quinta-feira, agosto 07, 2014

Não (Se) Passa Nada

Não se passa nada de nada
Neste país meio delicodoce
Nenhuma culpa será provada
E mesmo que provada fosse
No sistema sempre habitual
Nunca seria como um coice
De um povo vazio tão igual.

Era bom ouvir proclamada
Mesmo com voz rouca de tosse
"Agora, aqui, já não passa nada!"

sábado, agosto 02, 2014

Fim


Que te diz o vento que passa?

«Olá, guardador de rebanhos,
Aí à beira da estrada,
Que te diz o vento que passa?»


«Nunca ouviste passar o vento.
O vento só fala do vento.
O que lhe ouviste foi mentira,
E a mentira está em ti.»

O meu olhar é nítido como um girassol.

O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo...

Alberto Caeiro
Poema II - Guardador de rebanhos