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terça-feira, junho 21, 2016

"- E a tua alma? Para onde julgas que foi?


- Deve andar errando pela terra como tantas outras, à procura de vivos que rezem por ela. Talvez me odeie pelos maus tratos que lhe dei, mas isso já não me preocupa. Descansei dos vícios dos seus remorsos. Amargava-me mesmo o pouco que comia, e tornavam-se-me insuportáveis as noites, enchendo-mas de pensamentos inquietantes com figuras de condenados e coisas parecidas. Quando me sentei para morrer, ela pediu que me levantasse e continuasse a arrastar a vida, como se ainda esperasse algum milagre que me purificasse das culpas. Nem sequer tentei: 'Termina aqui o caminho', disse-lhe, 'Já não tenho forças para mais'. E abri a boca para que se fosse embora. E foi-se. Senti quando me caiu nas mãos o fiozinho de sangue com que estava amarrada ao meu coração."

Juan Rulfo, em "Pedro Páramo"

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