quarta-feira, abril 12, 2017

William Shakespeare, in “Sonetos”






Comparar-te a um dia de verão?
Há mais ternura em ti, ainda assim:
um maio em flor às mãos do furacão,
o foral do verão que chega ao fim.
Por vezes brilha ardendo o olhar do céu;
outras, desfaz-se a compleição doirada,
perde beleza a beleza; e o que perdeu
vai no acaso, na natureza, em nada.
Mas juro-te que o teu humano verão
será eterno; sempre crescerás
indiferente ao tempo na canção;
e, na canção sem morte, viverás:
Porque o mundo, que vê e que respira,
te verá respirar na minha lira.

quarta-feira, abril 05, 2017

À sombra das velhas em ramos mortos


A. a nossa geração aburguesou-se. Agora a medo, ostenta. Numa falta de coragem tão doentia como cómoda. Os anos passaram e atura as gelhas no corpo e no espírito com que envelheceu. Actualmente com o rosto dos seus avôs, sem perceber bem o espelho e o que foi do calendário. Há muito que poisou os ideais que não teve a sério. Mas também nunca fez nada a sério... Não lutou, não conquistou, não trabalhou...e a dignidade nunca apareceu. Viveu para ver os outros triunfarem e para os finais de semana, numa melodia ligeira de vida. Persiste no equívoco de que com o efeito harmónico do eterno retorno há-de regressar ciclicamente a anteriores dias melhores... 

segunda-feira, abril 03, 2017

O serralheiro responde à Maria José



ENCONTRO À JANELA DA VIDA.  
Helena Feital*

Menina Maria José

Desculpe esta carta porque se calhar não é o melhor momento para o fazer, mas se não lhe escrevesse ia arrepender-me. Já ando para pegar numa caneta e ser eu. Verdadeiro e sincero no que escrevo. Há quanto tempo, nem sei!
Vejo-a tantas vezes à janela passando o tempo e sei que conforme os dias, está mais triste, ou mais risonha. Gosto de ver esse sorriso e esse olhar que brilha mais com o entusiasmo.
Como naquele dia em que o gato se pegou à pancada com o cão, lembra-se?
Foi quando o nosso olhar e o nosso riso se encontraram pela primeira vez. E de repente, senti um calor desconhecido no meu peito. Fiquei atarantado, porque nunca tinha sentido tal afecto, por nenhuma mulher.
Gostei da sua cara muito jovem e inocente e ainda mais dos seus olhos lindos e inteligentes, cheios de amor.
Disseram-me que a sua saúde não anda muito bem e que os seus problemas são graves. Peço-lhe, não perca a esperança! Mantenha-se igual nessa ideia de se dar às pessoas.
Porque eu sei que o que vê da sua janela não tem maldade e muito menos a intenção de dizer mal sobre alguém. É a vida para lá disso que os seus olhos procuram constantemente. O carinho.
Não sou homem para lhe dar ilusões de mentira. Isso não é comigo. Mas sou o homem que lhe propõe uma grande amizade. Sou o seu amigo, inteiro e de coração. E a amizade é um sentimento cheio de amor, não acha?
Por isso, sempre que quiser desabafar, o meu ombro amigo está à sua espera. Talvez duma carta sua, quem sabe?
Sei que já me viu com uma rapariga loura, não é assim?
Pois, eu sou um homem que gosta de companhia. Às vezes mal, outras vezes nem dou por isso, mas já amei e ficou comigo o desgosto. Bom, chega de falar de mim.
Já agora, o que me diz de eu a levar através desta carta, até à minha oficina, onde sou serralheiro?
Aqui trabalhamos o ferro que moldamos com o fogo e martelada, após martelada, até conseguirmos dar-lhe a forma que pretendemos. Têm saído daqui obras de que me orgulho. Das nossas mãos surgem lindas varandas de ferro forjado com desenhos arredondados que são a forma de lhes dar vida. Retorcidos, encaracolados, arcos que formam, como diz a minha mãe, “rendas de ferro”.
Aqui na sua rua, mesmo lá em cima, há um prédio com varandas assim e tem também a porta de madeira onde abriram espaço para pôr vidro e por cima dele, desenhámos uma composição em ferro forjado de que toda a gente gosta.
Chego a pensar que Campo de Ourique vai ter muitos prédios assim que, no futuro, serão considerados obras de arte. O nosso bairro será reconhecido pelo seu gosto à arte e à poesia, grandiosa.
Por agora o meu adeus que não será por muito tempo.

Com amizade do seu amigo,
António
Lisboa, 1 de fevereiro, 1933

* aluna da Universidade Sénior de Campo de Ourique

O Grande Banho de sábado !!!