, se achasse indispensável acabar com o sistema constitucional, só o teria feito para reconstruir o nosso antigo sistema de regime, ainda que o fizesse (conceda-se) sob uma forma republicana.
Dizer da República que a sua vinda foi motivada pelos erros e crimes do constitucionalismo vale o mesmo que se se dissesse que a vinda do constitucionalismo fora motivada pelos erros e crimes da velha monarquia; em ambos os casos a justificação é incompleta, pois esses erros e esses crimes podem ser razão para se deitar abaixo o que, com efeito, se derrubou, mas não têm nada que ver com o ter-se posto lá o que, nos dois casos, lá se pôs.
Eis, pois, a nossa situação: fundamentalmente, uma ruptura de equilíbrio social por predominância dos elementos retrógrados e improgressivos; secundariamente, uma crescente desnacionalização, pois que a República levou o vírus do estrangeirismo a um maior número de classes do que a monarquia constitucional.
As condições do problema estão postas. Vamos, agora, à sua solução.
É evidente que a organização reconstrutiva a dar a uma sociedade onde se deu uma ruptura de equilíbrio varia consoante se trate de uma ruptura de equilíbrio por superprogressivismo ou por supertradicionalização. A supertradicionalização é um mal mais fundo, mas menos grave, que o excesso de espírito progressivo. O ponto é intuitivo: é mais fácil fazer ir para a frente mais depressa quem para lá vai indo muito devagar, do que fazer voltar atrás quem vá indo para a frente muito depressa. A base mental da supertradicionalização é a falta de educação e de vitalidade do espírito, no geral do povo; e, nas classes desnacionalizadas, uma educação escassa e viciada. A base mental do desequilíbrio oposto, é, em todas as classes, uma educação viciada, de onde deriva a acção excessiva de umas e a reacção violenta de outras. Ora o resultado psíquico de uma falta de educação é a ignorância, a estupidez, a falta de interesse, a carência de atenção e de vontade; o remédio a empregar deve atingir, portanto, directamente, as qualidades intelectuais, deve ser de ordem a produzir uma transformação mental da maioria do povo, de todo o povo mesmo, pois, produzida que seja na maioria apática, esta ou vitaliza ou esmaga a minoria desnacionalizada. Na educação viciada o caso é diferente, porque a educação viciada atinge primordialmente os sentimentos, e dá marcantemente a perversão do carácter; aqui, como é de ver, o remédio deve incidir directamente sobre os sentimentos, sobre as qualidades afectivas. Na supertradicionalização, a decadência revela-se directamente pela estagnação e o atraso, e apenas secundariamente pela descoesão social e pelo estrangeirismo; o remédio, portanto, sobre dever ser uma transformador mental, deve ser directamente adaptado a quebrar o atraso da nação.
No superprogressivismo, a decadência revela-se directamente pela anarquia e a desnacionalização; o remédio, nesse caso, sobre dever ser um transformador afectivo, deve tender directamente a unir as classes desunidas e fortalecer o patriotismo de todas.
No caso do superprogressivismo, o remédio é já patente. Há só um processo de transformar afectivamente uma nação inteira, aproximando, ao mesmo tempo, as classes desunidas e fortalecendo o patriotismo. Esse remédio é a guerra — uma guerra qualquer, preferivelmente justa, em que violentamente se lance a nação. É, sem dúvida, o processo germânico, a doutrina germânica. Mas isso é para mim uma garantia de que este raciocínio seguiu certo. Sempre que, em matéria de organização uma teoria é bem pensada, leva-nos a uma conclusão que os alemães já praticaram.
O caso do remédio para o excesso de espírito progressivo não é, porém, o que nos interessa.
No caso do superconservantismo, o remédio a aplicar tem de ser um transformador mental, criador de interesse e de energia, e, ao mesmo tempo, uma cura para o atraso da nação. Ora há só um género de transformação, aplicável a uma nação inteira, e pela qual se lhe avive o espírito e se lhe desperte interesse e vontade: é uma transformação profissional. E, como se trata de um país atrasado, e todos os países atrasados são predominantemente agrícolas, é evidente que a única transformação profissional a fazer, e que preenche todas as condições exigidas, é a industrialização sistemática dpaís.
Educação simultaneamente da inteligência e da vontade, transformador ao mesmo tempo da mentalidade geral e do atraso material do país, o industrialismo sistemático, sistematicamente aplicado, é o remédio para as decadências de atraso, é, portanto, o remédio para o mal de Portugal. E se, de há muito, esse remédio nos tem sido necessário, na conjuntura presente, em que, pelas condições da indústria moderna, pode ser rápido e, pelas condições gerais da civilização, tem que ser urgente, passa de ser uma necessidade para ser a primeira de todas as necessidades. Detalhar esse plano fundamental, assentar as suas bases práticas, estabelecer o modo de lhe dar realização — nenhuma destas coisas é objecto deste estudo ou assunto da minha competência. O que me cabia fazer está feito.