segunda-feira, agosto 29, 2016

Primeira incursão na gravação submarina...

O amor é uma companhia



O amor é uma companhia.
Já não sei andar só pelos caminhos,
Porque já não posso andar só.
Um pensamento visível faz-me andar mais depressa
E ver menos, e ao mesmo tempo gostar bem de ir vendo tudo.
Mesmo a ausência dela é uma coisa que está comigo.
E eu gosto tanto dela que não sei como a desejar.

Se a não vejo, imagino-a e sou forte como as árvores altas.
Mas se a vejo tremo, não sei o que é feito do que sinto na ausência dela.
Todo eu sou qualquer força que me abandona.
Toda a realidade olha para mim como um girassol com a cara dela no meio.

Alberto Caeiro

sábado, agosto 13, 2016

O sótão da infância...

"Molero fala da outra parte da verdade que se escapa", disse Austin, ajeitando o relatório nos joelhos, "fala da vida que se esconde em cada ser, do fluido em que essa vida continuamente se perde e reencontra, esse universo privado de sensações subtis que perseguimos e nos perseguem".  Houve uma pausa. "Diz ele", disse Austin, "que o relatório omite tudo o que ele, Molero, não sabe, apenas entrevê às vezes no seu emaranhado de notas, de observações, de ideias, de associações de ideias, ficando, de qualquer modo, e para sempre, a certeza de que falta uma parte vital dessa vida, a sua substância mais alada, a vida de um homem é sempre mais pesada, e também mais leve, sempre mais ampla, do que a avaliação dela feita por outro, o relatório é apenas um esforço orientado numa linha eminentemente superficial, e ai dele, Molero, se a sua jactância o levasse a pensar que estava a fazer mais do que isso".  Mister DeLuxe acenou com a cabeça. "Diz ele", disse Austin, "que há um súbito cheiro a jasmim trazido por brisa inesperada, um súbito olhar límpido de mulher num súbito terraço, uma bola amarela de criança que vem devagar tocar-nos nos pés, qualquer coisa de violino, ou qualquer coisa de harpa, que vem de qualquer coisa que é noite, ou apenas silêncio, uma luz filtrada de pausa em certo fim de tarde, o mar que chega à praia deste, peito, a onda que se estende quando chega, um cisne sem lago subindo o colo daquela mulher, ou a sua nudez ansiada como espuma de carne num lençol, a curva a que a mão dá o contorno, o cansaço nos lábios mordendo o cigarro, a amplidão de repente feita olhar, um grilo vem dos nossos campos de outrora e canta na noite, o sabor do café na manhã clara, uma saia que roda e faz fru-fru, a luz que rompe, rindo, em face suja, alguém recupera música esquecida assobiando, a madeira velha larga um odor de tudo o que apetece voltar a ter, um amigo chega, bate à porta e lembra-nos o que somos, uma frase atirada ao acaso dirige-se directamente ao coração de alguém, há uma gare que se percorre o tal abraço, um pedaço de relva enrola-se nos dedos distraídos, um barco ao longe está parado e leva-nos, é de um verde tropical o cenário que te enfeita, faço áleas de repente por saber que vens aí, e é como passear galeras ou palmeiras, ou alegria, ou esta primavera alvoroçado, este encontro marcado fonte e folha, brotas da geometria de um canteiro, o espaço exacto, há uma gota de orvalho no teu ombro, a gota de orvalho que há no teu ombro reflecte tudo o que é puro, matinal, tudo o que é puro e matinal em mim, embora eu já nem saiba como hei-de dizer tudo isto".  Houve outra pausa. "Diz Molero", disse Austin, "que um homem ama e odeia, ou é simplesmente indiferente, mas que tudo recomeça em cada minuto que passa, disseram-lhe que nasceu uma criança, amanhã vai ao enterro de alguém, laços fazem-se e desfazem-se dentro dele, segue sonhando a luz de um pirilampo ou de um farol, fica uma noite acordado a olhar para trás, há um sótão mágico onde vasculhar entre memórias, embora ele não saiba onde fica o sótão, acontece que ele existe e sobe-se para ele não se sabe como".  Mister DeLuxe juntou as mãos em frente do rosto. "O sótão da infância", disse ele, "às vezes vou lá buscar o meu tambor dos cinco anos". "É isso", disse Austin, sorrindo, "e eu às vezes vou lá buscar a emoção de roubar ninhos ou então o cheiro da borracha das botas de pescar do meu avô".

sábado, agosto 06, 2016

Eu poderia ter escrito isto...


"É a marca autoral que me fascina. Não só na poesia. Pode ser numa empresa. Alguém que cria uma empresa e a mesma é única. Isso é uma marca de criação, de génio, de alguma coisa que está em nós e nós trazemos para o mundo. O que é a autoria? É acrescentar o mundo em qualquer coisa que ainda lá não estava. Seja a escrever, a dizer poesia, ou em qualquer outra coisa. Os autores que me marcam e em relação aos quais vou atrás, são esses. Os que têm o cunho da autoria. Podia pensar nas coisas que li, por exemplo, quando li Dinis Machado - que se calhar é um nome que diz nada ou quase nada a grande número de pessoas – num livro que sai a seguir ao vinte e cinco de Abril e que se chama “O que diz Molero” - eu fiquei de pernas para o ar com esse livro. Andei em cambalhota vários dias seguidos, até aterrar outra vez. O Dinis Machado é alguém que escreve esse livro e praticamente desaparece, a não ser nos livros policiais. Fora do policial, a obra “O que diz Molero” é a única que marca. Mas é um livro que eu acho que alguém, depois de fazer aquilo, pode ficar descansado. É tão grande que não precisa de fazer mais nada."

...porque é exactamente isto que eu penso... e porque foi exactamente isto que me aconteceu... e exactamente na mesma altura...e tenho exactamente a mesma idade que quem o escreveu...enfim, apenas sincronismos. Está sempre a aconTecer-me.

quinta-feira, agosto 04, 2016

O livro dos amantes

Aumentámos a vida com palavras 
água a correr num fundo tão vazio. 
As vidas são histórias aumentadas. 
Há que ser rio. 


Natália Correia

Receita para fazer um herói


Tome-se um homem, Feito de nada, como nós, E em tamanho natural. Embeba-se-lhe a carne, Lentamente, Duma certeza aguda, irracional, Intensa como o ódio ou como a fome. 
Depois, perto do fim, Agite-se um pendão, E toque-se um clarim.
Serve-se morto.

Reinaldo FerreiraPoemas