sábado, agosto 13, 2016

O sótão da infância...

"Molero fala da outra parte da verdade que se escapa", disse Austin, ajeitando o relatório nos joelhos, "fala da vida que se esconde em cada ser, do fluido em que essa vida continuamente se perde e reencontra, esse universo privado de sensações subtis que perseguimos e nos perseguem".  Houve uma pausa. "Diz ele", disse Austin, "que o relatório omite tudo o que ele, Molero, não sabe, apenas entrevê às vezes no seu emaranhado de notas, de observações, de ideias, de associações de ideias, ficando, de qualquer modo, e para sempre, a certeza de que falta uma parte vital dessa vida, a sua substância mais alada, a vida de um homem é sempre mais pesada, e também mais leve, sempre mais ampla, do que a avaliação dela feita por outro, o relatório é apenas um esforço orientado numa linha eminentemente superficial, e ai dele, Molero, se a sua jactância o levasse a pensar que estava a fazer mais do que isso".  Mister DeLuxe acenou com a cabeça. "Diz ele", disse Austin, "que há um súbito cheiro a jasmim trazido por brisa inesperada, um súbito olhar límpido de mulher num súbito terraço, uma bola amarela de criança que vem devagar tocar-nos nos pés, qualquer coisa de violino, ou qualquer coisa de harpa, que vem de qualquer coisa que é noite, ou apenas silêncio, uma luz filtrada de pausa em certo fim de tarde, o mar que chega à praia deste, peito, a onda que se estende quando chega, um cisne sem lago subindo o colo daquela mulher, ou a sua nudez ansiada como espuma de carne num lençol, a curva a que a mão dá o contorno, o cansaço nos lábios mordendo o cigarro, a amplidão de repente feita olhar, um grilo vem dos nossos campos de outrora e canta na noite, o sabor do café na manhã clara, uma saia que roda e faz fru-fru, a luz que rompe, rindo, em face suja, alguém recupera música esquecida assobiando, a madeira velha larga um odor de tudo o que apetece voltar a ter, um amigo chega, bate à porta e lembra-nos o que somos, uma frase atirada ao acaso dirige-se directamente ao coração de alguém, há uma gare que se percorre o tal abraço, um pedaço de relva enrola-se nos dedos distraídos, um barco ao longe está parado e leva-nos, é de um verde tropical o cenário que te enfeita, faço áleas de repente por saber que vens aí, e é como passear galeras ou palmeiras, ou alegria, ou esta primavera alvoroçado, este encontro marcado fonte e folha, brotas da geometria de um canteiro, o espaço exacto, há uma gota de orvalho no teu ombro, a gota de orvalho que há no teu ombro reflecte tudo o que é puro, matinal, tudo o que é puro e matinal em mim, embora eu já nem saiba como hei-de dizer tudo isto".  Houve outra pausa. "Diz Molero", disse Austin, "que um homem ama e odeia, ou é simplesmente indiferente, mas que tudo recomeça em cada minuto que passa, disseram-lhe que nasceu uma criança, amanhã vai ao enterro de alguém, laços fazem-se e desfazem-se dentro dele, segue sonhando a luz de um pirilampo ou de um farol, fica uma noite acordado a olhar para trás, há um sótão mágico onde vasculhar entre memórias, embora ele não saiba onde fica o sótão, acontece que ele existe e sobe-se para ele não se sabe como".  Mister DeLuxe juntou as mãos em frente do rosto. "O sótão da infância", disse ele, "às vezes vou lá buscar o meu tambor dos cinco anos". "É isso", disse Austin, sorrindo, "e eu às vezes vou lá buscar a emoção de roubar ninhos ou então o cheiro da borracha das botas de pescar do meu avô".

Sem comentários: