sexta-feira, julho 22, 2016

Cartas de Marcos Alves

"Levei a vida toda a sentir-me inadaptado mesmo ás suas cousas mais altas e adaptar-me a todas, mesmo, ás mais reles. Assim criei uma dupla personalidade, da qual ambos os entes são falsos. Por isso me não encontro. Por detraz do homem de espirito e /um pouco de sociedade/, sou o artista morto, e não o sou realmente. Vendo o que quiz ser, o que me julguei plenamente capaz de ser, e attentando no que hoje irremediavelmente sou, uma angustia enorme, como a de ter perdido a alma, ou um céo, sobe-me á cabeça. Nunca me senti senão atravez de uma idéa de mim. Tudo o que amei cedo ou tarde me veio a ferir Cortei todos os laços commigo proprio; hoje nada me amarra a mim a não ser o sentimento de dever estar amarrado. Só me sinto um ao attentar que sou, pelo menos, dois. Pergunta-me v[ocê] como vim dar n’isto – n’isto de ser o cavaqueador brilhante, o triunphador das attenções... Perdendo-me. Cada pedra com que construi a m[inha] reputação de blagueur, de artista, de – tirei-as ao muro, hoje desgastado, com que me vedara /do não-eu/. Hoje não tenho alma. Vendi-a a mim próprio, a troco de moeda falsa, beijos comprados, amizades inuteis, admiradores despreziveis, inimigos que me esqueceram.”

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