JCT Music

quarta-feira, novembro 19, 2014

ImpressionanTe....!!!

Youssou N'Dour ~ I Bring What I Love


Lydia

"As figuras de amadas, que aliás não existem como figuras, nos versos de Ricardo Reis são abstracções às avessas, ou vistas do avesso. Não são abstracções no sentido de serem abstractas, mas no sentido de terem apenas a realidade necessária para serem consideradas como existindo. São Chloes, Lydias e outras romanidades assim, não porque não existam, mas porque para o caso tanto vale ser Chloe como Maria Augusta, e, ao passo que esta última faz supor uma costureira, ou coisa parecida, com a agravante de o poder ser deveras, a gente sente-se realmente pagão com a Lydia.


No que o Reis tem muita sorte é em escrever tão comprimidos que é quase impossível seguir com a precisa atenção - supondo que ela é precisa - o sentido completo e exacto de todos os seus dizeres. É isso que faz com que aquela ode que começa: «A flor que és, não a que dás, eu quero» (pasmem, aliás, do «eu» antes do «quero», contra toda a índole linguistica portuguesa do Ricardo Reis!) disfarce que é dirigida a um rapaz, pois poucos há (perdidos como vão na escuridão sintáctica do poeta) que reparem no pequeno «o» que define a coisa.
        «Se te colher avaro
        A mão da infausta sphynge,» etc.
É a primeira vez que a sintaxe aparece como véu de pudor - delgado sendal, ou lá o que quer que seja, que cobre as partes do discurso."

AC

Neera


"Lenta, descansa a onda que a maré deixa.
Pesada cede. Tudo é sossegado.
        Só o que é de homem se ouve.
        Cresce a vinda da lua.
Nesta hora, Lídia ou Neera ou Cloé
Qualquer de vós me é estranha, que me inclino
        Para o segredo dito
        Pelo silêncio incerto."

RR

Chloe

"Nesta agitação interior da sensibilidade portuguesa, figuramos no texto nós dois, Caeiro e eu; o Fernando Pessoa é uma nota à margem, e o Ricardo Reis uma nota falsa.


Da filosofia íntima de Ricardo Reis conclui-se que ele não espera nada da vida senão vinho e morte. É simples mas um pouco frio, pois não aquecemos o vinho, como os romanos. Este contemplar calmo e quase afectivo da esperança da mortalidade absoluta tem qualquer coisa de já morto. Um ente vivo deve ao menos revoltar-se por ter que morrer, a não ser que julgue que não morre. Mas o Ricardo Reis trata a mortalidade como se fosse a imortalidade e tem uma fé simples e confiante em coisa nenhuma. Os faquirs concentravam-se fitando um ponto qualquer sem importância; mas não se poderiam concentrar se fitassem o espaço despido. O Ricardo Reis consegue este faquirismo da sensibilidade: fita o Nada, sorri, e pede vinho. De vez em quando vira-se para o outro lado e pede que o coroem de rosas. Nos intervalos vira-se para o terceiro lado e diz «Chloe». Esta Chloe, que às vezes descamba em Lydia, é pranteada na ode do Livro 1 com um adjectivo no masculino.
Bem sei que em Caeiro há a mesma indiferença para com a morte. Mas Caeiro encara a morte como uma criança que ouviu falar dela; Ricardo Reis como um velho que a tem à porta. Nem um nem outro acredíta na imortalidade, mas Caeiro não acredita porque não pensa, e Ricardo Reis não acredita porque não acredita em nada. Por isso a leitura de Caeiro, com mortalidade e tudo, anima e estimula como o sol e o céu, que também não acreditam na imortalidade, e pela mesma razão de Caeiro; e a leitura de Ricardo Reis desanima e desconsola - a ponto de chegar a estorvar, com um estrangulamento do nosso pobre coração, a verdadeira alegria estética que nos causa. Aquilo é belo como um belo cemitério. Admiramos e saimos logo. Quanto mais belo mais nos aflije. Por baixo, por contraste com a própria beleza, sente-se, como uma presença carnal às avessas, a realidade imaginável do Nada."

Álvaro de Campos

sábado, novembro 01, 2014

Fausto - muito melhor que o toni "carreira" antunes



Soldados de Baco

Estes vêm feros e amotinados 
Aqueles andam bravos muito acossados
Esses são mais grossos em algazarras 
Os outros mais tamanhos estendem as garras
Os bandarras , os bailarinos 
Os baptizados, os babuínos
Os levantados os paladinos 
Todos provocam malditos aos gritos

E alguns rapinam de pulo escaramuçam larápios
(bate bate sobre a terra sobre os céus)             
Todos à uma muzungos cafres e arábios
(pega pega pelas almas pelos céus)
Uns sem lei nem costumes mostram as partes traseiras
(bate bate sobre a terra sobre os céus)
E tanta gente responde mostra outras partes grosseiras
(pega pega pelas almas pelos céus)
Andam em roubos e desnudam os que vão derradeiros
(bate bate sobre a terra sobre os céus)
Dão de focinhos no chão dados por golpes rasteiros
(pega pega pelas almas pelos céus)

Vivem de muitas vidas na vida, hão-de viver como soldados de Baco na terra
Nunca a paz é a paz toda enfeitada de guerra
Enfeitada como um qualquer deus
Toda enfeitada de breu

Estes saltam brutos como bugias 
Aqueles fazem cruas carniçarias
Esses muito indígenas e carniceiros 
Os outros sanguinários muito estrangeiros
Os quadrilheiros os esgrimidos os acossados os carcomidos
Os vergastados os corrompidos --- todos em sangue lavados aos brados

E alguns dão Santiago dão nos bons e nos maus
(matas mato Valha-nos Nosso Senhor)
E todos enchem o ar o céu de pedras e paus
(mata esfola misericórdia Senhor)
Uns varados dos peitos do espinhaço à outra parte
(matas mato Valha-nos Nosso Senhor)
Tantas cabeças ao talho à força dos bacamartes
(mata esfola misericórdia Senhor)
Vão fustigados os braços as pernas e outros lugares
(matas mato Valha-nos Nosso Senhor)
Dão nos contrários uivando golpes mortais aos milhares
(mata esfola misericórdia Senhor)

Morrem de muitas mortes e à morte
Hão-de morrer como soldados de Baco na terra
Se nunca a paz é a paz toda enfeitada de guerra
Enfeitada------------como um qualquer deus
Toda enfeitada de breu

E alguns afrouxam calados calados pelas gargantas
(matas mato Valha-nos Nosso Senhor)
Todos vomitam de si chuvas de setas e lanças
(mata esfola misericórdia Senhor)
Uns vão de crânios abertos com as medulas de fora
(matas mato Valha-nos Nosso Senhor)
tantas ossadas e carnes que a lama engole e devora
(mata esfola misericórdia Senhor)

Morrem de muitas mortes e à morte
Hão-de morrer como soldados de Baco na terra
Se nunca a paz é a paz toda enfeitada de guerra
Enfeitada------------como um qualquer deus
Toda enfeitada de breu